Mês: julho 2008

‘Partie traumatic’ Black Kids ***

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O Black Kids é de uma geração que vive dez vidas no período de um mês. Vejamos: a banda da Flórida foi descoberta num pequeno festival em agosto de 2007 e, de lá pra cá, lançou um EP independente muito elogiado (Wizard os Ahhhs), assinou contrato com uma grande gravadora, foi procurada pelo empresário do Arcade Fire e agora, menos de um ano depois, solta um primeiro disco gravado na Inglaterra com produção de Bernard Butler (Suede). Ufa.

Se o quinteto continuar nesse ritmo acelerado, as expectativas são de que encerrem as atividades em uns três meses, no máximo. Por isso, é bom que ninguém perca tempo. Partie traumatic, apesar de ter nascido como um disco “velho” (as quatro faixas do EP foram regravadas, e quase todas as outras músicas já eram conhecidas em versões demo), sai-se como uma polaróide ainda bastante vívida do estado do indie rock na segunda metade de 2007.

Tenha a certeza de que só teremos a chance de conhecer esta banda no segundo álbum – e vamos torcer para que eles cheguem até lá. A química do Black Kids pode parecer até trivial – eles mesclam new wave e soul music, às vezes parecem um encontro de B-52s com Magic Numbers, com um vocalista cheio de afetações à Robert Smith e Jarvis Cocker -, mas o que conta é a forma como disparam canções empolgadíssimas e sacanas, em fúria hormonal. I’m not gonna teach your boyfriend how to dance with you, a melhor de todas, se explica logo no título – mas o que dizer dos orgasmos múltiplos das backing vocals? Prince cairia de quatro por eles.

Curioso no álbum é como essa estética em formação é trabalhada por Butler, que ressalta por um lado as referências de glam rock (a primeira faixa, Hit the heartbreaks, é um mix de Duran Duran com Roxy Music) e por outro adocica a porção mais soul do grupo (em ternurices como I’m making eyes at you).

Com outro produtor, provavelmente este seria um disco mais direto e agressivo. Butler, com as armas do britpop, tenta encontrar um caminho um pouco mais sutil e diversificado de apresentar esta banda a um público que caiba em estádios de futebol. Consegue. Partie traumatic é, desde já, um dos álbuns mais enérgicos e redondinhos de… 2007. Mas não digam que não avisei: ainda em ótimas condições para consumo.

Melancolia (ainda Beck)

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Só agora, depois da décima-nona audição, percebi o quão melancólico é o disco novo do Beck. Um filme de terror, quase. Talvez seja o álbum mais triste da carreira do sujeito. O mais triste depois de Sea change, disso não tenho dúvidas. Mas a diferença é que agora a história não termina num singelo “perdi minha namorada e estou desesperado” (o que, ok, também representa uma dor tenebrosa). Ela vai mais longe, vai mais fundo. É algo como “encontrei o amor da minha vida, estou casado, tenho dois filhos lindos, mas minha existência ainda não faz o menor sentido, há um zumbido na minha cabeça, não consigo mais escrever o Grande Refrão, tenho medo do Danger Mouse, queria poder mudar de identidade e começar tudo de novo”. Algo assim. Sério. É um álbum sobre esse tipo de crise. E (se você ouvir com mais atenção) é de arrepiar.

Amarante +1

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Rodrigo Amarante vai lançar disco com Fabrizio Moretti, o baterista do Strokes. Dessa dupla, não faço a mínima idéia do que pode sair. Espero tudo, até um álbum de calypso. Mas, se render algo um tiquinho melhor que o último do Albert Hammond Jr, tenho certeza de que todos sairemos no lucro. Como é que se chama mesmo?

Do outro lado **

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O pouco que conheço de Fatih Akin é Contra a parede, de 2004 – um filme que, premiado com um Urso de Ouro em Berlim, passou por mim quase que batido. Não dei muita atenção. Dele tenho apenas uma vaga lembrança: a de um roteiro costurado por reviravoltas e contrastes culturais.

O esquema de ficção, lembro, garantia à narrativa uma exibida ligação com temas atuais (a configuração desastrada da União Européia, acima de tudo), mas parecia excessivamente forçado, sem a autenticidade e o sangue quente que se esperam de um cineasta jovem (34 anos) empenhado em filmar o cotidiano de turcos na Alemanha – ele próprio é filho de pais turcos.

Muito elogiado nos Estados Unidos (onde ganhou o nome de The edge of heaven) e vencedor de prêmio de roteiro em Cannes, Do outro lado seria minha reconciliação com Akin. Mas não. Ainda estou desconfiado. É um longa cheio das melhores intenções – e das maiores ambições, já que se pretende um retrato de um “mundo globalizado” – que acaba parecendo uma versão em widescreen de Contra a parede.

Encenada entre a Alemanha e a Turquia, a trama acompanha as idas e vindas de tipos que mantêm ligações fortes entre eles, mas mal conseguem se encontrar. É um novelo que sugere reflexões sobre incomunicabilidade e acaso, mas manipula os destinos dos personagens com tanta truculência que se aproxima mais do mexicano Alejandro González Iñarritu que de uma Sofia Coppola.

Curioso que o roteiro premiado me pareça o maior dos problemas de um filme que, sim, é um avanço em relação a Contra a parede. Se o conjunto das tramas paralelas não convence, Akin cuida de cada um dos personagens e, sem muita pressa, permite que eles sobrevivam ao esquematismo da narrativa. Para o espectador, é possível se importar com eles mesmo quando se rejeita o lado mais imaturo do cineasta.

Ainda percebo em Akin um autor com muito a comentar sobre o mundo em que vive, mas que insiste em discursar da forma mais simplória, como se o desabafo bastasse – quem gostou de Babel, porém, terá o que comemorar.

Stop-loss – A lei da guerra **

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Já com data marcada para lançamento em DVD por aqui (25 de agosto), este Stop-loss confirma a sina de filmes sobre a guerra do Iraque: provocou um certo falatório à época do lançamento, mas acabou desacreditado logo que começou a cheirar a fracasso de bilheteria (custou US$ 25 milhões, arrecadou só US$ 10 mi).

Discussões financeiras à parte, é uma pena que não tenha chegado aos nossos cinemas. O que interessa aqui é ver um grande estúdio norte-americano (a Paramount) tatear o drama de jovens soldados e refletir sobre temas que ainda fervem no noticiário. Mesmo que no formato de um melodrama mais tímido que metade dos seriados exibidos na tevê.

O discurso é o de um panfleto anti-guerra bastante desiludido, como que um encontro entre Amargo regresso e Rambo – Programado para matar. Ryan Phillippe é o soldado veterano que retorna do Iraque e, ainda não muito adaptado à vidinha no Texas, descobre que teve a baixa prorrogada (procedimento que, em inglês, atende por stop-loss). Inconformado e confuso, ele se nega a retornar ao front, abandona o quartel e foge em direção a Washington, onde tenta encontrar um senador que resolva o libere da obrigação com o exército. É on the road que ele acaba descobrindo a condição de outros soldados que peitaram o Estado: são heróis tratados como marginais.

É uma denúncia feita no calor do momento – nos letreiros finais, o filme nos informa que 81 mil soldados receberam ordens para voltar à guerra. A diretora Kimberly Peirce, de Meninos não choram, defende a premissa como pode: com um tom emocionado, de desabafo, ainda que não tão cruel quanto o de Redacted, por exemplo.

O recurso de flashback é usado a torto e a direito, o que dá à narrativa um ar até sensacionalista mesmo. Já a necessidade de moldar o personagem de Phillippe para que caiba no perfil de um produto da violência banalizada descamba em uma inevitável simplificação – desnecessária a seqüência em que ele pune um grupo de bandidos de rua com truculência além da medida.

Um projeto irregular, sem dúvida, e que mal consegue uma comunicação direta com o público que pretende atingir (a palavra é essa mesmo, existe uma espécie de missão conscientizadora em ação). Mas deixa um certo impacto, carregado de revolta e impotência, que soa até como um tilt, um defeito de fabricação.

Loser, baby

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I was never the guy out all night in bars, hanging out with people in other bands. I was home watching Antonioni movies, or reading, or going for hikes.

Beck, o nerd do ano, revela ao New York Times o quão penoso foi gravar Modern guilt. E que não usa telefone celular ou acessa muito a internet (ficou sabendo de In rainbows, por exemplo, meses depois do lançamento). “Meu disco soa como que gravado às duas da manhã, depois de deus-sabe-quantas semanas de tentativas”, ele diz. E não é que parece? 

Esquizofrenia

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Em poucas palavras, o único inimigo de Hancock é o próprio Hancock.

E assim Inácio Araújo define, em poucas palavras, o elemento que mais me interessa no filminho esquizofrênico de Peter Berg. Pra vocês verem como as coisas são: esse é o argumento que ele usa para justificar a avaliação “ruim” num texto publicado na Folha de S. Paulo. Sintonias diferentes ou o quê?

‘Donkey’ CSS ***

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Cá estou eu mascando o disco novo do CSS. Daqui a pouco cuspo longe. Mas, e pra que ficar fazendo doce?, por enquanto está uma delícia.

Primeiras e apressadas impressões (blog serve pra isso, né mesmo?): no primeiro álbum, o Cansei de Ser Sexy soava como um bando de geeks paulistanos brincando de misturar canções alheias trocadas na web. A colagem, eles lambuzavam com versos em inglês que podiam até parecer ginasianos – mas nunca, nunca, em hipótese alguma se levavam a sério. É um disco debochado, uma molecagem. Sassy, como dizem por lá. Safado, como preferimos por aqui.

Você curte piada repetida? O CSS também não. Daí o desafio que este Donkey representa. Em vez de não mexer no time que estava ganhando, os paulistanos decidiram bagunçar o meio de campo. Este segundo álbum não é tão sacana e, profissional até o gargalo, está longe de deixar a impressão de uma molecagem. Até as letras começam a fazer sentido (mas, para nossa sorte, Lovefoxxx mantém o sotaque à la aprendi-inglês-no-CCAA). Foi mixado por Mike “Spike” Stent (Björk, Madonna), e ninguém está brincando em serviço desta vez.

Daí a dúvida cruel: essa sonoridade mais polida, de cabelinho cortado, teria limado o charme vagabundo do CSS? A resposta mais fácil é sim (e aposto que muito crítico preguiçoso vai acabar os chateando por conta disso). Mas, foi mal, eles não parecem estar aí para isso. Cada vez mais, o CSS se porta como uma banda “internacional” e menos como uma banda “brasileira metida a internacional”. É uma mudança de perspectiva importante para que se entenda um disco que quer ser comparado aos álbuns do Klaxons e do Franz Ferdinand – e não com os do Bonde do Rolê.

Isso quer dizer que o CSS mudou de identidade, trocou de passaporte? Talvez eles até preferissem que sim, mas há algo de muito brasileiro (e quem sabe um pouco do pop nacional pós-Tropicália perceberá isso) na forma absolutamente desencanada como transita entre estilos sem se apegar a um formato uniforme – e o faz com mais desenvoltura até que o próprio Klaxons, cujo Myths of the near future é um irmão mais velho deste Donkey. Um disquinho sortido. Pop pra burro.

Se Rat is dead apontava uma fase mais guitarrística e com saudades do grunge (mas tudo bem, todo mundo tem o direito de querer escrever um Smells like teen spirit ou um Song 2, mesmo sem talento para tanto), o resto do álbum desmente essa imagem inicial com muito vigor. Com riffs à Franz Ferdinand, Jager yoga avisa que o CSS não veio ao mundo a passeio, e emenda o grito de guerra com uma reafirmação do refrão de Take me out. Let’s reggae all night aperfeiçoa o electro-rock do primeiro disco com divertidas quebras de andamento e uma produção que brilha no escuro.

É verdade que o disco dá uma caída nos momentos mais roqueiros – o trio Left behind, Beautiful song e How I became paranoid quase esfria a pista -, mas é um alívio notar que o CSS está tentando reforçar a salada de frutas sem medo de exagerar no chantilly. No meio do caminho entre os arranjos quase mecânicos do novo rock inglês e o pop dançante norte-americano, eles conseguem amarrar faixas que estarão entre as mais bacanas do ano: a perfeitinha Move, acima de todas. E o refrão doce-de-derreter de Believe achieve? Vale o disco inteiro. E fará você deixar de lado a birra e fazer as pazes com eles de uma vez por todas.

Amigos, ok?

Hancock ***

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Hancock, o herói bebum, não agrada a ninguém. Desajeitado e sem modos, é um estorvo. Quando salva um motorista prestes a ser atropelado por um trem, recebe em troca uma série de comentários maldosos dos pedestres. “Por que, em vez de atirar o carro para trás e provocar esta zona, você não o pendurou acima dos trilhos?” Quem diria, ãhn: de tão banalizados, os super-heróis viraram guardinhas de trânsito que – quem liga? – podem voar e destruir prédios.

Quem me conhece sabe que não sou dos maiores fãs de fitas do gênero. Minha primeira reação diante de filmes que seguem estritamente determinadas fórmulas narrativas é tirar um cochilo. Talvez isso explique meu interesse até exagerado por este estranho, tortíssimo blockbuster de Peter Berg (de O reino). Hancock satiriza os métodos de sucessos como Homem-Aranha e Batman sem se assumir como uma paródia rasgada. Melhor seria explica de outro jeito: este é um filme de super-herói para um público e para um cinema de entretenimento fartos de super-heróis (e, por isso mesmo, a tendência é que frustre deus-e-o-mundo).

Imagino a decepção de quem espera por um novo Homem de Ferro. Hancock é um pouquinho mais sofisticado que isso. Na primeira meia hora, fica a impressão de que o maior desafio do herói outsider é integrar-se às normas da sociedade para, enfim, ser amado pela multidão (algo que, digamos, até Lil’ Wayne deseja). Mas o roteiro de Vincent Ngo e Vince Gilligan, que poderiam ter escrito uma continuação de Southland tales, se desdobra em piruetas improváveis que diluem uma previsível lição de moral numa trama anárquica. É frenético e esquizofrênico – e delicioso exatamente por isso.

Se esse espírito iconoclasta não faz, por si só, um grande filme, o que me surpreende aqui é notar como o hiperativo Peter Berg conduz com segurança – e com a cumplicidade de Will Smith, que imprime uma deslocada carga melancólica ao personagem – um filme que soa muitas vezes como o delírio de um rapper com mania de grandeza. O diretor, menino birrento, evita quase todos os chavões do gênero. Até visuais, já que a fotografia de Tobias A. Schliessler força uma atmosfera realista que simplesmente não parece combinar com stuações fantasiosas, quase despregadas de lógica interna, como que inventadas no decorrer do processo de filmagem.

Admito que não comprei metade das reviravoltas da trama e senti falta de um primeiro ato – que talvez evitaria os solavancos da parte final do roteiro, em que se tenta erguer rapidamente toda uma mitologia para o herói. Mas, defeituoso como está, Hancock me agrada mais que 90% dos filmes que Hollywood desova no verão norte-americano. Michael Mann, o produtor desta sandice, deve estar batendo ponto de multiplex em multiplex para conferir a reação do público. Já adianto que, na minha sessão, o descontentamento foi quase geral. Quase: eu e mais uns cinco que não estão aí para o incrível Hulk queremos ver de novo, e logo.

Verdade tropical

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Surpreendi-me escrevendo, para a introdução deste livro, que o Brasil é, para mim como para os brasileiros tal como os vejo e sinto, antes de tudo um nome. Todos os brasileiros temos a impressão de que o país simplesmente não tem senso prático. É como um pai de coração bom e nome honrado a quem respeitamos mas que não consegue dinheiro ou um trabalho estável, perde grandes oportunidades, se embriaga e se mete em complicações. O nome do Brasil não apenas me parece, por todos os motivos, belo, como tenho dele desde sempre uma representação interna una e satisfatória.

Verdade tropical, do Caetano Veloso, é um grande livro. Uma autobiografia lúcida, pontuada por maravilhosos momentos de dúvidas e acertos de contas, e uma aula de história da música popular brasileira que soa cristalina e emocionada como poucas outras (até por não ter medo de sublinhar a complexidade e as contradições de períodos que, hoje, parecem muito simples e até maniqueístas). Por que demorei tanto para lê-lo? Preconceito de garoto que acha que sabe de tudo. Arrogância de leitor da Bizz circa 1992. Vá entender.

O que sei é que acabaram de lançar uma versão “de bolso” do livrão (de 500 páginas) pela Companhia das Letras. Que, onze anos depois, finalmente ganhou uma capa com design jovial, do jeitinho que merece.

Quando menino ouvi louvarem muito os maus alunos inteligentes e ridicularizarem os cus-de-ferro. Hoje, embora eu mesmo não possa mais mudar substancialmente quanto a isso, valorizo os adolescentes estudiosos e os espíritos metódicos – e tento, na feitura deste livro por exemplo, assegurar um mínimo de precisão para além da atingida espontaneidade.

É isso aí, tio. Como é que entro pro fã-clube?

Clipe: ‘Rat is dead’ CSS

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É tudo muito simples: no primeiro clipe do álbum Donkey, o CSS (vamos chamá-los só desse jeito daqui em diante?) mata um rato. Mas, entre a primeira e a última cena, algo além disso acontece. Descobrimos, por exemplo, que nossa banda for export decidiu empunhar guitarras e prestar homenagens explícitas aos anos 90. Se o disco seguir essa linha, que tal um revival de L7? Babes in Toyland, onde estão vocês? Tudo bem. Se o Linkin Park tentou algo parecido, por que não pode? Você ouve a música e entende imediatamente por que eles regravaram Cannonball, do Breeders. No vídeo (que não é um Alala), o visual tem um quê de new rave. Mas new rave não tinha morrido?

Jogo de amor em Las Vegas *

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Me fez gostar ainda mais do Antes só do que mal casado, dos Farrelly. E nem estou falando nos discursos dos filmes – Jogo de amor em Las Vegas nunca teria um desfecho tão deliciosamente incorreto, por exemplo -, mas em como diretor (que se chama Tom Vaughan, mas isso não faz diferença alguma) parece incapaz de imprimir ritmo ágil e um tom minimamente ácido a uma trama que, na maior parte do tempo, se limita a mostrar um casal se estapeando.

Parece exagero, mas o trailer me soa mais engraçado e bem resolvido que o longa-metragem em si – tudo o que você precisa saber sobre o filme está na campanha publicitária. Quando cruza a fronteira entre o humor grosseiro e a comédia romântica, o diretor o faz com esforço sobrenatural. Dá pena de ver.

(Mas cômico mesmo foi o comportamento do público na sessão. Deus, o que acontece? Na fila de trás, um sujeito decidiu competir com Cameron Diaz e Ashton Kutcher num falatório interminável via celular que acabou rendendo uma resenha em tempo real, e bastante positiva, sobre o filme. “Eles brigam à beça, mas acho que eles vão ficar juntos no final”, comentou o pateta. À saída, notei que muita gente simplesmente não havia entendido as cenas dos créditos finais, que mostram eventos que acontecem SEIS MESES ANTES – assim, em letras garrafais – do desfecho da trama. “Quer dizer que, depois de tudo, eles ainda inventaram de casar em Las Vegas de novo?”, observou uma cinéfila desatenta. Puts. Daí para o enigma indecifrável que muitos encontraram nos 30 minutos finais de Onde os fracos não têm vez… Desisto, viu).

‘Modern guilt’ Beck ***

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Demorou seis anos, mas chegamos lá: Beck Hansen espanou a poeira e finalmente conseguiu gravar um sucessor digno de Sea change. Modern guilt é um álbum à altura de uma carreira que, de 2002 para cá, parecia ter perdido o foco. Estou tão espantado quanto vocês.

O tempo é mesmo cruel: Guero (2005) e The information (2006), hoje fica mais claro, são projetos embaçados que, no máximo, ilustram um período de incertezas para o compositor. O primeiro, uma tentativa desesperada de retomar as colagens sonoras de Odelay (1996). O segundo, obra de transição, apontava uma série de caminhos para um futuro que, enfim, chegou.

O que aproxima discos como Odelay, Midnite vultures, Mutations e Sea change é o rigor com que Beck decide o que, como e com quem vai gravar. São álbuns que, mesmo nos momentos mais confessionais (caso de Sea change) parecem organizados com o distancimento de um curador que seleciona as peças para uma determinada exposição de arte. Pois bem: Modern guilt pertence a essa linhagem. Pop com conceito, à prova de incoerências.

Na discografia de Beck, é o álbum mais enxuto, compacto, e soa como que comprimido numa sala pequena. Tem pouco mais de 30 minutos de duração. Curiosamente (e, em matéria de detalhes irônicos, eis um ídolo que não nos decepciona), este também é um “álbum psicodélico”, que abre com efeitos à Tomorrow never knows (dos Beatles), embarca em viagens floydianas (Chemtrails vai às raias da lisergia) e parece ter sido composto depois de uma overdose de garage rock sessentista. Os versos – Bob Dylan on acid – sugerem imagens surreais, fantasmas, barcos que afundam e casais siderados. “Não sei o que vi. Era tudo uma ilusão?”, ele pergunta, em Volcano.

Não menos importante que tudo isso, Beck investe numa sinfonia em duo com o produtor Danger Mouse. O compositor mais uma vez se reinventa com a ajuda explícita de produtores. Depois de Nigel Godrich e do Dust Brothers, parece ter encontrado um novo parceiro com quem dialogar. São dois homens apaixonados por estúdios. Não ouviremos um álbum tão bem gravado em 2008: Modern guilt parece se emocionar com a tecnologia, que se assume como uma guloseima digital (e até os trechos mais introspectivos como Replica, que remete ao Radiohead de In rainbows, exibem esse prazer do processo de gravação).

Em Danger Mouse, Beck identifica um cúmplice. Para que cada um siga em frente, a parceria terá que ser desfeita – mais cedo ou mais tarde. Mas, como retrato de um feliz encontro de dois perfeccionistas, Modern guilt se sustenta e se impõe (mesmo que sem canções tão inspiradas quanto as de Mutations e Sea change). Ao contrário dos álbuns recentes do músico, este aqui muito possivelmente não será engolido pelo furacão de informações. Não precisaremos ser bonzinhos: é ótimo.

Na Paisá

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Na atualização das resenhas de música da Paisá tem um textinho meu sobre o novo do My Morning Jacket. Mas o destaque mesmo da edição é o textão do Filipe sobre Lil’ Wayne & Coldplay. Apesar de fazer algumas ressalvas à premissa dessa comparação entre os dois discos (no hip hop, quase todo mundo tenta injetar excentricidades no mainstream – isso é praticamente regra), eles realmente acabam se parecendo bastante em vários sentidos. Aliás, um dos álbuns que mais escuto no momento é o do Coldplay (e não o do Lil’ Wayne, por incrível que pareça). Apesar de ouvi-lo com aquela cara emburrada e a falta de paciência de quem está sempre prestes a jogar o iPod da ponte.