Dia: agosto 14, 2008

‘Forth’ The Verve

Postado em Atualizado em

O novo do Verve é um chute nos testítulos. E é um abraço formal entre velhos amigos.

O chute: depois de aposentar-se duas vezes, a banda poderia ter retornado às paradas britânicas com uma coleção de lindas e agradáveis baladas que acentuassem o lado mais pop de Urban hymns, o álbum de 1997 que a transformou em gigante (e que, depois disso, implodiu o gigante em pedacinhos). Em vez disso, Forth é um mamute psicodélico com jams de seis minutos de duração, versos vagos e pensamentos imperfeitos. Lembra os primeiros álbuns da carreira. Soa como um estranho flashback para um grupo que, agora, parece obcecado por compreender a própria história.

O abraço formal: apesar do formato expansivo, esse “álbum psicodélico” não contém viagens tão diferentes daquelas que nos acostumamos a encontrar num disco do Verve. É esquisito como, sob às camadas ruidosas, quase tudo é previsível. Não sou um fã, mas consigo identificar a fórmula grandiosa de Richard Ashcroft e Nick McCabe em cada uma das faixas do disco: da baladona Valium skies ao hino chapado Love is noise. A única surpresa é Noise epic, que se explica já no título – ela começa como um transe progressivo e termina numa homenagem ao Joy Division que mais parece gravada pelo Primal Scream mais enfurecido.

O saldo: um disco superior a todos os da carreira solo de Ashcroft (felizmente, fomos poupados do excesso de glicose), irregular como todos os que a banda lançou, e que decepciona um tanto por não querer dar prosseguimento às experiências de Urban hymns. E isso depois de uma ausência de onze anos. Não espere encontrar nada do nível de Bittersweet symphony, mas não tenha medo de esbarrar em um time de veteranos que se satisfaz com muito pouco. Forth, de qualquer forma, não me tira do sério – nem para o bem, nem para o mal. Apesar do meu pessimismo, era exatamente esse tipo de monumento torto que eu esperava deles.

E não, não é páreo para o do Portishead.

Quarto álbum do The Verve. 10 faixas. EMI. **

‘Como se comportar’ Moptop

Postado em Atualizado em

Na superfície, o novo do Moptop (liberado na íntegra no MySpace), é uma resposta a quem vê na banda uma filial carioca do Strokes. Para minha surpresa, o álbum acaba acertando alvos mais interessantes. Eu, que nunca me convenci com os shows glaciais do quarteto, acabei na torcida por um disquinho melancólico, desconfortável, perdido em incertezas mil.

Não é uma revolução (é até bem conservador, digamos). Mas não é o que se espera do segundo álbum de uma banda defendida por grande gravadora.

Exceção entre exceções, o Moptop é o único grupo novo de rock do país (ou de “novo rock” do país) com o selo da Universal Music. Só que ninguém ligará muito para o detalhe quando ouvir Como se comportar, um trabalho menos acessível que os recentes dos indies Superguidis e Autoramas. Desconfio até que essa condição solitária tenha pesado a favor dos climas enevoados das canções, que lidam com dramas de fim de relacionamento, medo de assumir responsabilidades e o desejo por uma idéia de liberdade e felicidade que talvez nem exista. “Por que vencer se não sei quem eu quero derrotar?”, pergunta o vocalista Gabriel Marques, em Desapego. Taí o desespero.

Como compositor, Gabriel pode até não ser mesmo de muitas sutilezas – Contramão, por exemplo, é literatura beat diluída, e a homenagem a Wong Kar-wai se chama 2046 (e tem um quê de surf music, vá entender). As referências musicais, que agora vão de Arctic Monkeys e Ennio Morricone, são poucas e de fácil identificação. Acredito que, se decidisse expandir essa palheta de influências, o vocalista resolveria um dos maiores problemas do grupo: os riffs monocórdicos, avessos a qualquer aventura, ainda parecem andar em círculos.

É um estilo imaturo. Apesar disso, a carga de desilusão sugerida pelas canções entediadas reforça a impressão de que estamos diante de uma banda que porta-se muito bem, talvez nem de propósito, como retrato de uma determinada fase da vida (a transição da adolescência para a idade adulta) e da crise do rock nacional.

Crescer é um inferno. Crescer em uma banda de rock brasileira do início do século 21, acrescenta o Moptop, pode ser ainda mais dolorido.

Segundo álbum do Moptop. 12 faixas, com produção de Paul Ralphes. Universal Music. **