Dia: julho 31, 2008

‘Mucho’ Babasónicos **

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Vamos afundar este blog de vez? Então lá vai: o primeiro comentário de um álbum de uma banda… argentina, por que não?

Sim, eu sei que não é mais bacana assistir à MTV Latino e que Mercosul é tão semana passada, mas tenho que admitir que, durante esse tempo todo, esses anos todos, esses blogs todos, eu acompanhei o Babasónicos como um fã. Tudo bem: um fã distante, desconfiado e relapso.

Mas um fã. Quando fui a Buenos Aires pela primeira vez, ouvi tantas vezes o ótimo Anoche, de 2005, que memorizei o momento exato da transição entre as quatro primeiras faixas (que vêm grudadas umas nas outras, feito a parte final de Abbey Road). Verdade. Nem estou ironizando. Minha namorada foi à Argentina recentemente e adivinhem o que ela trouxe de presente pro sortudão aqui? Luces, álbum ao vivo.

Então sim, ora, um CD novo do Babasónicos merece sim um latifúndio neste blog – que é de nicho, é honesto, poderia estar matando e não tem a obrigação de cumprir metas mercadológicas. É uma banda que, pro nosso governo, expõe com bastante clareza o vazio criativo da indústria fonográfica brasileira. Um grupo pop, radiofônico e cheio de boa idéias. A última vez que ouvimos algo assim foi com o Los Hermanos. E depois?

Esses hermanos aqui gravam discos para multidões – e não gravam à toa. Depois de Anoche, um álbum fluorescente de tão psicodélico, Mucho é a manhã sóbria. No período entre um trabalho e outro, a banda sofreu com a morte do tecladista Gabriel Manelli e optou por fazer canções mais diretas, sem tanto rebuscamento nas melodias ou na produção. Pelo menos por enquanto, não dá pra ser feliz.

Apesar do título, Mucho é quase um rascunho. É pouco, é menos. As duas primeiras faixas, Yo anuncio e Pijamas, são simples de dar dó. Quase frágeis, ainda que som refrãos que não nos abandonam facilmente. O álbum cresce um tanto com Cuello rojo e com a baladona (linda) Como eran las cosas. Como ficamos até aí? Uma banda mais madura e menos corajosa.

Tanto é assim que a faixa mais aventureira, Microdancing, parece ter desembarcado no disco errado. Depois dela, retornamos ao ambiente das paixões complicadas, das confissões difíceis, dos versos auto-irônicos.

Aos que querem se apaixonar pelo Babasónicos, indico o álbum anterior, Anoche. Só que não dá para desprezar este Mucho: depois de um espetáculo de raios laser, ninguém esperava por esse banho de cinza. É o que acontece: os discos que os fãs procuram nem sempre são os que as bandas podem nos oferecer.

Este é um Babasónicos fraturado. Mas vá lá, tente encontrar aqui no Brasil um novo álbum pop com toda essa classe, toda essa segurança. Estou aqui esperando a resposta.