Dia: agosto 25, 2008

Ch-ch-changes

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Vocês não se importam se eu ficar trocando de template a cada quinze dias, certo? Ok, então tudo bem.

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?

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Onde andará Dulce Veiga?, 2007. De Guilherme de Almeida Prado. Com Eriberto Leão, Carolina Dieckmann e Maitê Proença. 135min. ***

Um noir tropical, um mergulho no universo literário de Caio Fernando Abreu, um ensaio debochado sobre o star system brasileiro (e aí não faltam musas decadentes da música popular, atrizes arrogantes de telenovela, roqueiras de butique), uma chanchada gay e, como o próprio diretor definiu, um jogo de videogame – muitas das cenas poderiam ter se desdobrado em possibilidades diferentes daquela que foi filmada. Já na primeira seqüência, efeitos visuais tresloucados ilustram a confusão mental do protagonista, um jornalista transformado em detetive. Dali em diante, Onde andará Dulce Veiga? se afirmará como o projeto mais ambicioso de Guilherme de Almeida Prado – e não esqueci de um carro alegórico chamado A hora mágica.

Muita gente o rotula como um diretor de fitas de gênero. Mas Prado acumula elementos visuais e referências cinematográficas com tanto despudor que fico com a impressão de que ele seria melhor definido como uma espécie de demolidor de fitas de gênero. Talvez as estrelas do entretenimento sejam a única entidade sagrada nesse vale-tudo. Dulce Veiga é um filme para e com Caio Fernando Abreu (o roteiro começou a ser escrito antes do lançamento do livro do escritor), mas parece uma ode a elas: as musas da nossa indústria capenga.

Eu gostei bastante – mais até que Falsa loura, um outro filme feminino com (para não forçarmos outras comparações) cenas musicais entre o lirismo e o kitsch. E nem precisei levar ao pé da letra o aviso dos créditos iniciais – um pedido para que o público limpe os olhos de preconceitos. O filme não precisa da nossa condescendência para se sustentar. Desde o início, Prado não nega uma estética do exagero e do artifício que ele passou a dominar com muita segurança. Até a escolha de dois atores muito fracos para os papéis principais e a brincadeira com as imagens do cinema brasileiro dos anos 80 jogam a favor de um projeto que, como nem tudo são flores, parece esparramado até na duração.

O desfecho, que incomoda quase todo mundo, leva ao limite as afetações de um cinema profundamente irônico. A referência aí é Demy, mas entenda como uma facada no típico happy end de novela das oito. O pôster está corretíssimo: é um filme para ser visto muitas vezes.

SKELETAL LAMPING | Of Montreal

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Eis que o Of Montreal retorna ao nosso planeta. Assim, como quem entra na quadra depois de vencer um primeiro set por 25 a 10. Um time confiante, absolutamente seguro de si, psicologicamente preparado para matar a partida no terceiro set e subir no pódio com tranquilidade, sem precisar ter fritado tanta proteína. Depois de um álbum que a tirou de uma divisão obscura (o excelente Hissing fauna, are you the destroyer, do ano passado), a seleção de Kevin Barnes volta à cena indie com porte olímpico. Mas não é um jogo fácil, muito menos um jogo ganho.

No nono álbum dos norte-americanos, não faltam saques forçados nem cortadas ousadas. O adversário que se prepare: os jogadores voltam do vestiário com uma estratégia de jogo bastante diferente daquela que mostravam até então. Se Hissing fauna agradou principalmente pela metade confessional, em que Barnes exorcizava uma temporada desesperadora, Skeletal lamping reduz o tom terapêutico e investe nas aventuras de Georgie Fruit, uma espécie de Ziggy Stardust apresentado por Barnes no épico The past is a grotesque animal.

O tipão esquisito domina a narrativa deste novo álbum. Um perfil resumido do freak: trata-se de um sujeito de quase cinquenta anos de idade, negro, que passou por uma série de cirurgias de mudança de sexo. Era homem, virou mulher, voltou a engrossar a voz e, nem-lá-nem-cá, ainda arrumou uma brecha na agenda médica para integrar uma banda de soul music nos anos 70. Isso explica por que, ao contrário de Hissing fauna, Skeleton lamping pode ser interpretado como uma grande experiência (ou, se preferirem, gozação) com elementos de black music.

Kevin Barnes, um moço branco, franzino e andrógino, recorre ao personagem para se afastar do centro do furacão. Mas, ao mesmo tempo, trata-se de uma metáfora para temas que sempre perseguiram o compositor: principalmente (e obviamente) a ambiguidade sexual. Excluídos alguns lamentos breves como Touched something hollow, o álbum se traveste de trilha de pornochanchada, uma versão doentia para Midnite vultures, do Beck (e, claro, para qualquer disco do Prince).

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