A última amante

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Une vieille maitresse, 2007. De Catherine Breillat. Com Asia Argento, Fu’ad Ait Aattou e Roxane Mesquida. 114min. ***

Trabalho com uma jornalista que tem alergia a Asia Argento. Sério. Se ela nota o nome da atriz no cartaz de um filme qualquer, entra na sala ao lado. E ela vai muito ao cinema, é culta e bem informada. É um problema de afinidade. “Ela interpreta todasos papéis com o mesmo ar de vulgaridade. É como fosse incapaz de imprimir o mínimo de sutileza às personagens”, ela reclama. De férias na França, assistiu a este A última amante como uma espécie de última chance à filha de Dario Argento. Não deu certo. O que era inimizade se transformou em repulsa.

Eu, que não tenho nada contra a italiana (na verdade, gosto muito do que ela conseguiu em Transylvânia e principalmente em Boarding gate), entendo a rejeição. Para quem não suporta a imagem de Asia Argento, deve ser mesmo difícil digerir os filmes que ela protagoniza. Talvez até por encarar o ofício sem tanto rigor (e aí nem vai uma crítica), ela carrega traços fortes de personalidade para os tipos que interpreta. Daí a impressão, em A última amante, de que estamos vendo um filme sobre as aventuras de Asia Argento na França de 1835.

No caso, essa estranheza faz completo sentido. Asia vive uma personagem que é uma espécie de objeto não-identificado, um surto, um transtorno ambulante. Ela destoa de tal forma do ambiente ordenado em que vive (uma aristocracia limpinha e hipócrita) que não nos deixa motivos para duvidar do impacto que provoca na rotina do nobre Ryno de Marigny (Fu’ad Ait Aattou). Depois de se embolarem num romance à John Cassavetes – que durou uma década e provocou uma dezena de cicatrizes -, Ryno está pronto para casar-se com uma mulher “de classe”. Mas, eis a grande questão do filme, como livrar-se de Asia Argento?

Já que não tenho tanta familiaridade com os filmes de Catherine Breillat (dela, só vi Romance), não vou ficar aqui tentando entender o que este atípico “filme de época” representa na trajetória da cineasta. Alguns apontam uma guinada rumo ao convencional, mas tenho como entender a birra. O que consigo notar é uma narrativa costurada por um conceito firme. O grude irracional que existe entre o casal de personagens pode ser prolongada para a atração/repulsa que a figura de Asia Argento exerce sobre a platéia, e sobre a própria estrutura do filme.

É um projeto bastante sofisticado, só que escondido numa aparência de extrema simplicidade. Breillat evita qualquer rompante de sentimentalismo e conduz a trama a uma certa distância (com relatos e conversas). Ainda que os fãs da diretora tenham notado a falta de sexo explícito, não vi outro filme recente em que a intimidade dos personagens tenha sido filmada com tanta franqueza. Silenciosamente, a cineasta rasga a carne de uma história sobre a invasão de sentimentos caóticos – que têm o poder de devastar todo tipo de convenção social.

Para personificar esse terremoto, me pergunto: existiria atriz mais apropriada que Asia Argento?

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