Dia: agosto 5, 2008

‘Chemical chords’ Stereolab **

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Desde Emperor tomato ketchup (1996), o Stereolab lançou quatro álbuns. São discos corretos, em alguns casos até muito interessantes (Dots and loops, de 1997, por exemplo). Mas nem consigo discutir com quem critica a forma acomodada como a banda lida com uma fórmula que eles próprios criaram. Não dá para desconversar: um novo Stereolab soará quase sempre como um velho Stereolab.

A prova da vez é Chemical chords, o nono da carreira. Mais uma fornada de canções róseas e delicadamente eletrônicas, em inglês e francês, com arranjos de cordas de Sean O’ Hagan (do High Llamas, outro que não sai do lugar) e açucarada psicodelia. O fã identificará um gosto pop mais acentuado e reforçará as sutis diferenças entre este trabalho e o anterior, mas nada que eles não tenham feito antes. Até para este cerente profissional que vos escreve – um sujeito, lembrem, que apelidou um blog com o nome de uma canção do High Llamas -, o álbum parece um greatest hits disfarçado.

O que, é claro, traz lá algumas vantagens. De tanto revirar o próprio baú, o Stereolab aprendeu a reforçar as características mais particulares. Chemical chords refina a sonoridade de álbuns anteriores e, nesse processo de limar gordurinhas, quase se aproxima das rádios. A sensação de deja vu atrapalha, mas faixas como Three women e Fractal dream of a thing exibem uma banda que pula o prato principal e vai direto à sobremesa. Mas precisavam ter demorado quatro anos para descongelar a fatia de cheescake?

Revolts

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Imprensa musical é uma festa, eu sei, mas existe raça mais discutível que o jornalista amigo das bandas de rock? O sujeito bacana, gente boa, bróder, solidário e sangue-bom que toma uma cervejinha com os roqueiros e depois escreve maravilhas sobre a tchurma com o argumento de que está “dando um incentivo pra cena”?

É por isso que ando cada vez mais desconfiado com críticas de rock. De alguns, nem leio. E não me peçam pra ler.

Youth without youth

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Youth without youth, 2007. De Francis Ford Coppola. Com Tim Roth, Alexandra Maria Lara e Bruno Ganz. 124min. **

O novo Francis Ford Coppola é, como o próprio diretor definiu, um filme de estudante de cinema. Por parecer bastante complicado encarar por esse viés um longa-metragem de um cineasta de 69 anos de idade, autor dos intocáveis O poderoso chefão e Apocalypse now. Mas acredito não haver outra forma de decifrar este Youth without youth. Trata-se de um projeto mais de tentativas que de resultados – um playground visual em que o diretor tateia possibilidades cinematográficas como se estivesse diante delas pela primeira vez.

É compreensível que, depois de projetos comerciais relaxados (Jack, de 1996, e O homem que fazia chover, de 1997), o cineasta tenha se preocupado com o rejuvenescimento do próprio olhar. O protagonista escolhido para iniciar essa nova fase – de filmes cada vez menores, como afirmou – parece uma metáfora para a ansiedade do diretor: um linguista de 70 anos de idade que, atingido por um raio, retorna milagrosamente à juventude sem perder a sabedoria da velhice.

Apesar da aparência, não estamos diante de uma fábula linear. Inspirada numa novela do romeno Mircea Eliade, um acadêmico respeitado pelos estudos sobre religião e a percepção do tempo, a “trama” desdobra essa premissa em um caleidoscópio surrealista que (até por falta de concorrentes) acaba lembrando os delírios de David Lynch. Transtornado, o personagem interpretado por Tim Roth passa a habitar um limbo entre sonho e realidade, passado e presente, vida e cinema.

É uma jornada longa que, nos momentos mais frustrantes, nos engabela com reflexões filosóficas que às vezes sugerem a trivialidade de um Paulo Coelho (o que não será problema algum para, digamos, os fãs de Shyamalan). Quem se apega ao conteúdo do filme tende mesmo a duvidar da sanidade do cineasta. Não li o livro de Eliade, mas o ensopado metafísico requentado por Coppola só me enjoar do autor antes de uma aproximação. Assim que desvendados, os enigmas se esfarelam no ar.

Nada disso impede, porém, que se admire o filme pela ambição e pela disposição de Coppola, que trata cada cena como uma plataforma para experimentar de tudo. O transe do personagem permite que o diretor alterne gêneros cinematográficos sem abandonar a chave do melodrama e crie atmosferas exageradamente artificiais (pense em O fundo do coração) valorizadas pela fotografia de Mihai Malaimare Jr.

Antes de tudo, eis um filme para ser visto com uma certa ingenuidade. O desafio de Coppola pode ser prolongado para o cinéfilo: seria possível, com o olhar de quem já viveu muito, recuperar a sensação do nosso primeiro contato com as imagens de cinema? Ainda que não desenvolva a questão, Youth without youth tem o mérito de lançá-la ao vento.