Dia: julho 28, 2008

‘Conor Oberst’ Conor Oberst **

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Para gravar o quarto álbum solo, Conor Oberst instalou um estúdio temporário numa vila montanhosa do México chamada Valle Místico. A impressão superficial que alguém pode tirar deste disco é que nosso Huckleberry Finn indie não precisaria ter ido tão longe para gravar essas 12 canções. Elas remetem à tradição do rock norte-americana – do folk ao country, via Bob Dylan e Gram Parsons.

Só que, aprovemos ou não, Conor decidiu cair na estrada. Suspeito que esse auto-exílio tenha contribuído para a luz silenciosa que paira sobre o disco – não é um álbum sobre metrópoles. Quando fala em Nova York, ele já pensa em despedida. “A estrada cura tudo”, canta.

Não deixa de ser um clichê. Mas a arte de Conor sempre funcionou assim. Ela passa por um olhar comovido, arrepiado, para certos lugares-comuns da juventude (é por isso que o melhor trabalho da carreira continua, firme e forte, I’m wide awake it’s morning, do Bright Eyes). Quando narra crônicas em primeira pessoa, ele canta os amores que acabam, o medo da morte, a dificuldade de crescer.

Tome distância dessas canções e elas soarão imaturas. O que interessa é o compromisso que Conor parece ter com todas elas. Ele as traduz com o suor de quem viveu todas aquelas obviedades e algumas outras. A melhor faixa deste disco novo, Lenders in the temple, é quase um Elliott Smith. Com violões dedilhados e sussurros ao pé do microfone, Conor abre a janela da alma (ainda que não diga coisa com coisa).

Pena que o disco inteirinho não mire esse tipo de epifania. Conor quer o Olimpo. Parece agoniado por fazer o próprio Bringin’ it all back home, mas já? Conor Oberst, o álbum, me parece calculado demais, pensado em excesso para se adaptar a uma definição rasteira de “projeto folk”, de “obra pessoal”. São poucas as faixas que realmente justificam esse conceito. São bem gravadas – como Get-well-cards ou Sausalito -, mas parecem travadas numa idéia-fixa que Conor faz sobre esse tipo de álbum, sobre alguns gêneros musicais. Ele não arrisca. Cadê o espírito aventureiro?

Conor desbrava o mundo, mas não se deixa transformar por ele. Ainda enxerga um aconchegante lugar-comum. E assim, cauteloso, nos entrega competentes 40 minutos de bonitas canções.

Arquivo X: Eu quero acreditar *

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Mais uma reciclagem oportunista? E logo de uma das minhas séries favoritas de todos os tempos?

Não. Nem brinca.

Admito que não gostei já no trailer. Fã é fogo – e, no caso, sou fã. Meio ressabiado, mas fã. Um padre paranormal de barba branca (pense no Hermeto Paschoal em dias de crise existencial) que supostamente teria o talento de descobrir o paradeiro das vítimas de serial killers – isso é idéia que se use? Uma sinopse dessas talvez já tenha sido usada em episódios de um daqueles seriados policiais à C.S.I. Miami e NYPD Blues. Mas como motivo para ressuscitar Fox Moulder e Dana Scully? Não.

Chris Carter, o criador da série e o defensor desta bobagem, divulgou que a trama de Eu quero acreditar não precisaria de bula para ser compreendida. Ele foi até bastante honesto com o público. Tudo o que acontece nesse capítulo alongado (e friorento) pode ser transferido integralmente para um daquelas fitas de suspense impessoais e monocórdicas a que você assiste todo sábado no Supercine.

Para quem não é fã, uma contextualização pode ajudar a entender por que Carter, o pai do Arquivo X, tirou esse coelhinho feioso da cartola. Apesar de ter escrito o episódio piloto, o (frustrante) encerramento e ter sofrido alguns surtos de inspiração aqui e ali, o sujeito nunca foi o principal roteirista da série (meus preferidos eram Glen Morgan e James Wong). Muito menos o melhor diretor (Rob Bowman e David Nutter dão de dez). Carter é dono da bola, mas sempre houve jogadores melhores em campo.

Em Eu quero acreditar, faz falta o comando de um cineasta minimamente talentoso. Carter consegue, no máximo, forjar um episódio piloto para um novo seriado que poucos se interessariam em acompanhar. Eu, por exemplo, deixaria passar. Pode ser até curioso comparar o ritmo relativamente lento da narrativa com a montagem acelerada de um 24 horas, mas esse revival dos anos 90 não justifica um filme que impressiona pelo caráter episódico, de sobra de box de DVD.

Outro detalhe que talvez os não-fãs desconheçam. Os episódios de Arquivo X podem ser separados em dois grupos: de um lado, os que agregam sentido à mitologia da série (que explora uma possível conspiração para esconder evidências de vida fora da Terra); de outro, os que são uma espécie de Scooby-Doo para adultos (Moulder e Scully investigam e resolvem casos mirabolantes). O filme se enquadra nesse segundo grupo, e o faz sem disposição alguma para a fantasia. Lembram do capítulo em que se especulava sobre a existência de um monstro na rede de esgoto da cidade? O único personagem misterioso do longa é o padre paranormal. E ele não chega a provocar pesadelos.

Nem vou ficar reclamando da falta que os ETs fazem (ainda que o filme anterior, dirigido por Bowman, resumia as obsessões da série com muito mais elegância). Nem da incrível dificuldade que Carter encontra para desenvolver a psiquê de personagens que conhece há tanto tempo (tudo o que sabemos sobre o período de reclusão de Moulder é que ele deixou a barba crescer, Rodrigo Amarante-style). Seria cobrar muito de um filme que não tem quase nenhuma ambição – e que dedica tempo a um dilema ético que Dana Scully já enfrentava desde a primeira temporada.

Eu quero acreditar é uma daquelas reuniões de elenco que nos deixam com uma saudades danada dos bons tempos – mas não nos oferecem nenhuma boa razão para os querermos verdadeiramente de volta.