TROVÃO TROPICAL

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Tropic thunder, 2008. De Ben Stiller. Com Ben Stiller, Robert Downey Jr e Jack Black. 107min. ***

Tiremos logo o rinoceronte da sala: como paródia de superproduções, Trovão tropical está longe de representar alguma grande ousadia. Não é uma comédia tão demolidora quanto O jogador, de Robert Altman (até por optar pela caricatura em absolutamente todos os detalhes). E só deve incomodar àqueles que vêem como material explosivo numa cena que sugere a morte de um urso panda.

Então não dê trela para a equipe de marketing do filme: como brincaderia com os clichês de fitas de guerra, aliás, o longa de Ben Stiller poderia ter se assumido como um filhote tardio de M.A.S.H. Um eco distante. Uma homenagem. Um aceno.

Nos venderam este metablockbuster de uma forma equivocada por que, para o próprio bem, o filme me parece menos mega, menos ambicioso do que dá a entender. Os ataques de Stiller às manias de astros milionários (e aos chiliques de cineastas metidos a deuses) não devem ser levados terrivelmente a sério. Quando muito, a comédia ri da imagem grotesca que fazemos das celebridades – em revistas de fofoca, fotos de tablóides e programas apelativos de tevê.

Dito isso, não seria mais interessante encarar Trovão tropical como uma entre as comédia de turma, um tanto arruaceiras e bagunçadas para padrões de grandes estúdios, na linha de Ligeiramente grávidos e Quem vai ficar com Mary? Foi com esse espírito que entrei no cinema – e saí bastante convencido, muito satisfeito.

Ben Stiller não é um ótimo diretor – e ele tem perfeita noção disso. Logo no início da trama, o cineasta arrogante que comanda o filme-dentro-do-filme (uma espécie de Apocalypse now for dummies) é mandado para os ares. Para que esta comédia funcione, nos avisa Stiller, é preciso explodir o diretor e conceder todo o poder aos atores. Uma decisão que faz toda a diferença quando se tem Robert Downey Jr (que aqui vai muito além do Homem de Ferro) e Jack Black.

Se as gags são inconstantes (e há paródias mais eficientes, vide Chumbo grosso), não encontraremos em nenhuma outra comédia do gênero tiques tão divertidos quanto os dos personagens de Downey Jr (um ator australiano de prestígio que interpreta um oficial negro – e não consegue abandonar o papel) e de Black (o comediante viciado em crise de abstinência). E será difícil encontrar tiradas de Chris Rock tão perfeitas quanto as discussões entre Downey Jr e o rapper Alpa Chino (Brandon T. Jackson, também excelente). Stiller não é autor: é o técnico que valoriza os talentos dos jogadores em campo.

Com a estrutura de teatro de variedades, Trovão tropical metralha piadas na esperança de que alguma nos acerte. É excessivo, acelerado – mas menos caótico do que eu gostaria. A overdose começa logo nos trailers falsos à Grindhouse e atinge o cúmulo do patético nos créditos finais, com um Tom Cruise rebolando num figurino asqueroso. Mas Stiller, depois de empurrar o trem para fora dos trilhos, consegue chegar ao destino sem baixas, e amarrar um roteiro que, de surpresa, se revela circular, até polido.

Esse humor gonzo filtrado para o gosto do espectador de sitcom acaba rendendo a superprodução da Dreamworks mais feliz desde Shrek. E não é que os dois filmes, sátiras hilariantes e inofensivas, têm muito em comum?

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5 comentários em “TROVÃO TROPICAL

    Filipe disse:
    agosto 30, 2008 às 10:16 pm

    O Jogador pode até ter muitow méritos mas ser demolidor não é um deles.

    Diego disse:
    agosto 31, 2008 às 4:28 am

    Robert Downey Jr tá realmente muito melhor que em “Homem de Ferro”. Tenho todas essas ressalvas ao filme também (plus: é histérico e é filme de uma piada só), mas o elenco é bom demais (e deve ter improvisado pra caralho) e acho que é o filme mais politicamente incorreto desde “South Park: Bigger, Longer and Uncut”.

    “I don’t read the script; the script reads me!” – frase do ano! ahahha

    Tiago respondido:
    agosto 31, 2008 às 9:42 pm

    Puts, nem tô com cabeça pra discutir a aplicação da palavra “demolidor”. Enfim. Fica pra outra hora. Whatever. ‘O Jogador’ me parece um ataque menos caricato, apesar de trabalhar com simplificações mil também.

    Sim, Diego, também muitas ressalvas por aqui. Eu daria 2 estrelas e meia, se fosse possível. Nota 7 etc.

    Filipe disse:
    setembro 1, 2008 às 2:44 am

    Eu acho que é menos uma questão de caricatura e mais de vulgaridade mesmo (e falo isso sem nenhum julgamento).

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 1, 2008 às 2:34 pm

    Ok!

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