Mês: julho 2008

Nome próprio ***

Postado em Atualizado em

A história nem é tão nova: Nome próprio foi inspirado em dois livros e um turbilhão de posts de Clarah Averbuck, que hoje escreve no blog Adiós Lounge. Num texto recente, ela desabafa contra os que não a compreendem: ‘Eu uso a vida para a arte, o que é muito diferente de achar que é tudo a mesma coisa’.

Pois bem. Não é tudo a mesma coisa (e eu, ha-ha, bem sei disso). Daí a complexidade que reside neste filme aparentemente simples dirigido por Murilo Salles – e é o melhor dele desde Nunca fomos tão felizes. A protagonista, vivida por Leandra Leal, não é Clarah Averbuck. Melhor seria defini-la como uma mulher nascida num território nebuloso entre a confissão e a ficção.

Não é, como os apressadinhos ficarão tentados a resumir, um “retrato de geração”. Muito menos um filme sobre blogueiros. O buraco é outro. Murilo Salles evita tomar a personagem como símbolo, como emblema. Ela é o que ela é. O filme abre inúmeras possibilidades de análises, de interpretações sobre uma lista de temas: da solidão das metrópoles ao uso de blogs como aquele tipo de garrafinha com mensagens dentro que se joga no mar à espera de alguém que as encontre. Mas, antes disso, é um perfil psicológico. Que será entendido perfeitamente por quem não sabe o que é uma conta de twitter.

Eis o retrato de um período intenso na vida de uma mulher aos pedaços. A woman under the influence. Que é sim imatura e calhorda e aloprada. Que escreve por precisar escrever (e, perto desse catatau de sexo, drugs and botecos-fedidos, um filme sobre meus blogs seria uma animação da Pixar). No início da trama, nossa heroína é chutada pelo namorado. A partir daí, não importa muito que saibamos de onde ela vem (de Brasília, certo, mas não espere um histórico detalhado), o que ela faz ou quer da vida. São 120 minutos de transtorno, um processo criativo enlouquecedor.

Murilo Salles filma a erupção desse vulcão com urgência: as câmeras digitais grudam-se no corpo de Leandra Leal, numa atuação que dá sentido a uma personagem quase sempre contradtória. Leandra permite que nos aproximemos dela, que observemos o mundo por um outro olhar. É um trabalho, no mínimo, muito cuidadoso e inteligente (e nada como uma atriz capaz de dividir tão radicalmente com um cineasta a autoria de um filme).

O cineasta nem chega a se aprofundar nos conflitos de quem escreve ficção a partir da própria vida (o que, em blogs, virou lugar-comum). Nem faz questão de dar relevo aos personagens periféricos (o nerd, o namorado orgulhoso, o paquera desmiolado etc). Mas já me agrada muito como consegue, a partir de uma encenação tão intimista, sugerir um sem-número de possibilidades de narrativas sobre a angústia de escrever e a necessidade de comunicação e contato neste nosso mundo todo quebrado.

Mas calma lá: Nome próprio é, antes e acima de tudo, a história de uma mulher. De carne, osso, bits e tudo. De verdade. 

Fim dos tempos

Postado em Atualizado em

Vai chover (para quem mora em Brasília, a previsão há de soar ainda mais apocalíptica). O quadro de cotações da Contracampo foi atualizado e… quando isso aconteceu pela última vez mesmo? Em 1870? Tudo o que eu tenho a dizer agora é que estou curiosíssimo pelo Nome próprio, do Murilo Salles. E que, se continuar nesse ritmo, Fim dos tempos sairá de 2008 com a melhor média do ano. Sabe-se lá como.

No mais, no love for Catherine Breillat?

Frenesi

Postado em Atualizado em

The dark knight is constant climax; it’s always in a frenzy, and it goes on forever.

Então. Eu sei que vocês já estão fartos disso, mas essa crítica da New Yorker sobre um filmezinho aí que ninguém quer ver me pareceu uma espécie de reflexo cruel de tudo o que eu vejo de problemático nele. Divertido quando o crítico sádico fala da trilha sonora que está à toda “até quando nada acontece” (e sério que esse mesmo resenhista também curtiu Hancock?). Ainda assim, gosto do filme. Estranho: esse parece ser um Batman de que não podemos simplesmente gostar – com reservas, de um jeito ameno, mas honesto, como se gosta de um episódio simpático de The Office. Ele exige uma tomada severa de posição. Daí essa divisão de opiniões no Metacritic – que, a essa altura, me interessa mais que o próprio filme.

Em tempo: só agora fiquei sabendo dos ataques que o crítico da New York Magazine sofreu por ter falado mal do filme. Impressionante (e a resposta dele aos fanáticos é nada menos que uma lindeza). Comofas?

Batman – O cavaleiro das trevas **

Postado em Atualizado em

(Juro que eu ia matar este post com a frasezinha-slogan-refrão Why so serious?, mas ok, brincadeira tem hora, este é um blog de nicho e todos nós merecemos um pouco mais que isso, certo? Certo?)

Pois bem, sejamos francos. Eu sei que TODO MUNDO está ansiosíssimo pelo novo Batman e que TODO MUNDO já gostou do novo Batman antes de tê-lo visto e que TODO MUNDO vai dizer que aqueles que não gostaram do novo Batman estão de implicância infantil com os que gostaram sem tê-lo visto e que TODO MUNDO paga pau pro Heath Ledger.

Tá. Mas (e agora as coisas vão ficar bem entediantes) vamos falar do filme? Batman – O cavaleiro das trevas, dirigido por Christopher Nolan. Não sei se é a melhor adaptação de histórias em quadrinhos de todos os tempos (copyright da revista SET), mas provavelmente é a maior. Um filme para os dias em que vivemos. E um filme grande – aí você decide se isso é bom ou ruim.

Nolan, que dirigiu um filme cético sobre ilusionistas (O grande truque), é um sujeito pragmático. Batman begins foi chamado de sóbrio e sisudo, mas eu prefiro funcional. Ele é um autor, sim – um autor de roteiros. O cavaleiro das trevas é trama e atuações. Quem reclama da falta de cenas memoráveis esquece que Nolan nunca se interessou tanto assim por cenas memoráveis.

Essa tom clean não soa nada estranho. Na verdade, combina com um período em que o cinema de entretenimento tenta se legitimar a partir de referências do cinema policial dos anos 70 (ou melhor: de alguns elementos que, hoje, são vistos como um aceno para o “cinema policial dos anos 70”). Mais que Fogo contra fogo, o novo Batman me lembra a trilogia Bourne, o último James Bond, Conduta de risco e similares. Sinceramente, não vejo nada de atípico na estética do filme.

Enquanto isso, meu Homem-Morcego preferido (Batman – O retorno) parece cada vez mais o retrato de uma época distante, sem volta. Hmm. Tá, né. Sem ressentimentos.

Eu fico do lado dos que vêem uma séria contradição na estética de Nolan (e o texto do Chico, que demorei para ler com atenção, vai direto ao ponto). O inglês dedica-se cuidadosamente ao aprofundar o perfil psicológico dos personagens – e isso ele faz muito bem -, mas compõe uma encenação quase sempre escorada em grandiloqüência. Desde a primeira cena, ele seqüestra o espectador com uma trilha sonora incessante, uma câmera que não pára de rodopiar ao redor dos personagens e cenas de ação que parecem mirabolantes demais para caber na lógica realista da narrativa. Nolan quer tudo ao mesmo tempo: quer ser Lawrence da Arábia e O poderoso chefão numa metralhada só.

São tantas as situações empilhadas pelo roteiro que as 2h30 de duração passam num soluço. Entretém? É divertido? Mais que qualquer Piratas do Caribe. Mas os artifícios por pouco não soterram o que o filme tem melhor: os duelos verbais entre os personagens, quando o complexo de épico de Nolan acaba contando a favor das performances de Aaron Eckhart e, claro, Heath Ledger. No caso do Coringa, o ceticismo do cineasta rende uma interpretação verdadeiramente nova para o vilão, agora sem um pingo de glamour, quase sem graça. Mas é o mesmo diretor quem responde pelo didatismo de cenas em que vilões explicam detalhes mínimos do próprio passado antes de partir para o ataque.

Consigo até prever que, num futuro próximo, Nolan converterá essa forma chapada de ver a ficção em um cinema particular, só dele. O cavaleiro das trevas ainda não me parece ser o caso. Mas é, pelo menos, um blockbuster para um mundo desconfiado e desiludido. Só isso justifica quase todo o circo: as expectativas dos fanáticos, os lucros já tão certos e os tantos so fucking amaaazing que leremos por aí. O Why so serious? acaba valendo pra todos nós.

‘Something for all of us…’ Brendan Canning **

Postado em

Comparação bobinha que vem a calhar: no Broken Social Scene, Kevin Drew é assim, digamos, um Batman. Compositor dedicado e sensível, ele defende a melodia como elemento capaz de manter a ordem. Já Brendan Canning é a força anárquica que atua em um outro sentido: é ele quem estimula a exprimentação, o trânsito por diferentes estilos musicais,o caos de distorção que soterra o coletivo canadense. Uma espécie de Coringa.

Kevin depende de Brendan, Brendan depende de Kevin. Os álbuns solo do projeto Broken Social Scene presents…, não à toa, mal conseguem simular a confusão, os contrastes que movem o grupo, que o deixam tão diferente de todos os outros. São portfólios até muito bem cuidados, mas que a mim parecem estranhamente incompletos – e o engraçado é que, no caso de muitos dos outros participantes da banda, a idéia de um álbum solo costuma se resolver às mil maravilhas.

O disco de Brendan é o que esperávamos: um tiroteio de intenções cujo conceito (um vale-tudo) soa mais interessante que as canções em si. O melhor exemplo é a faixa mais simplezinha, Snowballs and icicles, uma espécie de homenagem singela a Elliott Smith. Nas mãos de Kevin Drew, certamente desataria rios de lágrimas. Nas do Broken Social Scene (com composição de Brendan & Kevin, distorções, fofuras, choques térmicos e afins), seria uma das melhores do ano.

Para o bem da nação indie, é um bom álbum fadado à condição de projeto paralelo – aguardemos o próximo round.

Angústia de relevância

Postado em

Só vejo o filme quarta-feira, mas esse comentário sobre o segundo Batman me soou bem plausível. É quase tudo o que penso sobre Batman begins, só que resumido num parágrafo de treze linhas. Cenas infladas, mão pesada e, acima de tudo, a tal angústia de relevância. A comparação com Iñarritu chegou a me dar frio na espinha, o que só aumenta minha desconfiança (olha ela aí de novo) de que esta seqüência agrada a um público com que me identifico cada vez menos – e que o Filipe daria um ótimo diretor de filmes de horror.

Inacreditável

Postado em

Embarquei num ceticismo absurdo. Não acredito em nada. Impressionante. Fui descobrir isso ontem, quando, no meio de uma esquentadíssima discussão sobre O escafandro e a borboleta, minha participação no debate foi um singelo “o fulano não poder ter escrito o livro, aquele livro, piscando o olho. Mesmo? Certeza que a enfermeira tá escondendo alguma coisa!” E ficam me olhando com aquelas caras de de-que-mundo-você-veio?

Depois começaram a elogiar o grau de detalhismo da biografia do Garrincha, contaram que o Ruy Castro chegou a indicar exatamente qual página de jornal embrulhou o falecido e tão amado cão do craque. “Quem quiser que acredite”, eu comentei, com o desconfiômetro a todo vapor. Mas o cúmulo mesmo foi no fim de semana, quando o sujeito matou a família inteira a golpes de canivete e eu, de longe, duvidei da história até o último minuto: “Gente, vocês têm certeza absoluta? Eu não confiaria tanto assim na polícia”

E só ontem de madrugada, quando passei por uma blitz de bafômetro e não fui parado, notei que é sério esse negócio de lei seca. Que, até segunda à tarde, soava para mim como ficção-científica. Lei seca no Brasil, pfff. Exagero da imprensa. Pois bem. Existe. Vi até um moleque chorando, bêbado toda vida, sentado à beira do Eixão, num frio de rachar. Estranho que eu tenha precisado testemunhar essa cena pra materializar a avalanche de matérias de jornal que li sobre o assunto. Não sei. Mas acho que perdi minha fé no relato das coisas.

Novo jornalismo

Postado em Atualizado em

Nem curto ficar pegando no pé dos coleguinhas (um termo que jornalistas costumam usar para identificar outros jornalistas, mas que sempre soou absolutamente irônico pra mim), mas o que foi a matéria da Folha de hoje, capa da Ilustrada, sobre o disco da Carla Bruni?

O texto é sustentado na idéia de que estão boicotando o disco novo da moça por ela ser mulher do presidente da França, Sarkozy. Agora, de verdade: que grande jornal europeu ou até norte-americano desprezou o álbum novo da primeira-dama? Que jornal desprezaria? Nenhum que eu conheça. Durante a semana toda, discutiu-se exaustivamente as faixas do disco – que, aposto, não é grande coisa.

Como argumento para bancar a tese sem pé nem cabeça, a jornalista diz que sites como Pitchfork, Stereogum e La Blogothèque não noticiaram nadinha sobre o álbum. É pra rir? Ou a colaboradora de Paris achava que sites dedicados principalmente a indie rock (e a alguma coisa de eletrônica e pop) gastariam tempo com um disco da Carla Bruni? Nunca gastaram e, coerentemente, não gastam desta vez. Aliás, eles nem teriam a obrigação de investir no assunto. Eu não me surpreenderia se decidissem resenhar o álbum. Mas e daí?

Ou seja: na falta de gancho para uma matéria que todo mundo já deu, inventa-se um.

‘You & me’ The Walkmen ***

Postado em

O novo do Walkmen é uma estranha carta de amor. E um grunhido de uns 50 minutos de duração.

Imagine a situação: em busca do rock perfeito, o Wolf Parade decide esquecer essa história de progressivo e pesquisar o repertório de Elvis Presley, Roy Orbison e Buddy Holly. E, depois de se apaixonar por antigas canções, escrever novas e emocionantes composições que serão gravadas com o arsenal de dissonâncias e com as interpretações agoniadíssimas a que estão acostumados. É isso. You & me é esse álbum.

Se você não tem problemas com estridência, prepare-se: este é um disco dilacerado que apresenta uma banda totalmente diferente daquela que apresentou-se ao mundo com Everyone who pretended to like me is gone (de 2002). Na verdade, é um passo adiante em relação ao anterior A hundred miles off (2006), que já demonstrava um desejo de aproximação a uma certa tradição da música norte-americana – um rock pré-histórico, com veias saltadas de country e blues. Agora, tomam esse caminho obsessivamente – e a viagem parece não ter volta.

Poucos concordarão comigo, mas é o melhor Walkmen (e aí neguinho vai dizer que estou bonzinho demais, mas nada: continuo o mesmo sujeito ranzinza de sempre). A banda parece mais certa daquilo que quer, e consegue domar até as manias de Danger Mouse – a última pessoa que eu consigo enxergar nessas canções. Todas as faixas são encharcadas de ruídos, timbres agudos, percussão atravessada – e o vocal rasgado de Hamilton Leithauser cai feito trovoada. “Este vai ser um bom ano – longe da escuridão, para dentro do fogo”, promete em In the New Year, uma das obras-primas do disco (a outra é Four provinces, que o TV On The Radio venderia a alma para ter gravado).

Se os arranjos parecem entorpecidos demais para sugerir uma espécie de releitura de Bob Dylan e The Doors (e lá vamos nós rumo às psicodelias e afins), eles combinam com versos desiludidos, cansados, como que gravados na manhã seguinte de uma separação brutal. “Estou perdido”, geme Leithauser, em Seven years of holidays.

Não é cena. Desta vez, a angústia do Walkmen é de sangue mesmo. Nos discos anteriores, podíamos até imaginar as tragédias dos personagens. Em You & me temos a chance de senti-las. É um disco todinho à flor da pele, radicalmente sentimental e uniforme – para aquecer o inverno, ou implodir tudo em melancolia de uma vez por todas. Desta vez, é tudo ou nada.

Caótica Ana **

Postado em Atualizado em

Comigo funciona assim: não consigo tratar um novo filme de Julio Medem como qualquer filme. Mesmo em um caso como este aqui – uma obra que se assume caótica logo no título e que deixa a impressão de simular um retorno desesperado a um certo ambiente que nós, os fãs do espanhol, já conhecemos bem. Durante quase todo o tempo de projeção, me peguei lembrando de cenas de Lucía e o sexo. E sentindo saudades.

Não me interpretem mal. Este não é, de forma alguma, um filme a ser desprezado. Mas, principalmente para quem acompanha a trajetória de Medem com muito interesse, será difícil não notar uma grife de autoria imposta a marteladas (outro filme que fiquei lembrando durante a projeção: Um beijo roubado, do Kar-wai). Estamos de volta a uma narrativa que distorce elementos de fábulas infantis, carregada de misticismo, sensualidade e de enigmas, conduzida por uma personagem feminina metida numa viagem de auto-conhecimento – e que, literalmente, acumula as personalidades das outras mulheres filmadas por Medem.

Encare como uma longa sessão de hipnose – numa contagem regressiva de pequenos “episódios”, a narrativa caminha lentamente, tal como a personagem, rumo ao transe profundo. Não deixa de ser uma experiência intensa – e a parte final não pode ser acusada de polidez. O filme resultou de um período traumático na vida do diretor, em crise criativa e perturbado pela morte da irmã, a artista plástica Ana Medem. Caótica Ana é uma extravagante (como não poderia deixar de ser) homenagem a ela – que reencarna nos quadros pintados pela protagonista.

Para Medem, deve ter servido como um processo de catarse e de reencontro com o próprio cinema. Seria Caótica Ana um entreato? Espero que sim. Mas não duvidem: um emocionado e sinceramente desnorteado entreato. Não é qualquer filme

Sub Pop, 20 aninhos

Postado em Atualizado em

Para comemorar os 20 anos de Sub Pop (um selo que hoje é mais respeitável do que jamais imaginaríamos no início dos anos 90), a equipe da Pitchfork sacou uma listinha de álbuns preferidos que inclui Nirvana, Mudhoney, Sebadoh, The Shins, Sleater-Kinney (ver The woods aí encheu meus olhos de lágrimas, snif), Comets on Fire, Wolf Parade, Afghan Whigs, Sunny Day Real Estate e uma meia dúzia de bandas que, para mim, soa como grego.

Faltaram: Postal Service, Band of Horses, Fleet Foxes… Mas dá pra entender a razão das ausências, já que o site compilou trabalhos que representaram, de alguma forma, momentos importantes para o selo. Ok. Eu trocaria o Oh, inverted world, do Shins, por Chutes too narrow. Mas esse sou eu. E pelo menos a lista serviu para que me lembrassem que The woods é… meu deus, que disco.

‘Shapeshifters’ Invincible ***

Postado em Atualizado em

Invincible é o nome-fantasia de Ilana Weaver – uma rapper de Detroit que pode ser definida como um antídoto às rimas inconseqüentes de um Lil’ Wayne. Na maior parte das 15 faixas deste álbum de estréia, ela fala sério. Terrivelmente sério. Como uma líder sindical enfezada, convoca trabalhadores para lutar por direitos, discute pendengas do Oriente Médio e ensina que “música não é um instrumento para espelhar a realidade, mas um martelo para que a moldemos”.

Parece pedante? Nem tanto, já que estamos falando de um dos melhores (talvez o melhor) álbum de rap lançado nesta primeira metade de 2008. É bom assim. É que, no caso de Ilana, a pregação não soa ingênua: mesmo quando num tom apocalíptico, ela narra uma trama futurista, mas nada inverossímil, em que cenários urbanos decadentes caminham rapidamente para a auto-destruição. É um disco tão esperto que, temo, ficará escondido como uma curiosidade do limbo do selo independente Emergence, que ela própria ajudou a criar.

Não deixemos que isso aconteça, por favor. Dêem uma chance a esta agitadora. Além de versos muito sóbrios (e é curioso que um álbum desse porte chegue no momento em que a Spin acusa o pop de 2008 de descerebrado), ela tem gosto por arranjos diversificados – a doçura que é Spacious skies, por exemplo, está tão perto e tão longe do climão oriental de People not places. Isso sem contar o desfecho, Locusts, que chega a soar como trilha de filme de David Lynch (e caberia perfeitamente como encerramento tristonho para um disco do Kanye West).

O Wikipedia entrega o jogo: Ilana divide o tempo entre um projeto comunitário de arte e outro em defesa dos direitos de palestinos. Um pé na música, outro na política. Shapeshifters (e, para quem quiser mais argumentos para correr atrás dele, este link aqui pode ajudar) tem a chave para a harmonia entre um e outro elemento. E, acredite, o resultado o fará esquecer de Lil’ Wayne por alguns 50 minutos. Ou por todo o resto do ano, vá saber.

‘Workout holiday’ White Denim ***

Postado em Atualizado em

Muita gente faz de conta que não dá mais trela para a idéia de lançar álbuns, certo? Sim, mas poucos parecem bancar esse descaso com tanta sinceridade quanto o trio White Denim. “CDs são inúteis para nós”, dizem. Não estão de brincadeira. Desde o final de 2007, eles travam uma verdadeira batalha contra os críticos que tentam tirar algum sentido de uma obra ainda verde. Tente segui-los, se for capaz.

Os texanos se apresentaram com o EP Let’s talk about it – uma espécie de homenagem ao Gang of Four gravada com a crueza dos primeiros discos do White Stripes. Depois, distribuíram nos shows um álbum de nove faixas chamado Workout holiday. No início de 2008, conseguiram um contrato europeu e decidiram regravar as canções do disquinho e lançar, agora com 12 músicas, um outro Workout holiday.

Está acompanhando? Pois bem. No início do ano, a banda gravou um CD-R para ser vendido nos concertos: o chamou de 11 songs. Estranhamente, esse piratex meio maldito virou febre em blogs de indie rock. Deu no que deu: o White Denim regravou as faixas todas (entre elas, várias que já estavam em Workout holiday) para soltá-las na estréia norte-americana Exposion, que deverá sair em breve. Até eu estou confuso.

Com essa metralhadora de projetos, talvez eles queiram simplesmente avisar ao público que o importante é ter acesso às canções da banda – e de qualquer forma, sabe-se lá como. Por enquanto, fiquemos com o Workout holiday europeu – o mais perto que eles chegaram de um “álbum completo” até agora. É um disco que parece bastante despreocupado com a idéia de fechar um sentido em torno das 12 faixas. E essa liberdade, esse disposição para a aventura, é um risco que eles peitam corajosamente. É um dos discos (?) mais pontiagudos que ouvi este ano.

É, obviamente, um álbum consciente dessa falta de foco: na maior parte do tempo, parece fazer referência ao espírito anárquico de um Frank Zappa ou de um Captain Beefheart, mas sem abandonar algumas estruturas de melodia e arranjos que soarão familiares a quem acompanha o indie rock norte-americano desde o início da década (a tosqueira das gravações aproxima a banda dos primeiros discos do Strokes e do Hives, por exemplo). Faixas como Sitting e Mess your hair up falam por si só: são enérgicas, calorosas, uma beleza. Lembram até os primeiros do Pavement.

Em matéria de revival do rock psicodélico dos anos 60, o álbum vai no sentido oposto ao de Modern guilt, do Beck. É menos compacto, mais arejado, cheio de arestas, e imprevisível (está mais para um primo podre do Dodos). Gosto muito dos dois discos, mas, no caso do White Denim, estou quase convencido de que Workout holiday é um conjunto de canções sem nada que as sustente. E daí? É o que eles querem da vida, e eu não vou ficar aqui reclamando. Próximo álbum, por favor?

Era uma vez… **

Postado em

“Vocês já conhecem esta história. De Cidade de Deus, Cidade dos homens, Tropa de Elite. Não é nada nova. Mas a diferença é a abordagem, o meu olhar para o Rio de Janeiro. Não acho que tem que mandar o Bope matar todo mundo. Acredito em uma outra possibilidade, e é isso que tentei mostrar.”

Foi assim que Breno Silveira apresentou Era uma vez… ontem, no Cinemark de Brasília, a uma platéia que ganhou ingressos em sorteios e promoções. Disse tudo. Como um prolongamento do método de 2 filhos de Francisco, o novo longa do diretor (que vive no Rio, mas nasceu aqui na capital) usa uma premissa reciclada – o romance entre um rapaz da favela e uma adolescente rica – como pretexto para um cinema abertamente sentimental e popular. O importante, Breno avisa, é a emoção. Que ninguém o acuse de falta de sinceridade.

Na época da cinebiografia de Zezé Di Camargo & Luciano, eu já havia forçado a comparação: ao contrário de um Moacyr Góes ou de um Daniel Filho, Breno Silveira tem o mérito de filmar o banal com absoluta convicção. É o nosso melhor cineasta de obviedades, do senso comum – já que ele parece se emocionar verdadeiramente com elas. Não há cinismo nem ironia nas imagens – nem quando os dois personagens principais lêem o livro Cidade partida, de Zuenir Ventura. Talvez por isso a aprovação do público seja também tão direta – o filme foi aplaudido duas vezes durante a sessão -, como se o diretor recuperasse algo muito inocente na platéia, um olhar quase que de criança mesmo.

É que, literalmente, este filme já foi feito. Por Cacá Diegues (Orfeu) e, recentemente, por Lúcia Murat (Maré, uma história de amor). Breno não escapa de nenhuma convenção dessa espécie de subgênero carioca: filma o amor impossível entre asfalto e morro como uma tragédia shakespeariana, e conjuga conflitos familiares com uma trama em que traficantes ameaçam o cotidiano de “gente de bem”. Tudo preto-no-branco – o pai da menina rica, corrupto e vingativo, também não nega o script. Daí que, se parece uma péssima escolha, o título do filme tem razões para implorar que encaremos essa narrativa com a condescendência dos contos de fadas para meninos de cinco anos de idade.

É como se Breno tratasse a trama, a premissa, como meros pontos de partida para o filme em si (e isso já acontecia em 2 filhos de Francisco). O que há de potencialmente emocionante no resultado quase não passa pela história que é narrada. A escolha mais acertada do diretor foi apostar tudo na atuação de Thiago Martins – ele próprio, morador de uma favela da Zona Sul do Rio. O ator retribui com uma performance que imprime autenticidade até nas seqüências mais improváveis do filme. Com as experiências de vida, as marcas no rosto e o jeito encabulado que só pode ser verdadeiramente dele, parece flutuar acima do filme. Ele é maior que essa história. Ele sobrevive à ela. E, nos créditos finais, é ele o responsável pela catarse mais autêntica.

Breno soube compartilhar com o ator principal a autoria do filme. Não é uma simples questão de generosidade, mas de entrega às descobertas que existem no processo de filmagem. E quando ele decidir filmar um roteiro minimanente complexo? Aí, meu amigo, eu serei um dos primeiros da fila.

Superprolixo

Postado em Atualizado em

Todo mundo reclama. Impressionante. Apresentei meu blog a duas pessoas conhecidas – mas sem interesse algum por cinema, música ou metalinguagem – e elas foram cruelmente enfáticas: esta página aqui é uma catatau de textos longos e enfadonhos. E ponto. Quantos posts vocês conseguiram ler por inteiro?, perguntei, com alguma esperança de luz no fim do túnel. “Nenhum”, eles responderam. Então tá certo. Já tentei diminuir o falatório no blog, e (não sei se alguém lembra) eu chegava a escrever atrocidades de uns 30 parágrafos em encarnações anteriores. Estou me esforçando. Sei que vai contra as regras do bom senso e da leitura em monitores de baixa resolução, mas eu não consigo reduzir os textos. Para os insatisfeitos, agora estou também no Twitter. O que pode facilitar as coisas. Ou não. Não sei ainda. Mas enfim: paciência, ô.