O procurado

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Wanted, 2008. De Timur Bekmambetov. Com James McAvoy, Angelina Jolie e Morgan Freeman. 110min. *

Nem toda adaptação de quadrinhos quer ser O cavaleiro das trevas, felizmente, mas… why so stupid?

Onde Christopher Nolan vê uma boa desculpa para um thriller setentista, Timur Bekmambetov enxerga nonsense. E mais nonsense. Colegas, eis o outro lado da moeda: O procurado é um filme de HQ tão escancaradamente fantasioso que consegue achar graça até da própria falta de senso de ridículo.

É uma loucura, mas uma loucura bastante familiar. Siga os pontos: Wesley Gibson (James McAvoy, talvez o único objeto autêntico no longa-metragem) é o cidadão medíocre que, anestesiado por uma rotina sem perspectivas, se descobre indiferente a tudo. Mas, antes de integrar-se a algum clube de pancadaria, nosso herói almofadinha se libertará da mesmice ao ser informado de que é um predestinado e, entre outros talentos, pode enxergar em câmera lenta e manipular rotas de balas de revólver. A vocação do supernerd é se assumir um assassino de mil e uma habilidades e juntar-se a uma espécie de… clube de pancadaria?

Quase. Na verdade, Wesley é cooptado por uma pistoleira gostosona (Angelina Jolie, quem mais?) para integrar uma antiga fraternidade de matadores. É essa a fantasia de todo nerd, né? Sair matando todo mundo loucamente e encoxar a pistoleira gostosona, certo? A missão do grupo, explica o chefão Morgan Freeman (no papel de Morgan Freeman ou, a depender do ponto de referência, de Laurence Fishburne), é eliminar bandidos intratáveis cujos nomes são escolhidos pelo destino. Isso mesmo: pelo destino. O Destino.

Claro que o Destino não sai escolhendo os alvos assim à toa, já que aí bastaria sair provocando ataques cardíacos nos malvadões, né mesmo, minha gente? O Destino se manifesta numa máquina chamada Tear do Destino, e chega a conclusões por meio de uma série de cálculos matemáticos. Ah, tá, aí tudo bem.

Calma que o negócio vai ficar ainda mais babaca. Nas instalações da tal fraternidade, ornamentada com velas e um fumacê digno de caverna da Lara Croft, o treinamento dos matadores consiste em prolongadas sessões de espancamento. Eles também surfam em trens, mas (dã, estamos no Brasil) isso é fichinha. Que ninguém se preocupe em sair dessas provações cheio de hematomas: um banho especial removerá ferimentos em questão de minutos. Rapidamente, a liga dos superassassinos estará pronta para cumprir o objetivo de matar aqueles que merecem morrer.

Antes que acusem o filme de chato, ruidoso e reacionário, é preciso dizer que, no terceiro ato da narrativa, o cineasta praticamente estraga o gostinho de quem procurava nesta fita de ação uma espécie de instrumento nazistóide para formar jovens serial killers. Contenham-se, ok? Tenham paciência.

Apesar de tratar a violência anárquica como escapatória para a opressão que existe em nossas vidinhas mais-ou-menos (uma ladainha que, aposto, nem David Fincher repetiria), o filme passa boa parte do tempo construindo um universo mirabolante, de cartoon, que não deve ser levado ao pé da letra nem tratado como metáfora apressada para qualquer personagem político do nosso mundo (tipo: Morgan Freeman = George W. Bush, por favor, não). Na meia hora final, a trama dá polimento aos traços mais escabrosos da premissa.

Se existe uma qualidade em O procurado, ela está na forma livre e bem-humorada como o cineasta define as regras de uma ficção sem os pés no chão (e sim, sem pé nem cabeça). O que me incomoda é como esse açougue high-tech de Bekmambetov parece todo montado com uma aparelhagem que conhecemos muito bem. Já vimos este filme em tantos outros filmes que, no contar dos cadáveres, ele passa a parecer um truque usado à rodo pelo roteiro: uma explosiva pista falsa.

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2 comentários em “O procurado

    Fernando disse:
    agosto 17, 2008 às 4:55 am
    Tiago respondido:
    agosto 17, 2008 às 10:59 am

    Hahahaha. Vou cobrar copyright.

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