A caçada

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The hunting party, 2007. De Richard Shepard. Com Richard Gere, Terrence Howard e Jesse Eisenberg. 103min. *

Há quem diga que um dos maiores problemas deste A caçada é deixar o espectador perdido no tiroteio, sem saber se assiste a uma sátira política ou a um filme-denúncia sobre conspirações e crimes de guerra. Posso até tentar entender o desconforto, mas alguém pode me explicar o que há de tão errado em filmes que não se apegam às cartilhas de um determinado gênero? Que se arriscam em narrativas mais arejadas, menos convencionais?

O longa de Richard Shepard pelo menos defende um ponto de vista. “Apenas as partes mais ridículas desta história são verdadeiras”, avisa o letreiro inicial. Contra a sisudez das adaptações de “histórias reais”, o filme tenta um caminho mais nebuloso, um docudrama gonzo, entre a ficção escancarada e as referências a fatos recentes. Juro que não consigo reclamar desse tipo de ambição – ainda que reconheça as dificuldades encontradas por Shepard para concretizar um projeto de cinema que, ainda sem muita consistência, a mim parece dar passos maiores que as próprias pernas.

Inspriado num artigo da Esquire sobre cinco jornalistas que tentaram encontrar o criminoso Radovan Karadzic, que assassinou milhares de muçulmanos na Bósnia, Shepard escreveu uma charge que se sustenta na tese de que ninguém – nem a ONU, nem a OTAN, nem a França, nem os Estados Unidos – queria verdadeiramente encontrar o criminoso. Aí começam os tropeços do filme, que parece enxergar o mundo com a inocência do personagem de Jesse Eisenberg, um rapaz recém-formado em Harvard sem a menor noção da complexidade dos conflitos internacionais.

Com um humor sarcástico e bastante didático, à Michael Moore, a trama não deixa nada nas entrelinhas – nem o fato de que Shepard foi à Bósnia para, na verdade, fazer piada sobre o sumiço de Osama Bin Laden. Essa exploração do lado patético da história conta a favor do lado cômico da narrativa – que se beneficia do carisma Terrence Howard contra a canastrice de Richard Gere. Mas os argumentos de Shepard soariam extremamente frágeis mesmo se o próprio Karadzic não tivesse sido preso no dia 21 de julho.

De qualquer forma, o desenrolar dos fatos no noticiário acabou por funcionar como uma conclusão mais intrigante que a do próprio filme. Fica a impressão de que, incapaz de enxergar as complicações de uma crise política, o cineasta preferiu o caminho fácil de simplificar tudo.

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