Um último show

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A banda goiana Violins, não sei se vocês sabem, bateu as botas. O último show foi aqui em Brasília, ontem, no Espaço Brasil Telecom. Eu estava lá. Eu e um punhado de fãs inconsoláveis que, apesar do entusiasmo, mal conseguiram lotar o teatro pequeno. O que se viu é tudo o que se espera de uma despedida: gente gravando com câmera de telefone celular, letras quilométricas cantaroladas do início ao fim, lágrimas, aplausos de pé, pedidos de “não vai embora não”, “toca todas as músicas de todos os discos”, “fica mais um pouco” etc.

Eu, que não estou entre os fãs inconsoláveis (na verdade, sempre me incomodei com os versos extremamente sérios, às vezes apocalípticos, invariavelmente brutos e quase sempre narrados do fundo de algum poço estreito), fiquei pensando em como aquele quarteto se portaria numa época diferente da nossa, de decadência da indústria fonográfica. Reclamem do que quiser, mas o Violins que se apresentou ontem por aqui é um grupo redondinho: com conceito bem definido, um vocalista carismático e uma banda preparada para domar multidões em arenas.

O que seria do Violins num ambiente como o do início dos anos 1990, quando o É o Tchan vendia 4 milhões de discos, o Raimundos não saía da programação das rádios e o manguebit chegava às lojas com o selo de uma multinacional? Aposto que, com o devido cuidado de produtores inteligentes, seria grande. Nascida depois do furacão, a banda acabou se transformando em mais uma que, distante da mídia, tateia um circuito independente ainda bastante imaturo, pautado pelo quebre-a-cara-você-mesmo.

Os fãs não acham ruim. Sem qualquer tipo de pressão comercial, o Violins conseguiu bancar uma discografia que (mais uma vez, goste ou não) soa singular. Eles gravam álbuns conceituais sobre o “céu e o inferno”, cantam tragédias agoniadíssimas e falam em “bichas e michês, putas com HIV” sem amaciar a prosa. Não têm hits, mas talvez tenha sido esse discurso franco o que permitiu a formação de um fã-clube perseverante. Agora, imaginem uma banda dessas na briga (quase sempre interessante) com produtores de gravadoras e jabazeiros das rádios. Tenho certeza que esse tipo de confronto com o “mundo real” só traria vantagens para eles.

Mas hoje isso não existe, não há mais essa possibilidade (a menos que você faça emocore). Grandes promessas nascem e morrem em nichos hermeticamente fechados, longe de um público que talvez nunca tenha ouvido falar nelas. Eis o nosso rock 2000: um menino às vezes brilhante, trancado numa bolha de sabão.

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7 comentários em “Um último show

    Érico disse:
    agosto 22, 2008 às 8:24 pm

    Eu discordo de você. Esse fenômeno de bandas de qualidade underground que acabam sumindo (por N fatores) sempre aconteceu e não acho que a situação recente da indústria fonográfica torne as coisas assim tão diferentes.

    Além do que a coisa recentemente tá um pouco diferente do que o mercado MP3 que você citou no início dos anos 2000, quando as gravadoras controlavam totalmente o mercado de preços e a pirataria online derrubava as vendas mesmo.

    As gravadoras hoje tem redescoberto a lucrar nesse mercado, tem uma fórmula nova que incluem preços bastante baixos das mídias físicas (CD, DVD, MD Blu-Ray, etc), o mercado de venda online cresce anualmente à proporção dos milhares, as gravadoras independentes são muito mais fortes e ainda tem toda esse mercado portátil de iPod e celular.

    As bandas que acabam aparecendo, vendendo e fazendo sucesso, desde o começo é uma loteria, um conjunto de fatores muito além da qualidade musical, isso sempre foi assim. Acho que não dá pra culpar o atual momento por bandas potencialmente fortes em vendas que morrem no anonimato, isso sempre, sempre aconteceu. Eu até tenho uma visão meio contrária, hoje é que a gente pode até ter “um ciente” disso, pois gravar e tornar acessível é muito mais fácil.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 22, 2008 às 8:31 pm

    Érico, o que acontece é que o circuito independente do Brasil não está forte. Ele não consegue levar essas bandas a um público amplo (e leve em consideração que ainda são poucos os brasileiros com acesso a internet). Nada está estruturado. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe um circuito indie que dá estrutura para que as bandas crescam, se desenvolvam, dialoguem com os selos (ou você acha que uma Sub Pop da vida também não impõe uma série de pressões aos grupos?) e sigam um ciclo mais ou menos saudável.

    As gravadoras, pelo menos no Brasil, ainda não descobriram como lucrar nesse mercado. Um artista grande se vê obrigado a lançar uns cinco discos ao vivo antes de lançar material inédito.

    O que vejo por aqui é um monte de iniciativa que acaba morrendo na praia. Óbvio que sempre haverá bandas boas ao léu, mas hoje em dia isso é muito mais forte, tá explícito mesmo. Nos anos 90, um Little Quail and the Mad Birds lançava disco por gravadora. Hoje em dia, um Móveis Coloniais de Acaju mantém-se na independência por anos e anos.

    Acho que é uma discussão polêmica, já que muitas bandas preferem a condição de independentes e nem todas se dariam bem no esquema de uma gravadora. Mas eu falo das bandas que teriam esse perfil e que não podem passar por essa prova de fogo.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 22, 2008 às 8:38 pm

    Acho que o interessante seria um circuito independente estruturado, que garantisse às bandas essa “experiência completa” (o contato com o público, a resposta da imprensa, as cobranças artísticas). Mas ainda não consigo ver isso pra um futuro próximo. Hoje em dia, há bons discos, como o do Macaco Bong e do Vanguart, mas quantas pessoas ouvem isso? Quantas realmente? Não sei.

    Érico disse:
    agosto 22, 2008 às 9:32 pm

    Aí eu concordo com você. Só acho que a situação não é pior do que nos anos 90, se bem que não tenho conhecimento sobre a organização do circuito independente nessa época (meu chute é que não deve ter mudado muita coisa, não).

    Também acho meio fantasia pensar que se a banda tivesse sido formada anteriormente estaria cheio de hits por aí. Podia até ser, mas pelas mesmas condições que fazem de determinada banda um sucesso nos dias de hoje.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 22, 2008 às 9:49 pm

    Circuito independente nos anos 90? Era bem pior. Hoje está um pouco maior (até pq existe um terreno baldio a ser ocupado).

    Não sei se ela estaria cheia de hits. Talvez não. Mas seria interessante ver esse confronto. Se você pensar no que seria o Los Hermanos se não tivessem batido de frente com uma gravadora (o ‘Bloco do eu sozinho’ foi uma reação ao sucesso do primeiro disco e ao que esperavam da banda) e no que seria o Nirvana sem a transição para o ‘Nevermind’… Mas não sei, acho que isso tudo pertence a uma outra época e às vezes pareço um velho nostálgico, enfim.

    Filipe disse:
    agosto 23, 2008 às 6:59 pm

    Erico, é muito dificil de comparar. A cena indie hoje é muito maior que na época, mas ao mesmo tempo me parece também um gueto de menos perspectivas. O nosso cenário é muito diferente e me parece a distancia bem menos positivo por exemplo que o americano onde toda a galera das **** estrelas do Tiago pode vender poucos discos, mas tem um publico de porte genuinamente razoavel para shows. Este espaço médio de um modo geral não me parece existir por aqui em que romper a bolha do gueto parece quase impossivel. Usando as bandas de Cuiabá como exemplo, as diferenças entre hoje e 94/95 garantem que o Macaco Bong receba um certo espaço na grande mídia que um Brincando de Deus jamais teve, mas por outro lado Vanguart não vai ter as mesmas chances que a Nação Zumbi teve.

    Tiago respondido:
    agosto 24, 2008 às 2:29 am

    Bem, dizem que o Hold Steady vende pouquíssimos discos. Mas que existe um circuito, existe. Isso que o Filipe disse tá certo. Pra ficarmos num exemplo local: o Lucy and the Popsonics, de Brasília, chegou a fazer uma turnê nos Estados Unidos (marcando os shows via internet!). No Brasil, eles ainda conseguem muito pouco espaço.

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