‘Beautiful future’ Primal Scream *

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Olha, eu entendo: impossível cobrar coerência de uma banda como o Primal Scream, assumidamente indecisa entre tantas ofertas na vitrine do pop. Tudo o que sabemos sobre a gangue de Bobby Gillespie é que ela sempre, sempre tentará nos surpreender com um novo figurino. Pode soar tanto como um bando de motoqueiros selvagens (em álbuns como Give out but don’t give up e Riot city blues) quanto como uma turma de modernóides enlouquecidos numa eterna viagem de ácido (em XTRMNTR ou até no irregular Evil heat). A obsessão de Gillespie, 46 anos, é não ficar para trás.

Essa angústia por ditar moda (nem que a partir do resgate de influências do rock clássico) se faz mais explícita nos álbuns menos enxutos da banda, aqueles que não se prendem a um conceito fechado e apontam em todas as direções: são os casos de Vanishing point, de 1997 (um dos meus favoritos), e agora deste Beautiful future (que, por enquanto, não me diz quase nada).

O disco novo aposta alto ssa idéia de instabilidade. A começar pela escalação de um duo de produtores que, esteticamente, não dividem o mesmo bangalô. De um lado, os riffs de guitarra valorizados por Paul Epworth, de Bloc Party e Maximo Park. De outro, o pop doce do sueco Björn Yttling, do trio Peter, Björn and John. Talvez a intenção da banda tenha sido flertar com a depretensão. Mas isso Gillespie nunca consegue. Sem a coragem de bancar completamente um lado mais radiofônico, o álbum acaba se afirmando apenas como um projeto de transição – ou, numa análise menos condescendente, como um rascunho.

Há faixas, como The glory of love e Over and over (essa última, uma cover fofa do Fleetwood Mac), que demonstram o interesse do grupo por um indie rock mais melódico, aquele que tem em Estocolmo a principal capital. Mas há outras, como Suicide bomb e Zombie man, que retornam ao velho nheco-nheco stoneano que o próprio Primal Scream esgotou antes de entrar em estúdio para gravar Riot city blues. O single, Can’t go back, tenta até uma aproximação forçada com a new rave (confirmada em I love to hurt, com participação de Lovefoxxx), mas essa busca incessante por uma sonoridade contemporânea morde o próprio rabo quando percebemos que quase nada a sustenta. Além de pose, claro.

Gillespie odeia olhar para o próprio passado. Talvez esteja certo. Se você tentar encontrar algum sentido na trajetória do Primal Scream, baterá de frente numa banda disforme e presa numa adolescência sem fim. Por isso, recomendo esquecer esse cenário completo: o melhor jeito de ouvir os ótimos Screamadelica, Vanishing point e XTRMNT é sem imaginar um contexto para eles. Já Beautiful future é outro drama: um disco que, ao flutuar na própria irrelevância, me decepciona de qualquer uma das formas.

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2 comentários em “‘Beautiful future’ Primal Scream *

    Filipe disse:
    julho 22, 2008 às 9:17 pm

    Você foi até simpatico demais.

    Tiago Superoito respondido:
    julho 22, 2008 às 9:19 pm

    Realmente, tenho a impressão de que não ouvirei esse disco mais. Nunca mais.

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