Dia: agosto 17, 2008

Domingo pela manhã, um pouco antes da partida de vôlei de praia

Postado em Atualizado em

– Aquelas ali de amarelo são a Renata e a Talita, que são as brasileiras. Elas vão jogar contra Bernett e Cook, que são o cão chupando manga.

Assistir aos Jogos Olímpicos com os comentários precisos da senhora minha mãe: não tem preço.

Lady Jane

Postado em Atualizado em

Lady Jane, 2008. De Robert Guédiguian. Com Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan. 104min. **

A homenagem de Robert Guédiguian a filmes franceses que homenageiam o noir norte-americano (e, opa, algo me lembra que este aqui é um blog também sobre metalinguagem) me convence menos como um exercício de estilo e mais como uma crônica sobre o reencontro de três velhos amigos – um trio de bandidos que cometeram um crime sério no passado e, desde então, deixaram de se ver.

O cineasta prefere definir o longa-metragem como um conto de vingança – e, se não o diretor, pelo menos toda a equipe de marketing do filme parece ter ficado com essa impressão. Nesse filão, soa tão distanciado quanto Caché, mas incapaz de subverter o gênero. Só para ficarmos num exemplo, os mistérios da trama são explicados, um a um, via flashbacks ou graças a um grande monólogo capaz de preencher absolutamente todas as lacunas.

Mas não é um filme tão corriqueiro quanto essa idéia dá a entender (ainda que eu tenha saído da sessão preparado para esquecer completamente dele). Guédiguian não esquece de engrandecer os personagens, e são eles que garantem credibilidade aos momentos mais mecânicos da trama. Quando o thriller passa a se encantar com o próprio umbigo (e vale sublinhar que tudo é filmado com silêncios, interrompidos por inserções ocasionais de uma trilha jazzística), nem assim deixamos de nos importar com os dramas daquelas pessoas.

Um resultado até bem digno para um filme que tenta, acima de qualquer reflexão moral, humanizar um jogo cinematográfico. Acontece que o jogo acaba parecendo fácil demais perto de tipos tão vivos.

Minha modesta contribuição aos Jogos Olímpicos de Pequim

Postado em Atualizado em

O povo bisbilhoteiro do Globoesporte.com descobriu a verdadeira verdade (obrigado pelo alerta, Fernando): entre filmes, CDs, livros (que não consigo ler até o fim), pautas mirabolantes, compromissos inadiáveis, idas ao dentista, viagens de última hora, irrelevantes acidentes automobilísticos e minhas obrigações de filho, namorado e cidadão ecologicamente responsável, eu treinei o Michael Phelps.

Treinei, gente, treinei. A vida é uma correria, mas treinei. No big deal. Só não saiam espalhando por aí, tá bem? Sabe como é, odeio paparazzi.

O procurado

Postado em Atualizado em

Wanted, 2008. De Timur Bekmambetov. Com James McAvoy, Angelina Jolie e Morgan Freeman. 110min. *

Nem toda adaptação de quadrinhos quer ser O cavaleiro das trevas, felizmente, mas… why so stupid?

Onde Christopher Nolan vê uma boa desculpa para um thriller setentista, Timur Bekmambetov enxerga nonsense. E mais nonsense. Colegas, eis o outro lado da moeda: O procurado é um filme de HQ tão escancaradamente fantasioso que consegue achar graça até da própria falta de senso de ridículo.

É uma loucura, mas uma loucura bastante familiar. Siga os pontos: Wesley Gibson (James McAvoy, talvez o único objeto autêntico no longa-metragem) é o cidadão medíocre que, anestesiado por uma rotina sem perspectivas, se descobre indiferente a tudo. Mas, antes de integrar-se a algum clube de pancadaria, nosso herói almofadinha se libertará da mesmice ao ser informado de que é um predestinado e, entre outros talentos, pode enxergar em câmera lenta e manipular rotas de balas de revólver. A vocação do supernerd é se assumir um assassino de mil e uma habilidades e juntar-se a uma espécie de… clube de pancadaria?

Quase. Na verdade, Wesley é cooptado por uma pistoleira gostosona (Angelina Jolie, quem mais?) para integrar uma antiga fraternidade de matadores. É essa a fantasia de todo nerd, né? Sair matando todo mundo loucamente e encoxar a pistoleira gostosona, certo? A missão do grupo, explica o chefão Morgan Freeman (no papel de Morgan Freeman ou, a depender do ponto de referência, de Laurence Fishburne), é eliminar bandidos intratáveis cujos nomes são escolhidos pelo destino. Isso mesmo: pelo destino. O Destino.

Claro que o Destino não sai escolhendo os alvos assim à toa, já que aí bastaria sair provocando ataques cardíacos nos malvadões, né mesmo, minha gente? O Destino se manifesta numa máquina chamada Tear do Destino, e chega a conclusões por meio de uma série de cálculos matemáticos. Ah, tá, aí tudo bem.

Calma que o negócio vai ficar ainda mais babaca. Nas instalações da tal fraternidade, ornamentada com velas e um fumacê digno de caverna da Lara Croft, o treinamento dos matadores consiste em prolongadas sessões de espancamento. Eles também surfam em trens, mas (dã, estamos no Brasil) isso é fichinha. Que ninguém se preocupe em sair dessas provações cheio de hematomas: um banho especial removerá ferimentos em questão de minutos. Rapidamente, a liga dos superassassinos estará pronta para cumprir o objetivo de matar aqueles que merecem morrer.

Antes que acusem o filme de chato, ruidoso e reacionário, é preciso dizer que, no terceiro ato da narrativa, o cineasta praticamente estraga o gostinho de quem procurava nesta fita de ação uma espécie de instrumento nazistóide para formar jovens serial killers. Contenham-se, ok? Tenham paciência.

Apesar de tratar a violência anárquica como escapatória para a opressão que existe em nossas vidinhas mais-ou-menos (uma ladainha que, aposto, nem David Fincher repetiria), o filme passa boa parte do tempo construindo um universo mirabolante, de cartoon, que não deve ser levado ao pé da letra nem tratado como metáfora apressada para qualquer personagem político do nosso mundo (tipo: Morgan Freeman = George W. Bush, por favor, não). Na meia hora final, a trama dá polimento aos traços mais escabrosos da premissa.

Se existe uma qualidade em O procurado, ela está na forma livre e bem-humorada como o cineasta define as regras de uma ficção sem os pés no chão (e sim, sem pé nem cabeça). O que me incomoda é como esse açougue high-tech de Bekmambetov parece todo montado com uma aparelhagem que conhecemos muito bem. Já vimos este filme em tantos outros filmes que, no contar dos cadáveres, ele passa a parecer um truque usado à rodo pelo roteiro: uma explosiva pista falsa.