Dia: agosto 22, 2008

JOE LEAN & THE JING JANG JONG | Joe Jean & The Jing Jang Jong

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Como sintoma para um mundo pop em velocidade máxima, que tal o primeiro disco de Joe Lean? Depois de emplacar o hit Lucio starts fire e se transformar em xodó da imprensa inglesa (e isso há mais ou menos um ano), o performer decidiu descartar o álbum à véspera do lançamento, logo na semana em que saíram as primeiras críticas positivas.

Nem os elogios da New Musical Express ajudaram. Segundo o empresário, o disco foi abortado por não representar o momento por que a banda está passando. Avisou que o quinteto retornaria ao estúdio e gravaria tudo de novo. Ninguém entendeu nada. Mas uma audição de Joe Lean & The Jing Jang Jong, que está boiando na web, pode explicar a angústia do rapaz. É um álbum que já nasce um pouco velho. Mas não é exatamente isso o que acontece com 90% do rock britânico que chega às lojas todo mês?

O que soa mais espantoso é que essa estratégia maluca foi aprovada por um grande selo – o Vertigo -, que parece ter reprovado o disquinho. E o que fazemos com isso? Pode parecer engraçado, e isso explica muito por que eu nunca seria contratado por uma multinacional, mas trata-se de um álbum que não me decepciona em quase nada. Na verdade, me surpreende – é o melhor disco de pós-punk britânico pós-Libertines e pós-Strokes que ouvi este ano.

E olha que ouvi alguns. The Subways, The Automatic, The Futureheads, Dirty Pretty Things, o próprio The Last Shadow Puppets. Nada soa tão marcante quanto Joe Lean. Talvez por causa da persona do vocalista, que se inspira em Morrissey ou Jarvis Cocker para compôr um personagem meio blasé, um cronista da juventude britânica. E o sujeito interpreta o papel com talento. Se Lucio starts fire é mesmo um hit do tamanho de um double-decker bus, faixas como In competition e Brooklyn não ficam atrás.

O bom é que Lean não se contenta com os hits, e desdobra a fórmula do álbum em faixas menos óbvias (a dopada Far too early to tell, a épica Light and dark), sem medo de enfrentar riffs de guitarra grandalhões, que lembram Pixies e Nirvana (na ótima Teenagers). Quando não está preocupado em entrar no clube de um Arctic Monkeys, ele dá demonstrações de personalidade forte que, principalmente para um primeiro álbum, parecem cada vez mais raras na Inglaterra.

Mas, já que nem o dono da banda nem a gravadora parecem aprovar esta estréia, o que posso fazer? Não ouçam este disco. Esperem pelo “retrato fiel”, programado para o início do ano que vem. Mas, cá entre nós: a versão ultrapassada de Joe Lean vale por uma dúzia de grandes novidades.

Álbum abortado de Joe Lean & The Jing Jang Jong. 13 faixas. Obviamente, um lançamento não-oficial. ***

Um último show

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A banda goiana Violins, não sei se vocês sabem, bateu as botas. O último show foi aqui em Brasília, ontem, no Espaço Brasil Telecom. Eu estava lá. Eu e um punhado de fãs inconsoláveis que, apesar do entusiasmo, mal conseguiram lotar o teatro pequeno. O que se viu é tudo o que se espera de uma despedida: gente gravando com câmera de telefone celular, letras quilométricas cantaroladas do início ao fim, lágrimas, aplausos de pé, pedidos de “não vai embora não”, “toca todas as músicas de todos os discos”, “fica mais um pouco” etc.

Eu, que não estou entre os fãs inconsoláveis (na verdade, sempre me incomodei com os versos extremamente sérios, às vezes apocalípticos, invariavelmente brutos e quase sempre narrados do fundo de algum poço estreito), fiquei pensando em como aquele quarteto se portaria numa época diferente da nossa, de decadência da indústria fonográfica. Reclamem do que quiser, mas o Violins que se apresentou ontem por aqui é um grupo redondinho: com conceito bem definido, um vocalista carismático e uma banda preparada para domar multidões em arenas.

O que seria do Violins num ambiente como o do início dos anos 1990, quando o É o Tchan vendia 4 milhões de discos, o Raimundos não saía da programação das rádios e o manguebit chegava às lojas com o selo de uma multinacional? Aposto que, com o devido cuidado de produtores inteligentes, seria grande. Nascida depois do furacão, a banda acabou se transformando em mais uma que, distante da mídia, tateia um circuito independente ainda bastante imaturo, pautado pelo quebre-a-cara-você-mesmo.

Os fãs não acham ruim. Sem qualquer tipo de pressão comercial, o Violins conseguiu bancar uma discografia que (mais uma vez, goste ou não) soa singular. Eles gravam álbuns conceituais sobre o “céu e o inferno”, cantam tragédias agoniadíssimas e falam em “bichas e michês, putas com HIV” sem amaciar a prosa. Não têm hits, mas talvez tenha sido esse discurso franco o que permitiu a formação de um fã-clube perseverante. Agora, imaginem uma banda dessas na briga (quase sempre interessante) com produtores de gravadoras e jabazeiros das rádios. Tenho certeza que esse tipo de confronto com o “mundo real” só traria vantagens para eles.

Mas hoje isso não existe, não há mais essa possibilidade (a menos que você faça emocore). Grandes promessas nascem e morrem em nichos hermeticamente fechados, longe de um público que talvez nunca tenha ouvido falar nelas. Eis o nosso rock 2000: um menino às vezes brilhante, trancado numa bolha de sabão.