Dia: agosto 21, 2008

INTIMACY | Bloc Party

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Não me incomodo com estratégias de lançamento incomuns. É sério que você quer soltar álbum novo numa madrugada de inverno, num site obscuro de Sarajevo, e avisar apenas aos seus três amigos sobre a novidade? Por mim, tá jóia. Também não tenho problema algum com bandas que tentam nos surpreender de um jeito, digamos, mais convencional: com guinadas musicais inusitadas, flerte com gêneros obscuros e ousadias mil. Em Intimacy, vejam só, o Bloc Party tenta os dois golpes de uma vez só.

Ponto pra eles. Mas, falando sério, alguém esperava algo diferente de um grupo que levou uma pancada de indiferença logo no segundo álbum, o previsível A weekend in the city? Mais que bem-vinda, a tentativa de reinvenção soa como uma necessidade para o quarteto de Kele Okereke. Daí que não me espantou o flerte com o electro no single Mercury, que provoca o efeito de um choque de 220 volts numa banda que estava mesmo precisando acordar.

A faixa, porém, é alarme falso para o restante do disco, lançado com aviso prévio de pouquíssimos dias. Mercury é um combo hipercalórico que, num determinado momento, parece prestes a se transformar em um encontro entre o transe percussivo do TV on the Radio e os sintetizadores de Toxic, da Britney Spears. Não acho ruim. Mas soa como um hit anabolizado, histérico e paranóico, desesperadíssimo por chamar atenção.

Numa velocidade não tão tresloucada, mas com a atmosfera urbana de Silent alarm, o álbum parece ter sido gravado em meio ao movimento frenético de uma bolsa de valores (ou com os olhos arregalados de uma noitada movida a substâncias ilegais). A produção de Paul Epworth e Jacknife Lee acentua os riffs metálicos, curtos e barulhentos, que fizeram a fama da banda no início da carreira. Mas, acima de tudo, tentam empurrar o grupo para uma nova fase, calcada na combinação de eletrônica com gravações ao vivo no estúdio, guitarras dedilhadas e letras intimistas (mais ou menos o que Madonna fez em Ray of light, só que moldado para o público hiperativo de indie rock).

Acaba lembrando muito o primeiro do Friendly Fires, principalmente a balada Biko, um dos momentos mais interessantes do disco (e também mais acessíveis). O que fica bastante claro é como o momento parece mais de transição que de transformação. O álbum pode ser quase dividido meio a meio entre novas experiências (Ares parece um cruzamento de Setting sun, do Chemical Brothers, com Smack my bitch up, do Prodigy) e repetições de petardos que os fãs esperam ouvir em shows da banda (Halo, Trojan horse).

Ou seja: a surpresa do Bloc Party é tão cuidadosa quanto o tipo de ousadia se espera de uma equipe de funcionários de multinacional preocupada em pagar as contas no fim do mês. Longe de soar medíocre, e mais enxuto e poderoso que Weekend in the city, Intimacy pode muito bem servir de estímulo para que a banda arrisque um grande salto no próximo disco. Mas, se é para ousar, por que não fazer o trabalho completo? E, se decidirem lançar esse álbum na surdina ou não, pra mim pouco importará.

Terceiro álbum do Bloc Party. 10 faixas, com produção de Paul Epworth e Jacknife Lee. Wichita. **