Arquivo X: Eu quero acreditar *

Postado em Atualizado em

Mais uma reciclagem oportunista? E logo de uma das minhas séries favoritas de todos os tempos?

Não. Nem brinca.

Admito que não gostei já no trailer. Fã é fogo – e, no caso, sou fã. Meio ressabiado, mas fã. Um padre paranormal de barba branca (pense no Hermeto Paschoal em dias de crise existencial) que supostamente teria o talento de descobrir o paradeiro das vítimas de serial killers – isso é idéia que se use? Uma sinopse dessas talvez já tenha sido usada em episódios de um daqueles seriados policiais à C.S.I. Miami e NYPD Blues. Mas como motivo para ressuscitar Fox Moulder e Dana Scully? Não.

Chris Carter, o criador da série e o defensor desta bobagem, divulgou que a trama de Eu quero acreditar não precisaria de bula para ser compreendida. Ele foi até bastante honesto com o público. Tudo o que acontece nesse capítulo alongado (e friorento) pode ser transferido integralmente para um daquelas fitas de suspense impessoais e monocórdicas a que você assiste todo sábado no Supercine.

Para quem não é fã, uma contextualização pode ajudar a entender por que Carter, o pai do Arquivo X, tirou esse coelhinho feioso da cartola. Apesar de ter escrito o episódio piloto, o (frustrante) encerramento e ter sofrido alguns surtos de inspiração aqui e ali, o sujeito nunca foi o principal roteirista da série (meus preferidos eram Glen Morgan e James Wong). Muito menos o melhor diretor (Rob Bowman e David Nutter dão de dez). Carter é dono da bola, mas sempre houve jogadores melhores em campo.

Em Eu quero acreditar, faz falta o comando de um cineasta minimamente talentoso. Carter consegue, no máximo, forjar um episódio piloto para um novo seriado que poucos se interessariam em acompanhar. Eu, por exemplo, deixaria passar. Pode ser até curioso comparar o ritmo relativamente lento da narrativa com a montagem acelerada de um 24 horas, mas esse revival dos anos 90 não justifica um filme que impressiona pelo caráter episódico, de sobra de box de DVD.

Outro detalhe que talvez os não-fãs desconheçam. Os episódios de Arquivo X podem ser separados em dois grupos: de um lado, os que agregam sentido à mitologia da série (que explora uma possível conspiração para esconder evidências de vida fora da Terra); de outro, os que são uma espécie de Scooby-Doo para adultos (Moulder e Scully investigam e resolvem casos mirabolantes). O filme se enquadra nesse segundo grupo, e o faz sem disposição alguma para a fantasia. Lembram do capítulo em que se especulava sobre a existência de um monstro na rede de esgoto da cidade? O único personagem misterioso do longa é o padre paranormal. E ele não chega a provocar pesadelos.

Nem vou ficar reclamando da falta que os ETs fazem (ainda que o filme anterior, dirigido por Bowman, resumia as obsessões da série com muito mais elegância). Nem da incrível dificuldade que Carter encontra para desenvolver a psiquê de personagens que conhece há tanto tempo (tudo o que sabemos sobre o período de reclusão de Moulder é que ele deixou a barba crescer, Rodrigo Amarante-style). Seria cobrar muito de um filme que não tem quase nenhuma ambição – e que dedica tempo a um dilema ético que Dana Scully já enfrentava desde a primeira temporada.

Eu quero acreditar é uma daquelas reuniões de elenco que nos deixam com uma saudades danada dos bons tempos – mas não nos oferecem nenhuma boa razão para os querermos verdadeiramente de volta.

12 comentários em “Arquivo X: Eu quero acreditar *

    Diego disse:
    julho 28, 2008 às 3:09 am

    Ufa.

    Tiago respondido:
    julho 28, 2008 às 10:39 am

    Acho que, para um fã da série, será muito complicado gostar deste filme. Talvez pelo fator “Moulder e Scully estão de volta”, mas mesmo assim é uma decepção.

    cavalca disse:
    julho 28, 2008 às 3:34 pm

    Olha, os meus episódios prediletos da série “Triangle” e “Duane Berry” são written and directed by Carter. Talento ele tem.

    E a única pessoa que conheço que gostou verdadeiramente do filme (eu achei só ok) é uma das maiores fãs do programa que já vi. Vai entender.

    Tiago Superoito respondido:
    julho 28, 2008 às 3:40 pm

    ‘Duane Berry’, realmente, foi um baita surto de inspiração.

    Mas lembro bem de uma época em que o nome de Chris Carter no roteiro de um episódio da série significava medo, muito medo.

    Tiago Superoito respondido:
    julho 28, 2008 às 3:40 pm

    Medo de ficar uma bosta.

    cavalca disse:
    julho 28, 2008 às 3:41 pm

    E George Bush + trilhazinha foi genial.

    cavalca disse:
    julho 28, 2008 às 3:43 pm

    E o melhor roteirista era o Darin Morgan!

    Tiago Superoito respondido:
    julho 28, 2008 às 3:47 pm

    Tá certo, esse também era ótimo.

    Puts, eu estava lendo aqui a lista de todos os episódios da série e nem tem como discutir. Carter não era o melhor roteirista (nem mesmo o mais ativo).

    Erico disse:
    julho 28, 2008 às 9:56 pm

    Mais um que eu nao vou ver!

    Bruno Amato Reame disse:
    julho 30, 2008 às 12:41 pm

    Na lista de diretores, acho que vcs esqueceram Kim Manners.

    Carter era bom, mas jamais foi o cara mais talentoso da série. Apesar disso, gostei do filme.

    Tiago Superoito respondido:
    julho 30, 2008 às 1:33 pm

    Acho que ele tinha as boas idéias, Bruno.

    Michel Simões disse:
    julho 30, 2008 às 5:05 pm

    Fraco, bem fraco, um episódio desengonçado solto pelos cinemas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s