Dia: agosto 8, 2008

‘The rhumb line’ Ra Ra Riot

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O debut do Ra Ra Riot tende a provocar uma sensação de familiaridade tão intensa que possivelmente você o deixará de lado com a desculpa de que a vida é curta, o tempo passa numa velocidade que deus-do-céu e ninguém precisa ouvir uma banda que soa às vezes como Arcade Fire, às vezes como The Shins, às vezes como (ouch) Dashboard Confessional.

Certo, você não precisa. Eu não preciso. Mas eu sugeriria uma terceira ou quarta audição deste The rhumb line, uma estréia que tem pelo menos uma vantagem sobre tantas outras: é de uma precisão que, este ano, encontra pares apenas em álbuns como Nouns, do No Age, e o primeiro do Fleet Foxes. Não por coincidência, dois lançamentos da Sub Pop. A casa do Ra Ra Riot é outro selo de Seattle, o quero-ser-Sub-Pop Barsuk Records (que abriga o Menomena e o Nada Surf).

Para um primeiro álbum, chega a ser incômodo de tão perfeitinho. Cada faixa exibe quase didaticamente uma determinada referência/intenção do quinteto de Nova York. A abertura, Ghost under rocks, evoca a marcha épica e melancólica do Arcade Fire. Já Winter ’05 sai-se como o momento barroco, com um arranjo de cordas excessivo que, solto no vazio e tratado com certo desleixo, poderia estar numa canção do Vampire Weekend. Too too too fast brinca de discoteca oitentista, enquanto Can you tell parece mirar o romantismo nerd de uma balada do Shins. E é bonita, é sensível, delicada e tudo.

A sorte do Ra Ra Riot é que eles têm um drama particular para narrar. O detalhe garante sentido a uma estética que, apesar de bastante agradável, ainda parece em fase de maturação. Depois de lançar um EP elogiado, o grupo sofreu com a perda do baterista John Ryan Pike, que morreu afogado depois de um show. As corretíssimas melodias do álbum, mesmo que nas entrelinhas, se deixam amolecer pelas conseqüências desse momento complicado. A fatalidade faz de Rhumb line um disco na tradição de Funeral e Electro-shock blues (do Eels), só que mais otimista, mais cabeça-erguida e menos cruel ou emocionante que aqueles dois.

A canção mais potente é a que melhor dialoga com a necessidade de fazer música pop diante da morte. Dying is fine cita e.e. cummings com elegância e, sem abandonar a pose distanciada de um hit indie, arranca um refrão de ouro: “Dying is fine, but maybe I wouldn’t like death. Even if death were good”.

Estou prestes a ceder. Na quarta audição, sou capaz de cantar o refrão de Suspended in Gaffa tão euforicamente quanto a mãe do vocalista. Mas concordo, nesse caso, com os desconfiados: nada dissonante, The rhumb line é aquele típico álbum independente que consegue espaço amplo nas revistas grandes de rock. Apesar do subtexto mórbido, desce confortável feito o novo do Jonas Brothers. Sabe o segundo do Band of Horses? Mas esse gosto pelo acorde fácil, e pelo verso mais literário, não deixa a impressão de um trabalho encomendado. Eles não fingem, estão começando – e, pelo menos por enquanto, essa saúde é a que nos interessa.

Primeiro álbum do Ra Ra Riot. 10 faixas, com produção de Ryan Hadlock. Barsuk Records. **

Pequim

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Eu, totalmente desinformado e com os olhos cheios de remela, assistindo à abertura das olimpíadas: “Parece até um daqueles filmes cafonas do Zhang Yimou”.

E não é que é mesmo um filme novo de Zhang Yimou?

De longe, a obra mais assustadora do sujeito que fez Herói e O clã das adagas voadoras. É tudo o que consigo interpretar quando vejo centenas de chineses batendo tambor e gritando sei-lá-o-que em movimentos milimetricamente sincronizados.

Aí me vem o comentarista: “Os chineses valorizam muito as aulas de educação física”. Ã-hã, eis o sentido da coisa. E eu me chamo Jet Li.