‘Snowflake midnight’ Mercury Rev **

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Tentativas de reinvenção musical são quase sempre assustadoras. No caso do Mercury Rev, tive pesadelos: usar climas de música eletrônica para atualizar uma sonoridade psicodélica/progressiva poderia muito bem aproximá-lo perigosamente do trance, do lounge e de outros pecados tristes, doloridos e mortais.

A boa notícia: Snowflake midnight não é uma tragédia (e não é o “álbum pop” do Mercury Rev). Mas também está longe de merecer elogios deslumbrados do estilo “eles voltaram à forma, meu deus!” ou “é o melhor deles desde Deserter’s songs, nossa senhora!”. Não. É bem verdade que a banda tenta se transformar numa espécie de Pink Floyd para pistas de dança. Mas sabe a distância que separa uma tentativa ambiciosa de um grande acerto? Pois é.

Se o álbum finalmente encerra um ciclo de space rock etéreo que já começava a torturar a banda, os fãs e os duendes da floresta (The secret migration é até bem intencionado, mas alguém se importou tanto assim com ele?), lança outros problemas criativos para Jonathan Donahue e cia. Por exemplo: como vencer os tiques de produção de Dave Fridmann, que volta a demonstrar a velha tendência a engordar canções com excesso de penduricalhos? E como dar o passo adiante numa poesia dopada que beira a auto-paródia (vide a fofucha A squirrel and I)?

É, na melhor das hipóteses, o retrato de um período de transição (e, na pior, de uma fase de confusão). Apesar de tudo, este álbum curto com canções espaçosas deixa a impressão de ter dado um trabalho desgraçado para a banda (tanto que eles soltarão em setembro um outro disco inteiro, de graça na internet). E, outra boa notícia, quase nunca soa como trance. Eu disse quase nunca.

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6 comentários em “‘Snowflake midnight’ Mercury Rev **

    Daniel Pilon disse:
    julho 25, 2008 às 2:41 pm

    Eu não gostei. Principalmente pelo excesso de penduricalhos que você citou. E colabora o fato de que eu gosto muito do Deserter’s songs e do All is Dream e prefiro aquele MV.

    Mas é uma banda de fases mesmo, eu odeio o Boces, por exemplo. Quem sabe daqui mais uns 2 discos eles resolvem fazer algo genial para depois voltar a fazer porqueiras de novo. E assim por diante.

    Daniel Pilon disse:
    julho 25, 2008 às 2:41 pm

    E Conor Oberst soltou um belo disco, a propósito.

    Tiago Superoito respondido:
    julho 25, 2008 às 2:45 pm

    Estou com o disco do Oberst aqui. Vou ouvir.

    Eduardo Salvalaio disse:
    agosto 5, 2008 às 8:40 pm

    Desde já, um dos melhores discos do ano.
    Com o tempo exato, com orquestrações ousadas, com eletrônica inserida de uma forma não perturbadora.

    O que muita gente tenta fazer aos montes por aí, mas sem conseguirem por não terem a chamada verve artística.

    Gostei do seu texto.
    Uma opinião formada com pretextos e sem manchar a banda de Jonathan Donahue.

    Eduardo Salvalaio disse:
    agosto 5, 2008 às 8:48 pm

    Ahh, sim, mil desculpas…
    Usei mal a palavra…
    Não são ‘pretextos’…
    ‘Pretextos’ ganha um sentido negativo.

    Eu quis dizer com ‘opinião sensata e racional’. Porque vc exatamente usou bem as palavras para dizer o porquê do não gostar. Muita gente segue a turma do contra, fala mal e nem ouve a obra com percepção e atentamente (como deveria ser).

    E é tão ruim quando acontece isso.

    Obrigado pelo espaço reservado aqui.

    Tiago Superoito respondido:
    agosto 5, 2008 às 8:55 pm

    Valeu, Eduardo. Minha intenção não é manchar a banda, até pq eu gosto muito dela (adoro ‘Deserte’s songs’ e ‘All is dream’.)

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