Mês: julho 2008

O favorito

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Robert Christgau, o crítico preferido do papai aqui, escreve sobre música pop desde o início dos anos 70. Já bateu ponto em tudo que é revista, defendeu o punk rock no calor do momento e hoje esconde o clááááássico Consumer guide (que saía no Village Voice) numa página perdida lá nos rincões do MSN. Tudo o que ele comenta merece ser lido com o mínimo de atenção (em alguns casos pelas análises ácidas, em outros por um motivo mais simples: o sujeito escreve que é uma beleza).

No guia de junho, ele comenta os discos do Be Your Own Pet, do Lil’ Wayne, do The Kills, todos devidamente elogiados. Uns fãs criaram um site meio tosco em homenagem ao nosso herói da resistência, com uma exaustiva compilação de textos. Na minha lista de favoritos, está lá no alto.

‘No way down EP’ Air France **

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No sistema de abastecimento dos lares suecos, será que corre na água algum tipo de substância capaz de ativar o apreço pelo pop mais adocicado, inocente e tropical? Pelo menos é o que nos fazem acreditar bandas e artistas como The Tough Alliance, Jens Lekman, Peter, Björn & John e, agora, este Air France.

A coincidência entre os sabores da estação, claro, diz mais respeito aos critérios de quem seleciona os nomes “quentes” do momento que a um suposto retrato fiel da cena musical na Suécia. De qualquer forma, não me espanta que essa faceta mais rósea do indie sueco (calcado em eletrônica, armado a partir de samplers) tenha se destacado. É essa estranheza que atrai o fã de rock norte-americano ou inglês. Não é à toa que, nas resenhas de álbuns como No way down, se valorize tanto uma suposta pureza de intenções, como se o Air France tivesse desembarcado de um planeta distante onde os campos são verdes e tudo sempre acaba bem.

Apesar de sugerir paisagens bucólicas e estrangeiras, é uma sonoridade que nasce a partir de uma série de outros subgêneros (o segundo parágrafo deste texto da Pitchfork tenta mapear o código genético do grupo) – o que mais me agrada no EP é como todos esses microorganismos convivem em harmonia, e às vezes se unem para formar uma espécie de trilha sonora para um fim de semana imaginário num resort em Ibiza. “É tudo um sonho”, avisa uma voz infantil em Collapsing at your doorstep, imediatamente sobreposta a outra, que completa: “Não. É melhor”.

Diante do turbilhão de fofura demodé, me lembrei mais de Sally Shapiro que de Avalanches. Outra que não me faria falta alguma, mas que desce feito sorvete de framboesa em tarde de verão.

Ceticismo

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Resultado de uma enquete publicada hoje na Folha de S. Paulo: 82% dos internautas não seguem recomendações de críticos on-line.

Tudo bem, gente, tranqüilo: eu também não sigo.

Fôlego *

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De Kim Ki-Duk, todo ano espero: as narrativas circulares, as tramas escoradas em poucos elementos (que, até por tempo de exposição nos planos, acabam ganhando inevitável carga simbólica), as tentativas de lirismo que oscilam entre as emoções singelas e a chantagem sentimental, os conflitos que só ficam absolutamente claros ao espectador, e de forma bastante esquemática, lá pelos minutos finais.

Não sou o maior fã do sul-coreano.

Mas cá estou, e pela sexta vez!, diante de um filme de Kim Ki-Duk, sem saber direito o que me atrai a esse repertório de truques que sempre me pareceram óbvios demais. Sou um homem teimoso. Não consigo enxergar exatamente uma fase de maturidade na obra do diretor nem qualquer tendência nesse sentido, e prefiro me apegar à idéia de que ele tenta me convencer pela repetição, pela insistência com que maltrata uma mesma tecla. Chame isso de estética ou do que preferirem (embuste?).

É um cinema que me conquista por uma obsessão de simplicidade e pureza – os filmes de Ki-Duk parecem às vezes erguidos com palitos de dente, prestes a desabar com um sopro -, mas que sempre deixam a impressão de obras excessivamente didáticas, que subestimam o intelecto do pobre espectador. Como ilustração para tudo o que me incomoda em Kim Ki-Duk, Fôlego é exemplar. Talvez o filme-síntese de todos os que produziu desde o sucesso internacional de Primavera, verão, outono, inverno… e primavera (de 2003).

Trata-se de uma conto de vingança amorosa narrado com algum (bom) gosto pelo absurdo e situações que se repetem até o limite da autodiluição (para sugerir a agonia de uma cela de prisão, por exemplo, os detentos se esbarram uns nos outros em coreografias à Deborah Colker). É comum, ao final das sessões de um típico Kim Ki-Duk, que os espectadores se encarem e, depois de trocar três ou quatro frases sobre o que acabaram de ver, encerrem a conversa. Não há muito o que discutir sobre esses filmes. São obras muito simples. E vazias – pelo menos é o que parece aos que (como eu) ainda procuram, mas não conseguem enxergar beleza nessas esculturas de guardanapo.