Dia: agosto 11, 2008

‘This is a fix’ The Automatic

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“O salvador do rock virá do lugar mais estranho”, profetizou o crítico da New Musical Express. Sobre quem ele está falando, hem, hem? Vampire Weekend? Cansei de Ser Sexy? Móveis Coloniais de Acaju? Antes fosse. É assim que a imprensa britânica está preparando terreno para – tremei! – o lançamento do segundo álbum do Automatic.

The Automatic quem? Se você não conhece, não precisa. Se eu fosse um pouquinho mais irresponsável, poderia prever que o hype em torno deste This is a fix durará algumas semanas, mas a tendência é que ele evapore assim que o Friendly Fires (queeeem?) lançar o álbum de estréia. São duas bandas que fazem pop com a grandiloqüência de um batalhão de metaleiros from hell. Depois de assistir a um show do Muse, fica bem claro que o rock britânico embarcou numa fase Spinal Tap. Haverá volta?

Por enquanto, a ilha está pegando foooooogoooooooo (e leia essas últimas duas palavras como se eu vomitando aqueles agudos esganiçados do vocalista do Angra). Se lançado em meados de 2002, This is a fix seria rotulado de neo-brit pop, com refrãos grandalhões à Kaiser Chiefs. O primeiro disco deles, Not accepted anywhere, de 2006, era quase isso. Agora, assumidamente inspirados no Muse, o quarteto inventou de gravar um álbum com “canções que às vezes parecem um cruzamento de Nine Inch Nails com System of a Down”. Ok, conseguiram. Se bem que o coração do Automatic ainda parece transplantado do The Vines de Highly evolved – um Nirvana sem as partes agoniadas.

Isto é: a banda toparia tudo por um refrão daqueles que ninguém nunca, nem com reza forte, conseguiria tirar da cabeça. This is a fix não tem esse refrão. Mas é esse álbum, gravado como um filme de ação de Michael Bay. Pura adrenalina, diria a equipe de marketing da gravadora. Deve render dois ou três hits, turnês animadíssimas e infinita dor-de-cabeça nos tiozinhos que não conseguem entender o valor de um riff com o peso de algumas toneladas.

A importância de This is a fix para nosso mundo pop é quase simbólica: o disco parece indicar uma certa tendência do rock britânico de reativar clichês do heavy metal sem o climão de auto-paródia de um The Darkness. Desconte isso e não nos sobrará quase nada. Quer dizer: nada além de muita adrenalina, cabelos ao vento e gritinhos que ficam ainda potentes quando acompanhados de efeitos especiais, gelo seco e um telão gigante.

Segundo álbum do The Automatic. 12 faixas, com produção de Richard Jackson e Butch Walker. B-Unique Records. *

A caçada

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The hunting party, 2007. De Richard Shepard. Com Richard Gere, Terrence Howard e Jesse Eisenberg. 103min. *

Há quem diga que um dos maiores problemas deste A caçada é deixar o espectador perdido no tiroteio, sem saber se assiste a uma sátira política ou a um filme-denúncia sobre conspirações e crimes de guerra. Posso até tentar entender o desconforto, mas alguém pode me explicar o que há de tão errado em filmes que não se apegam às cartilhas de um determinado gênero? Que se arriscam em narrativas mais arejadas, menos convencionais?

O longa de Richard Shepard pelo menos defende um ponto de vista. “Apenas as partes mais ridículas desta história são verdadeiras”, avisa o letreiro inicial. Contra a sisudez das adaptações de “histórias reais”, o filme tenta um caminho mais nebuloso, um docudrama gonzo, entre a ficção escancarada e as referências a fatos recentes. Juro que não consigo reclamar desse tipo de ambição – ainda que reconheça as dificuldades encontradas por Shepard para concretizar um projeto de cinema que, ainda sem muita consistência, a mim parece dar passos maiores que as próprias pernas.

Inspriado num artigo da Esquire sobre cinco jornalistas que tentaram encontrar o criminoso Radovan Karadzic, que assassinou milhares de muçulmanos na Bósnia, Shepard escreveu uma charge que se sustenta na tese de que ninguém – nem a ONU, nem a OTAN, nem a França, nem os Estados Unidos – queria verdadeiramente encontrar o criminoso. Aí começam os tropeços do filme, que parece enxergar o mundo com a inocência do personagem de Jesse Eisenberg, um rapaz recém-formado em Harvard sem a menor noção da complexidade dos conflitos internacionais.

Com um humor sarcástico e bastante didático, à Michael Moore, a trama não deixa nada nas entrelinhas – nem o fato de que Shepard foi à Bósnia para, na verdade, fazer piada sobre o sumiço de Osama Bin Laden. Essa exploração do lado patético da história conta a favor do lado cômico da narrativa – que se beneficia do carisma Terrence Howard contra a canastrice de Richard Gere. Mas os argumentos de Shepard soariam extremamente frágeis mesmo se o próprio Karadzic não tivesse sido preso no dia 21 de julho.

De qualquer forma, o desenrolar dos fatos no noticiário acabou por funcionar como uma conclusão mais intrigante que a do próprio filme. Fica a impressão de que, incapaz de enxergar as complicações de uma crise política, o cineasta preferiu o caminho fácil de simplificar tudo.