Dia: agosto 15, 2008

Zohan – O agente bom de corte

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You don’t mess with the Zohan, 2008. De Dennis Dugan. Com Adam Sandler, John Turturro e Emmanuelle Chirqui. 113min. **

Por alguns minutos, vamos esquecer completamente de Dennis Dugan? O diretor de Eu os declaro marido e Larry e O pestinha é o nome que vem em destaque nos créditos de Zohan. Mas vamos combinar o seguinte: este é um filme conduzido por Adam Sandler, um dos autores de um roteiro escrito também por Robert Smigel e Judd Apatow.

O que, eu sei-eu sei, pode não ser bom sinal (que ninguém espere aqui o Sandler de Embriagado de amor), mas é um alívio descobrir que esta comédia está mais para Como se fosse a primeira vez que para O paizão – e ok, chega, o fã envergonhado do sujeito acaba de deixar a sala.

Até quem detesta o moço sabe, nesta altura, que um filme de Sandler será grosseiro e sem estribeiras, tão histérico quanto desnivelado. Zohan não é exceção. Imagino o desconforto daqueles que entrarão no cinema em busca de argumentos hollywoodianos para conflitos no Oriente Médio. Tudo é caricatura: os israelenses são gananciosos vendedores de eletroeletrônicos, os palestinos são broncos extravagantes. De realista mesmo, só Mariah Carey, no papel de uma cantora pop peituda e apalermada.

É, sim, uma comédia sobre um superagente israelense que, obcecado por discotecas e Mariah Carey, abandona tudo para virar cabeleireiro. Mas é, acima de tudo, uma comédia com a grife de Sandler, quase toda a reboque do carisma de um personagem-caricatura criado pelo ator. No caso, felizmente, é um tipo que justifica um longa-metragem (geralmente, eles não valem mais que cinco minutos de Saturday Night Live).

Zohan é uma das criações mais divertidas dele. Eu ficaria feliz com uma continuação, ainda que o filme pareça ter esgotado as possibilidades do personagem. Pisando em ovos, o roteiro dispara uma mensagem edificante para cada piada ofensiva. O resultado não fere ninguém – ao contrário de Borat, Zohan não destoa em nada de uma indústria do entretenimento politicamente correta, agradável para israelenses, palestinos, fã de Mariah Carey e para todos os que torcem para o fim dos conflitos no Oriente Médio – o planeta inteiro.

O maior vilão desta história não é o terrorista megalomaníaco (John Turturro), mas o empresário norte-americano que, encarnação do capitalismo, quer destruir uma comunidade de estrangeiros para construir um shopping center. Nem essa piscadela de olho, porém, a trama aproveita. A solução do conflito chega a soar contraditória. Mas, até lá, Sandler já terá dado conta da tarefa de criar um herói cheio de tiques, pronto para rivalizar com o Hancock de Will Smith pelo posto de super-outsider do ano (foi mal, o fã voltou à sala).

E isso, pelo menos isso, não há Dennis Dugan que estrague.

Show de bola

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Show de bola, 2008. De Alexander Pickl. Com Thiago Martins, Lui Mendes e Luis Otávio Fernandes. 101min. *

Alexander Pickl, diretor de Show de bola, é alemão. Um dos roteiristas deste filme sobre favelas cariocas, Nikolai Müllerschön, também nasceu na Alemanha. O outro, o brasileiro Rene Belmonte, escreveu os scripts de Se eu fosse você e Avassaladoras. Não precisamos ter medo de errar: o olhar deste longa-metragem é, quase todo, estrangeiro.

Pode parecer uma constatação até bastante óbvia, mas ela diz tudo o que precisamos saber sobre Show de bola. É uma questão de perspectiva. Já vimos dezenas de filmes sobre favelas, mas este nasce diferente dos outros. Alexander adentra um ambiente nosso com uma câmera que vem de fora e de longe – uma lente curiosa, assustada e, ops, pronta a simplificar um tecido de relações sociais que, sabemos, é complexo e contraditório.

Mas encaremos o projeto por esse viés. Se você vivesse na Alemanha e se mudasse para o Rio por alguns meses para filmar a história de um menino pobre que sonha em virar jogador profissional de futebol, provavelmente o resultado da aventura seria este: uma impressão pessimista, espantada, para uma cidade que perdeu os freios. Você tomaria o vôo para casa certo de que foi ao inferno e voltou.

Apesar de tudo, nem eu, o carioca, posso negar: é um olhar sincero.

Essa “versão gringa” para temas do Brasil, porém, não poderia deixar de soar estranha a nosso paladar. Lá pelas tantas, o diretor se dedica a uma longa panorâmica (para nós, ridiculamente trivial) de uma cidade partida entre favelas e prédios chiques. Como trilha sonora, usa um pagodão do grupo Revelação – uma canção “brega” que não ouviríamos em nossos filmes (lembrem que, até em 2 filhos de Francisco, os refrãos sertanejos são amaciados por interpretações de figurões da MPB).

E o que Alexander quer nos contar com tanto barulho? Que, se você nasceu pobre na favela e quer subir na vida, provavelmente terá que enfrentar traficantes psicopatas, um rio de sangue, sexo sujo e preconceitos de todo tipo. Há um tanto de verdade nessa generalização, mas, para o público brasileiro, ela provoca o impacto nulo de um lugar-comum (e talvez tenhamos nos anestesiado diante desse tipo de tragédia do cotidiano, mas essa é outra discussão).

O desafio de Show de bola seria permitir que o público aceitasse encarar essa trama e esses personagens através das lentes virgens do cineasta. Mas aí o longa teria que ser muito mais sofisticado do que uma colcha de imagens toscas (de propósito) e de cenas que usam o excesso de violência como chantagem sentimental (talvez também de propósito). Nem a presença de Thiago Martins, que fez esse mesmo papel em Era uma vez, justifica uma estética que lembra a campanha publicitária contra DVDs pirata.

Alexander, que finaliza um filme sobre lutas de vale-tudo em Miami, não esconde o sentimento de indignação. Ele está em cada quadro de Show de bola. Mas nada o sustenta além de uma crueza artificial – à serviço de intenções sempre honestas, mas quase sempre ocas.

It’s a wonderful life

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“Eu acredito em milagres, meu amigo. Eu acredito em milagres”, disse o comentarista na tevê. Agorinha, antes da prova de natação.

Nem ligo pra competições esportivas. Quando eu tinha onze anos, parei de nadar exatamente à véspera de uma disputa boba. Não tenho medalhas na parede do meu quarto. Nem aquelas que a gente ganha só por ter participado do jogo. Não choro no hino nacional. Talvez eu seja mesmo alérgico a esse espetáculo chinês. Mas ainda me impressiono quando ligo a tevê durante as olimpíadas. Culpa dos jornalistas. Comovente notar como os repórteres se transformam em seres abobados e otimistas, como eles todos fazem piadinhas e riem e se emocionam e criam mitos ao vivo. Já vi sujeito mandando abraço pra mãe. Zapeio e caio sempre, toda madrugada, num filme de Frank Capra. It’s a wonderful life, não é? Até semana que vem, pelo menos, it is.