Superoito superexposto

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Meu pior pesadelo se transformou em realidade: virei uma celebridade local.

Aconteceu de uma hora para a outra, sem que eu percebesse. No coquetel de lançamento de um livro, não notei a presença de um fotógrafo profissional, desses que andam de colete cheio de bolsos para guardar lentes. Só lembro de ter ouvido algo como “ei, juntem-se vocês cinco aí pra uma foto”. Imaginei que seria uma recordação, daquelas que os amigos tiram e perdem entre as 550 outras fotos guardadas na memória da câmera digital. Mas não era isso. Muito extraordinariamente longe disso.

Mal sabia eu que, uma semana mais tarde, aquela imagem estaria na página 86 de uma revista duvidosa e medíocre, daquelas que se sustentam às custas de matérias pagas e flashes de socialites. Logo eu, o tímido, o bicho-do-mato, o recluso, o zé-ninguém, numa pose para a página 86. Eu, sem vocação para Britney Spears, na página 86.

Não que eu tenha me importado com isso – pelo menos não num primeiro momento. Não comprei a revista. Não li, não vi, não sabia da existência. É uma publicação muito comentada por frequentadores de salão de cabeleireiro e jantares beneficentes, então não li. Mas aí, no trabalho, me avisaram sobre a novidade. “Tá na revista, hem”. E eu pensei “que coisa” e esqueci da história. Dois dias depois, a notícia estava na boca do povo.

Primeiro aconteceu no multiplex. A atendente da bombonière me reconheceu, sabe-se lá como. “Você é famoso, né?”, ela quis saber. Eu respondi “não, não sou”. Ela insistiu: “É sim, é famoso”, e eu soltei um sorriso meio nervoso e desorientado e completei com um “você está me confundido com outra pessoa, normal, acontece, fique com o troco”. Ao notar que não teria como me convencer de outra forma, ela sacou o argumento indiscutível. “Te vi na revista. Numa foto. Uma foto do tamanho do meu dedão, mas uma foto”, e eu lembrei logo da página 86 e disse “obrigado, mas aquilo foi um lapso”. E completei: “Não sou famoso”.

Minhas explicações não adiantaram. No dia seguinte, em plena praça de alimentação do shopping, uma outra mulher me abordou no minuto anterior àquele que em que eu avançaria no sanduíche de mortadela. “Te reconheço de algum lugar”, e eu imaginei mil possibilidades antes de que ela fizesse referência a uma certa página de uma certa revista.

“Ah. Aquilo foi um erro. Me confundiram com outra pessoa”, eu disse.

“Mas seu nome não é Tiago? Você não é jornalista?”, ela tentava uma confirmação, a pobre alma.

“Não. Não sou nada disso. Meu nome não é Tiago”, e encerrei a conversa, perdi a fome, quase comprei um boné nas Lojas Americanas. Eu queria meu anonimato de volta.

O mais estranho aconteceria uns dois dias depois. Eu já estava tranqüilo com meus dias de celebridade instantânea. Já estava à espera de uma comunidade no Orkut, de um fã-clube em Taguatinga. Dos males o menor: o destino daquela edição seria a lata do lixo, e assim página 86 seria esquecida para toda a eternidade, junto com os vestidos de noiva da página 85 e o antes-e-depois da 87.

Mas seria mesmo? Não quando cheguei em casa e, na minha cama, descobri um recorte de revista. Daquela revista. Da página 86. Estava lá, muito bem cortado, com um post-it amarelo colado na minha testa. “Ficou lindo, filho. Estou orgulhosa”, informava o bilhete, assinado pela minha mãe. “PS: Tirei xerox. Ficou mais bonito ainda”, completou. Em oito anos de jornalismo, minha mãe deve ter lido umas três matérias que escrevi. Juro. Umas três matérias. E duvido que tenha lido alguma delas até o fim. Mas aquela fotografia meio que roubada, publicada numa revista vagabunda, do tamanho de um maldito dedão, foi o suficiente para justificar meus quatro anos de faculdade e minha carreira profissional inteira.

Eis a moral desta fábula urbana: minha imagem numa revista, em qualquer revista, vale por mil palavras (e fotografia em coquetel, nunca mais).

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10 comentários em “Superoito superexposto

    rafaéu disse:
    agosto 27, 2008 às 12:39 pm

    Huahuahua…. vamos às possibilidades: a) você é muito bonito. b) você é muito feio. c) as cabeças estão tão cheias de pensamentos que tá cabendo fotos polegares nas memórias.

    para ser otimista, eu voto em b :)
    huahua

    off: uh… otima imagem no topo!

    Michel Simões disse:
    agosto 27, 2008 às 5:16 pm

    Seus 15 minutos de fama, que parecem estar durando mais do que vc gostaria haha

    Faça como o Roberto e entra na justiça para retirar de circulação a revista com sua foto.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 27, 2008 às 5:21 pm

    Acho que já saiu de circulação.

    Rafaéu, aposte na opção b.

    Diego disse:
    agosto 27, 2008 às 6:21 pm

    HAHAHA, sensacionais esses dois últimos posts.

    Érico disse:
    agosto 28, 2008 às 5:04 am

    Tira o Scan da foto aí pra gente, pô! Agora que “Brasília” inteira já viu mesmo..

    Mas você já é celebridade desde “A Evolução do Homem”, lembra disso?

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 28, 2008 às 1:58 pm

    Puts. Escanear não. Já chega disso, né.

    Marcelo Lopes disse:
    agosto 28, 2008 às 4:38 pm

    Eu também já imaginei isso acontecendo comigo… e não gostei nem um pouco.
    É bem indelicado perguntar isso, mas… essa sua história renderia um conto interesse. Vc cede os direitos da memória? :D
    E eu tenho que dizer isso: ótima imagem do topo!

    Abs,
    Marcelo.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 28, 2008 às 4:39 pm

    Os direitos são seus, fique à vontade.

    Leonardo Bernardes disse:
    setembro 2, 2008 às 5:41 pm

    E aí, esse scan sai ou não sai?

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 2, 2008 às 5:45 pm

    Não sai.

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