Mês: agosto 2008

Clipe: ‘Who’s gonna save my soul?’ Gnarls Barkley

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O Diego acha que é obra-prima. Eu ainda não sei. Pra mim, é grotesco e genial, genial e grotesco, não necessariamente nessa ordem (mas ando enxergando genialidade até em show do Muse). Tirem conclusões, por favor. Já que todo mundo merece crédito nesta vida, o diretor do clipe é o Chris Milk.

Porão do Rock, segunda noite

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Antes que me perguntem: não, não gosto do Muse. Não tenho os discos, não assisti ao DVD, não tenho o pôster do Matt Bellamy na parede do meu quarto e não fico matutando com meus botões se o trio pode ser encarada como uma banda de indie rock, de heavy metal, de prog rock ou de calypso. Para mim, tanto fez, tanto faz. Que os fãs descabelados me perdoem, mas tudo o que consegui ouvir nos álbuns deles (e ouvi todos os álbuns) foi o óbvio ululante: um Radiohead com mania de grandeza.

Daí minha surpresa quando, durante o show da banda na segunda noite do Porão do Rock, me peguei abobado, hipnotizado, meio tonto diante de um dos espetáculos mais poderosos que vi em muito tempo. Em 80 minutos, entendi tudo o que eu precisava saber sobre o Muse. E tive cinco orgasmos. E vi o messias.

Eu poderia estar de gozação, mas (para azar da coerência) nem estou. É numa grande arena ao ar livre que o Muse explica por que merece toda a fama européia. Não consigo lembrar de outro show de rock em Brasília com essa demonstração de profissionalismo acima de qualquer suspeita, com esse porte circense e hiperativo de blockbuster hollywoodiano. E não falo dos jatos de fumaça, dos balões gigantes, do telão multicolorido nem da purpurina que Bellamy joga na platéia vez ou outra, mas do impacto provocado pela potência do som (pesadíssimo) e pela performance milimetricamente correta do vocalista e guitarrista (e pianista, e entertainer). Se muita gente sai do show em dúvidas sobre um possível uso de playback, ponto para Bellamy, o ilusionista da vez.

Sei que eu deveria estar entre os que reclamam da grandiloqüência e a afetação desse parque temático do rock farofeiro. “É o equivalente a um show do Capital Inicial na Esplanada dos Ministérios”, ouvi falarem. Não concordo (há uma distância considerável entre Dinho e Bellamy, mesmo que os dois sintam muita saudade de Freddy Mercury), mas me vejo disparando esse tipo de comentário genérico e blasé. Por hoje, passo a bola.

Com a idéia fixa de soterrar o público numa experiência sensorial feroz, o Muse não decepciona. Lá pelas tantas, até o ranzinza aqui bateu palmas e cantarolou o refrão e gritou “ôôôô” enquanto Bellamy improvisava no piano branco (quer coisa mais brega?). Sub-Radiohead? Sim. Mas, se Thom Yorke se revolta desesperadamente contra o domínio de uma tecnologia que não consegue controlar, Bellamy é o próprio andróide à prova de falsetes desafinados e de solos desencontrados.

Tudo o que tenho a dizer diante dessa demonstração de precisão, apesar de ainda não gostar de quase nenhuma música que eles tocaram, é ‘ok, computador’.

O Porão do Rock de sábado poderia ter virado um apêndice do show do Muse. Mas não. Teve Mundo Livre S/A num show ruidoso e cheio de canções conhecidas, o Autoramas com mais uma prova de que é mesmo a melhor banda ao vivo de rock do país, o projeto divertido Vai Thomaz no Acaju (com Gabriel Thomaz, Móveis Coloniais de Acaju e repertório de hits brasilienses dos anos 90) e os franceses do Papier Tigre, com um pós-punk minimalista que soou estranho dentro de uma programação lotada de bandas de punk rock e surf music. E teve Pitty. Nem tudo é perfeito.

Porão do Rock, primeira noite

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O melhor momento da primeira noite de Porão do Rock foi o Fabrício Nobre, vocalista da MQN: “Vocês aí são todos uns bregas, vocês vieram ver o Suicidal Tendencies”, provocou. O pior foi descobrir que o Juninho Bill, meu ídolo aos cinco anos de idade, agora vocalista de uma banda chamada Astros, ainda não cresceu – e canta terrivelmente mal, o moleque.

A múmia: tumba do imperador dragão *

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The mummy: tomb of the dragon emperor, 2008. De Rob Cohen. Com Brendan Fraser, Jet Li e Maria Bello. 112min. *

A múmia: existe franquia mais ingênua que essa?

Há os filmes que me deixam com saudades das Sessões da tarde que não tive tempo de ver quando eu era criança, tão entretido estava eu com aulas de natação e passeios de bicicleta e partidas de videogame. E há os que me fazem suspeitar que, se eu tivesse passado minha infância inteira diante de Sessões da tarde, provavelmente isso teria feito de mim um perfeito imbecil. Este novo A múmia faz parte do segundo grupo.

Assisti aos dois filmes anteriores (e a Escorpião rei, incluído no box temático de DVDs) e ainda não consigo entender o apelo da série (talvez o tolo seja eu, já que o mesmo acontece com Piratas do Caribe e A lenda do tesouro perdido). Ainda mais em ano de Indiana Jones – que, perto do herói abobalhado de Brendan Fraser, fica parecendo um personagem criado por William Faulkner.

Mas reconheço: Fraser tem a força. A cada filme da série, aliás, ele insiste em me surpreender. São poucos os atores com a capacidade de pronunciar diálogos tão infantis e, ao mesmo tempo, posar de pai preocupado e de action hero destemido. A série existe por causa dele – ainda que Fraser perca algumas brigas contra longas seqüências de ação com a aparência de frias vitrines de efeitos visuais.

John Hannah, sempre no papel de John Hannah, faz alguma diferença. Os coadjuvantes, porém, podem ser trocados sem prejuízo para o resultado da equação. Pode parecer estranho ver Maria Bello no lugar de Rachel Weisz (e a substituição rende uma piadinha interna bonitinha e sem-gracinha), mas é uma sensação que dura até o momento em que percebemos como a maezona Evelyn fica quase à margem de uma trama que envolve um imperador chinês com mania de grandeza (Jet Li, desperdiçado como nunca), um exército de caveiras, maldições milenares e um time de abomináveis monstros da neve.

Desde A múmia, a série tenta se equilibrar entre a auto-paródia e a tentativa de se impor como uma franquia auto-suficiente. São aventuras engraçadinhas demais para provocar alguma tensão, pueris demais para sobreviver às sucessivas repetições de uma idéia que nunca soou nova. Elas rodopiam no vazio. Há uma cena em que o filho do personagem de Fraser reclama que o pai desengonçado despertou mais uma múmia. O papai responde: “Já venci essa briga duas vezes. E contra a mesma múmia”. Sim, e o espectador predisposto a topar a brincadeira que force uma crise de amnésia.