CAR ALARM | The Sea and Cake

Postado em Atualizado em

Às pessoas que se confundem um pouco com o sistema de cotações deste blog: seus problemas acabaram. As coisas funcionam de um jeito bastante fácil, e vou tentar explicar tudo isso agora. Até para simplificar um pouco as vidas tumultuadas de quem freqüenta este espaço aqui (gente atarefada e impaciente, sem tempo deixar um alô na caixa de comentários), a avaliação de filmes e discos vai de uma a quatro estrelas. Como prova de que sou um cidadão bem-humorado, são três estrelas do bem contra uma estrela do mal. Vê que barato?

Didaticamente: os filmes e discos que recebem a estrela solitária são os fracos. Ok, ela é bastante usada, a vida é difícil etc. Os que ganham duas (decente), três (muito bom) ou quatro (grande!) merecem a sua atenção. Não tem cinco. Parou no quatro. Em casos excepcionais, lanço mão da temida bola preta. Mas isso acontece tão pouco que ainda nem me preocupei em procurar um gif para ilustrar a raiva.

Ainda mais calmamente: Either/or e Figure 8 são dois álbuns do Elliott Smith que merecem a sua atenção. Mas, por uma série de questões que escapam dos objetivos deste breve manual de instruções, o primeiro ganharia quatro estrelas. Já o segundo, três. Daí a necessidade de dividir as “estrelas do bem” (vamos chamá-las carinhosamente assim, ok?) em “subestrelas do bem”. Se eu colocasse todas no mesmo pacote, você ficaria sem entender que eu acho Either/or muito superior a Figure 8. Entendido?

No fundo, é tudo muito relativo e abstrato e quase transcendental, eu sei. É uma esfinge. Mas o caso The Sea and Cake pode ajudar na compreensão do método. Em 2007, a banda de Chicago retornou de um hiato de três anos com um álbum melodioso e acessível, sem muitos dos experimentos que marcaram a trajetória do quarteto. Everybody, que dividiu os fãs, soou para mim como uma tentativa bastante digna de reinvenção, de decantar um estilo para que sobrem apenas elementos fundamentais. O disco foi desprezado pela crítica, mas, para mim, está entre os melhores do grupo. Três estrelas pra ele.

Car alarm parece ter objetivos mais modestos. Ele dá continuidade à fase iniciada por Everybody. Hoje em dia, a banda defende a idéia de gravar com pressa, em meio a longas turnês. O disco exibe esse tom despretensioso, e aí entram até algumas brincadeiras com música eletrônica. Mas, se o álbum anterior surpreendia pela economia de recursos, o novo acaba soando como um subproduto, um longo (e nada instigante) “lado B”.

Mas não é ruim. Essa transformação de um projeto de indie rock e uma banda jazzística e elegante (mas ainda desengonçada, e aí está o charme do álbum) ainda é capaz de despertar a curiosidade de quem os acompanha. Sam Prekop e Archer Prewitt parecem cansados de fazer amigos e influenciar pessoas. Estão isolados num ambiente idílico, distante de todo burburinho. O título soa até engraçado: Car alarm não tem nada de estridente. Na ocasião certa (depois de uma sessão de Friendly Fires, por exemplo), pode salvar vidas. Mas é um álbum duas-estrelas. Sabe como é: decente, correto, agradável e nada mais.

Oitavo álbum do Sea and Cake. 12 faixas, com produção de John McEntire. Thrill Jockey. **

Anúncios

10 comentários em “CAR ALARM | The Sea and Cake

    Fred disse:
    agosto 20, 2008 às 10:27 pm

    É que dá uma dor no coração o fato do Figure 8 levar três estrelas, mesmo que se sobressaiam os elogios. Não só ele, mas outros álbuns.
    Mas é entendível. Acho que é como dar 8 prum álbum super bom. Acho que de 0 a 10 as pessoas não achariam ruim. =P
    Mas seu sistema é, digamos, original.

    E tá certo, eu também acho Either/or superior ao outro. Mas o outro, em compensação, é mais ambicioso. E os dois, por fim, são infinitamente melhores que o primeiro álbum póstumo. (P.S.: E o XO é desprezado?)

    Fred disse:
    agosto 20, 2008 às 10:30 pm

    E putz, não vi nada demais assim no Jamie Lidell. Acho que até o fim do ano esse top muda. =)

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 20, 2008 às 10:30 pm

    Olha, adoro tudo do Elliott Smith então sou suspeito pra falar. Mas Either/or e XO são meus favoritos, de longe (e, se entrar aí uma análise simplesmente sentimental, XO ganha fácil). Talvez fosse mais interessante uma cotação de zero a 10, ou de 1 a 5, estrelas, não sei. Mas estou satisfeito com essa (e olha que eu mudo de idéia muito rapidamente pra essas coisas). 3 estrelas equivale a um 7, a um 8, é isso aí.

    O Figure 8 é um disco muito bom, com canções excelentes, mas acho um pouquinho longo e superproduzido. Ah, e eu gosto muito do álbum póstumo dele.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 20, 2008 às 10:31 pm

    E Jamie Lidell é subestimado. Tô com ele até o fim, hehe.

    Rodrigo disse:
    agosto 21, 2008 às 1:21 am

    Eu acho esse seu sistema de estrelas bem simples, o que sempre é bom, já que você não precisa passar tanto tempo pensando em notas (o que às vezes talvez prejudique as audições). Também adoro 95% do que eu ouvi do Elliott, mas, depois do Either/Or, pra mim o melhor é o póstumo, e depois vem nem o XO ou o Figure 8 (que são ótimos, ***) e sim o segundo dele, homônimo, esse sim o subestimado.

    Tiago respondido:
    agosto 21, 2008 às 3:06 am

    Mas, Rodrigo, se bobear o segundo dele é mais respeitado hoje que o XO. Acho isso uma pena: o XO ainda carrega o estigma de “estréia na Dreamworks”, quando na verdade é o momento em que o Smith meio que responde aos indies que queriam dele o mesmo disco lo-fi de sempre, só que numa grande gravadora. E é um álbum belíssimo, com algumas das canções mais fortes dele, como Independence day, Sweet Adeline, Everybody cares everybody understands etc.

    Rodrigo disse:
    agosto 21, 2008 às 3:52 pm

    Eu não sei como foi a reação do público e crítica na época em que o XO saiu, mas, pelo menos no site do RYM (o único lugar em que eu posso ter uma idéia maior de quais são os discos mais respeitados), o XO é um dos mais queridos, talvez até tanto quanto o Either/Or (mas todos possuem cotação muito acima da média). Aliás, eu acho um disco bem foda, Waltz #2 é possivelmente a melhor canção que o Smith já fez.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 21, 2008 às 5:11 pm

    Pode ser, Rodrigo, mas acho que a tendência é que valorizem a fase lo-fi dele. De qq forma, seria muito bom ver o XO reconhecido.

    Danilo M. disse:
    agosto 23, 2008 às 1:43 am

    Falando de The Sea and Cake, achei esse disco MUITO melhor que o Everybody, mas mesmo assim, a fase antiga do The Sea… continua sendo infinitamente superior em qualidade e criatividade…

    Tiago respondido:
    agosto 23, 2008 às 12:59 pm

    Pois é, eu já ouvi umas dez vezes e estou quase desistindo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s