MR. VINGANÇA

Postado em Atualizado em

Boksuneun Naui Geot/Sympathy for Mr. Vengeance, 2002. De Chan-wook Park. Com Kang-go Song, Ha-kyun Shin e Du-na Bae. 119min. ***

Semana passada me convidaram para participar um debate num cineclube. O filme a ser discutido: Mr. Vingança, a primeira parte da trilogia da vingança de Chan-wook Park (depois dele, vieram Oldboy, que acho uma beleza, e Lady Vingança, que ese engasga com os próprios excessos). “Sei que você acompanha o cinema oriental, filmes inspirados em quadrinhos, todo esse universo mais pop”, e foi assim que me abordaram. Não sou grande fã de quadrinhos. Não tenho esse conhecimento todo de cinema oriental. Odeio falar em público. Mas aceitei o convite – como quem se alista numa espécie de missão humanitária de alto risco.

O detalhe constrangedor é que eu, o expert em cinema oriental, não havia assistido ao filme. Pior: quando finalmente consegui ver o longa, me descobri numa situação delicada – eu não havia me interessado muito por ele. Na verdade, comecei a desconfiar que meu caso com Oldboy teria sido uma exceção dentro da filmografia de Park. Mr. Vingança, numa primeira olhada, me pareceu talentoso mas simplório – um conto de vingança narrado com um estilo espalhafatoso, que chama atenção para si como uma banda de heavy metal mediana que se destaca graças ao figurino extravagante.

Fui ao debate assim, sem chão, sem argumentos, meio sem saber o que debater – para mim, não havia o que tirar daquele filme. Foi aí que me surpreendi com Mr. Vingança e comigo mesmo. No final da exibição, eu estava diante de um outro filme: mais robusto, seguro de si, incômodo e bem diferente de tantos contos de vingança que nos vendem por aí.

É um filme como tantos outros, já que vê na vingança um círculo de agressões sem vencedores. Mas é um filme diferente dos outros, já que essa tese vem acoplada à forma do filme – ao modo como Park filma os violentos atos vingativos. Em Oldboy, ele levaria esse olhar ao extremo na cena em que uma sessão de pancadaria (à videogame) é alongada até provocar nauseas. Em Mr. Vingança, os planos longos e os silêncios pesados corrompem os clichês de fitas policiais, emprestam um sentido diferente a eles. Não há recompensa para a violência. A narrativa às vezes beira o surrealismo, mas a dor é real.

No debate, uma experiência menos sangrenta do que eu esperava, os convidados (todos estudantes universitários) atentaram para outros traços do filme: a brincadeira com gêneros (o filme oscila entre o melodrama e o thriller policial), os homenagens do diretor ao cinema americano (especialmente a Hitchcock, quando o protagonista é praticamente abandonado na metade da trama) e a mania que ele tem de aumentar a potência de cada seqüência até o ponto mais exagerado. Nos créditos finais, um personagem explica a “moral da história” tão didaticamente que quase nos obriga a desprezar qualquer outra forma de entender o filme. É um grande cinema? Não sei, talvez seria melhor enxergar nele um cinema em construção – mas capaz de provocar quase duas horas de boa conversa.

Fiquei com vontade de rever Lady Vingança. De preferência com um debate logo em seguida.

Anúncios

14 comentários em “MR. VINGANÇA

    SEMIONATOW disse:
    agosto 30, 2008 às 2:19 am

    cara, que chatura; a gente espera que v. teça consideraçoes sobre a droga do debate, sua participaçao, as perguntas e silencios constrangedores, se trocaram sua agua, se voce bebeu a agua que te deram, se sua garganta ficou seca, seca, sequinha, e niente.

    e v. é uma celebridade local. venha pro rio, venha pro anonimato.

    Tiago respondido:
    agosto 30, 2008 às 12:16 pm

    Bem-vindo à temporada da chatura.

    Érico disse:
    agosto 30, 2008 às 4:26 pm

    Eu não gosto nem do Oldboy.. e acho que tirando a ascendência, não vejo muitas características do cinema oriental no Park.

    Agora, Alves, sua vida anda uma merda, não?

    SEMIONATOW disse:
    agosto 31, 2008 às 5:04 am

    erico, shut up. é o erico do late rip morto adorocinema?

    li em total primeira mao um dos livros mais esperados do ano (por pessoas nao especialmente geniais), candy girl, da diablo cody.

    ler candy girl (“um doce de menina”, pela n. fronteira) nao é uma chatura. meu nome tara la. aposto que se incluisse foto eu seria uma celebridade no mundo questao-de-imagem do rio.

    tiago, vi agora o que sucedeu contigo no barbeiro. fiquei na duvida. o que se passou foi ipsis litteris com o transcrito? porque i’m very much interested nos ritmos da fala humana e acho dificil um desses, perfeito e exato, ocorrer no burburinho de salao.

    uma pergunta: seu barbeiro conserva revista de mulepelada?

    anyway, mais sobre sua recente (e merecida) fama, menos sobre todo o resto, por favor.

    Tiago respondido:
    agosto 31, 2008 às 9:43 pm

    Não. Nunca é ipsis litteris. Sempre é um discurso reconstruído.

    SEMIONATO disse:
    agosto 31, 2008 às 10:30 pm

    ok, foucault.

    voce ta brabo comigo? nem falei como critica, é um brabo dum elogio. que que tem eu (e muitos mais) achar que voce é melhor observador do cotidiano que de filmes ou musica?

    me diz se voce quer once and again s1, e so se quiser de verdade (porque é um saco copiar).

    Tiago respondido:
    agosto 31, 2008 às 11:13 pm

    Não estou brabo, e valeu pelo elogio. Vê, isso é o legal do blog: você ganha as tais observações do cotidiano e, de bônus, comentários medíocres de cinema e de música.

    SEMIONATO disse:
    setembro 1, 2008 às 12:30 am

    eu nao disse isso. todo mundo adora o seu texto, em geral, sobre qualquer coisa. so que nos (apenas eu, sera?) gostamos mais do “qualquer coisa”, das observaçoes tecidas sobre algo que te sucedeu, da comicidade larry david.

    voce é um observador especial e arguto de cotidianices e so achei que v. podia evidenciar essa verve com mais afinco.

    seus textos sobre cinema e musica me agradam, nao sei de onde voce tirou que nao. um dos blogues imperdiveis da internet, carregarei um button junto ao meu paleto de madeira.

    SEMIONATO disse:
    setembro 1, 2008 às 12:32 am

    voce ta penando com gilmore, nao?

    episodios 5, 7 e 8 (o 6 nao, nao!) sao bonissimos, stay tuned.

    Tiago respondido:
    setembro 1, 2008 às 1:11 am

    Ok, Guilherme, entendi. O problema é que os textos sobre cotidiano costumam trazer problemas. E você sabe disso.

    SEMIONATO disse:
    setembro 1, 2008 às 4:50 am

    mas os problemas constituem metade da diversao (“como ele vai se safar disso?!” etc.)

    hmm. um abraço, boa jornada de trabalho.

    Michel Simões disse:
    setembro 2, 2008 às 5:14 pm

    Putz Tiago, vi o filme no domingo, e achei uma merda.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 2, 2008 às 5:19 pm

    Explique aí o motivo.

    Michel Simões disse:
    setembro 5, 2008 às 5:08 pm

    Só pq o cara é surdo mudo não quer dizer q seja retardado mental, e quase sempre ele é tratado assim. Um retardado mental psicopata, é verdade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s