Dia: agosto 26, 2008

EXIT STRATEGY OF THE SOUL | Ron Sexsmith

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Ron Sexsmith faz sempre o mesmo disco. Mas quem há de reclamar? O canadense que queria ter nascido com os genes de Paul McCartney e de Elvis Costello está ainda, e sempre, em busca do álbum perfeito.

Não é, aviso, a idéia que eu ou você fazemos de um álbum perfeito. Tudo o que ele quer é reproduzir a precisão pop e a elegância discreta de canções como Junk (de McCartney) ou Painted from memory (que Costello compôs com Burt Bacharach).

A punição para compositores que não compreendem o grau de dificuldade que existe nessas referências é brutal: música de elevador, trilha para consultório de dentista. O canadense nunca se fez descartável. A obra de Sexsmith é plácida, mas não é burra. E, claro, soa redundante – mas isso só percebe quem acompanha todos os discos, um a um, a espera de algum tremor de novidade.

Apesar de um timbre de voz que às vezes lembra Rufus Wainwright, ele nunca quis aparecer. Apesar de ter composto com Feist (Brandy Alexander está no novo disco), não tem porte de atração principal. Ele fica lá, no canto dele.

Exit strategy of the soul não muda essa condição. Talvez seja um dos mais perfeitinhos que gravou – mas como comparar com os tão iguais Blue boy, de 2001, ou Other songs, de 1997? As referências de country rock continuam todas lá, apesar de Sexsmith ainda demonstrar certa indecisão entre o lado mais tradicional (a ótima Poor helpless dreams) e o contemporâneo (Traveling alone). Abusa de sopros e arrisca faixas instrumentais, mas não sabe se está mais para Jeff Tweedy ou para Ryan Adams.

E talvez não queira nem saber. Sexsmith é tão low profile que faz pouco caso de uma qualidade que poucos têm: a capacidade de soar despretensioso e (sim) reconfortante sem escorregar em banalidades. Um especialista em pequenos belos discos, se é que alguém ainda se interessa por esse tipo de coisa.

Décimo álbum de Ron Sexsmith. 14 faixas, com produção de Martin Terefe. Yep Roc. **

O MISTÉRIO DO SAMBA

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O mistério do samba, 2008. Documentário de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda. 90min. **

Sou ruim da cabeça e doente do pé. Tenho carnavalfobia. Odeio paetê e outras frescuradas. Ainda assim, qualquer produto com as histórias, as músicas, as vozes e as rugas da Velha Guarda da Portela conta com o meu apoio sincero. Nem me preocupo tanto assim com jogadas comerciais: são canções, causos e pessoas que merecem algum registro, que merecem (e não me perguntem exatamente por que) um lugar nas prateleiras da megastore.

Então tanto faz: pode ser em box de DVD, em CD, em revista em quadrinhos ou em especial da GNT. Precisamos apanhar a Velha Guarda antes que ela escape por entre os dedos do mercado. As cantoras de MPB devem se contaminar com a poesia da Velha Guarda – antes que saiam por aí gravando duetos com o primeiro Ben Harper que aparecer. Daí que, nesse processo penoso de dedicação ao passado, é preciso reconhecer a arqueologia carinhosa de Marisa Monte, que foi à fonte para recuperar as melodias que talvez nunca chegariam aos nosso iPods.

Tudo bem. Está reconhecido. Apesar disso, não entendo o excesso de Marisa Monte em O mistério do samba, uma espécie de especial da GNT sobre a Velha Guarda da Portela.

Não seria meio que um Buena Vista Social Club carioca? Nada contra, mas a nossa Ry Cooder exagera um pouco na dose. Logo ela, que prefere a penumbra, assume múltiplas funções: é produtora, responsável pela direção musical, entrevistadora e musa. A superexposição talvez se explique como uma estratégia de marketing: o imenso público de Marisa acabaria, dessa forma, fisgado por este pequeno filme.

Ok, é uma boa intenção. É a Velha Guarda da Portela. Os velhinhos são adoráveis. Muitas das canções são obras-primas. Mas, insisto, por que tanto de Marisa Monte? Entre uma e outra entrevista com Jair do Cavaquinho e Monarco, Marisa conversa com Paulinho da Viola, Marisa troca figurinhas com Zeca Pagodinho, Marisa confessa amor pela Velha Guarda, Marisa descobre fitas raras, Marisa se emociona no estúdio de gravação, Marisa faz as unhas, Marisa assume a dianteira no clímax do longa (uma versão coletiva para Esta melodia), por pouco Marisa não prepara uma feijoada – é Marisa, Marisa e mais Marisa.

O filme tem 90 minutos de duração. Não fiz as contas, mas Marisa deve ocupar uns 70 minutos. É a protagonista. E com razão, já que esta é a história de uma descoberta, de um acerto de contas. E a Velha Guarda? A ela resta o papel do coajuvante que elegantemente rouba a cena.