Dia: agosto 29, 2008

MR. VINGANÇA

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Boksuneun Naui Geot/Sympathy for Mr. Vengeance, 2002. De Chan-wook Park. Com Kang-go Song, Ha-kyun Shin e Du-na Bae. 119min. ***

Semana passada me convidaram para participar um debate num cineclube. O filme a ser discutido: Mr. Vingança, a primeira parte da trilogia da vingança de Chan-wook Park (depois dele, vieram Oldboy, que acho uma beleza, e Lady Vingança, que ese engasga com os próprios excessos). “Sei que você acompanha o cinema oriental, filmes inspirados em quadrinhos, todo esse universo mais pop”, e foi assim que me abordaram. Não sou grande fã de quadrinhos. Não tenho esse conhecimento todo de cinema oriental. Odeio falar em público. Mas aceitei o convite – como quem se alista numa espécie de missão humanitária de alto risco.

O detalhe constrangedor é que eu, o expert em cinema oriental, não havia assistido ao filme. Pior: quando finalmente consegui ver o longa, me descobri numa situação delicada – eu não havia me interessado muito por ele. Na verdade, comecei a desconfiar que meu caso com Oldboy teria sido uma exceção dentro da filmografia de Park. Mr. Vingança, numa primeira olhada, me pareceu talentoso mas simplório – um conto de vingança narrado com um estilo espalhafatoso, que chama atenção para si como uma banda de heavy metal mediana que se destaca graças ao figurino extravagante.

Fui ao debate assim, sem chão, sem argumentos, meio sem saber o que debater – para mim, não havia o que tirar daquele filme. Foi aí que me surpreendi com Mr. Vingança e comigo mesmo. No final da exibição, eu estava diante de um outro filme: mais robusto, seguro de si, incômodo e bem diferente de tantos contos de vingança que nos vendem por aí.

É um filme como tantos outros, já que vê na vingança um círculo de agressões sem vencedores. Mas é um filme diferente dos outros, já que essa tese vem acoplada à forma do filme – ao modo como Park filma os violentos atos vingativos. Em Oldboy, ele levaria esse olhar ao extremo na cena em que uma sessão de pancadaria (à videogame) é alongada até provocar nauseas. Em Mr. Vingança, os planos longos e os silêncios pesados corrompem os clichês de fitas policiais, emprestam um sentido diferente a eles. Não há recompensa para a violência. A narrativa às vezes beira o surrealismo, mas a dor é real.

No debate, uma experiência menos sangrenta do que eu esperava, os convidados (todos estudantes universitários) atentaram para outros traços do filme: a brincadeira com gêneros (o filme oscila entre o melodrama e o thriller policial), os homenagens do diretor ao cinema americano (especialmente a Hitchcock, quando o protagonista é praticamente abandonado na metade da trama) e a mania que ele tem de aumentar a potência de cada seqüência até o ponto mais exagerado. Nos créditos finais, um personagem explica a “moral da história” tão didaticamente que quase nos obriga a desprezar qualquer outra forma de entender o filme. É um grande cinema? Não sei, talvez seria melhor enxergar nele um cinema em construção – mas capaz de provocar quase duas horas de boa conversa.

Fiquei com vontade de rever Lady Vingança. De preferência com um debate logo em seguida.

THE HAWK IS HOWLING | Mogwai

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O novo álbum do Mogwai sugere um flashback. Onze anos depois da estréia, Mogwai young team, o escoceses voltam a trabalhar com o produtor Andy Miller. Apesar de recorrer a alguns elementos de música eletrônica, retornam a um formato mais econômico de pós-rock. Escoradas em guitarra, bateria e piano, as faixas são sempre instrumentais (lá se vão os vocais de Rock action, de 2001) e que se espalham em longa duração (lá se vai o esquema compacto de Mr. Beast, de 2006). São orgulhosos passos para trás.

Esse ajuste ao modelo original provavelmente fará com que The hawk is howling atenda às expectativas dos fãs e de parte da crítica. É como se a banda tivesse criado o álbum para responder a resenha da Pitchfork sobre Mr. Beast: “O Mogwai acerta quando deixa a própria música fluir, respirar”, escreveram. Se é assim, então o novo disco é um acerto.

Mas um acerto calculado. Para quem esperava um novo Mogwai young team, o disco faz o possível para provocar lembranças agradáveis. As duas primeiras faixas contêm o álbum inteiro: I’m Jim Morrison, I’m dead é esparso, belo e triste. Já Batcat revida com um rolo compressor de guitarras. Lá no final do disco, I love you, I’m going to blow up your school alia os dois humores e chega perto do clima sombrio de Come on die young (1999), que ainda vejo como o grande momento deles.

Ainda bem que o Mogwai divulgou o nome das músicas com bastante antecedência, ou elas roubariam a cena. Para quem os conhece bem, The hawk is howling sai-se como uma demonstração competente, ainda que previsível (mas não é isso que os fãs querem? Que eles parem logo de tentar novidades?), de que esses radicais também sentem saudade. Play it again, Mogwai.

Sexto álbum do Mogwai. 10 faixas, com produção de Andy Miller. Wall of Sound/Play It Again Sam. **