Dia: julho 16, 2008

Batman – O cavaleiro das trevas **

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(Juro que eu ia matar este post com a frasezinha-slogan-refrão Why so serious?, mas ok, brincadeira tem hora, este é um blog de nicho e todos nós merecemos um pouco mais que isso, certo? Certo?)

Pois bem, sejamos francos. Eu sei que TODO MUNDO está ansiosíssimo pelo novo Batman e que TODO MUNDO já gostou do novo Batman antes de tê-lo visto e que TODO MUNDO vai dizer que aqueles que não gostaram do novo Batman estão de implicância infantil com os que gostaram sem tê-lo visto e que TODO MUNDO paga pau pro Heath Ledger.

Tá. Mas (e agora as coisas vão ficar bem entediantes) vamos falar do filme? Batman – O cavaleiro das trevas, dirigido por Christopher Nolan. Não sei se é a melhor adaptação de histórias em quadrinhos de todos os tempos (copyright da revista SET), mas provavelmente é a maior. Um filme para os dias em que vivemos. E um filme grande – aí você decide se isso é bom ou ruim.

Nolan, que dirigiu um filme cético sobre ilusionistas (O grande truque), é um sujeito pragmático. Batman begins foi chamado de sóbrio e sisudo, mas eu prefiro funcional. Ele é um autor, sim – um autor de roteiros. O cavaleiro das trevas é trama e atuações. Quem reclama da falta de cenas memoráveis esquece que Nolan nunca se interessou tanto assim por cenas memoráveis.

Essa tom clean não soa nada estranho. Na verdade, combina com um período em que o cinema de entretenimento tenta se legitimar a partir de referências do cinema policial dos anos 70 (ou melhor: de alguns elementos que, hoje, são vistos como um aceno para o “cinema policial dos anos 70”). Mais que Fogo contra fogo, o novo Batman me lembra a trilogia Bourne, o último James Bond, Conduta de risco e similares. Sinceramente, não vejo nada de atípico na estética do filme.

Enquanto isso, meu Homem-Morcego preferido (Batman – O retorno) parece cada vez mais o retrato de uma época distante, sem volta. Hmm. Tá, né. Sem ressentimentos.

Eu fico do lado dos que vêem uma séria contradição na estética de Nolan (e o texto do Chico, que demorei para ler com atenção, vai direto ao ponto). O inglês dedica-se cuidadosamente ao aprofundar o perfil psicológico dos personagens – e isso ele faz muito bem -, mas compõe uma encenação quase sempre escorada em grandiloqüência. Desde a primeira cena, ele seqüestra o espectador com uma trilha sonora incessante, uma câmera que não pára de rodopiar ao redor dos personagens e cenas de ação que parecem mirabolantes demais para caber na lógica realista da narrativa. Nolan quer tudo ao mesmo tempo: quer ser Lawrence da Arábia e O poderoso chefão numa metralhada só.

São tantas as situações empilhadas pelo roteiro que as 2h30 de duração passam num soluço. Entretém? É divertido? Mais que qualquer Piratas do Caribe. Mas os artifícios por pouco não soterram o que o filme tem melhor: os duelos verbais entre os personagens, quando o complexo de épico de Nolan acaba contando a favor das performances de Aaron Eckhart e, claro, Heath Ledger. No caso do Coringa, o ceticismo do cineasta rende uma interpretação verdadeiramente nova para o vilão, agora sem um pingo de glamour, quase sem graça. Mas é o mesmo diretor quem responde pelo didatismo de cenas em que vilões explicam detalhes mínimos do próprio passado antes de partir para o ataque.

Consigo até prever que, num futuro próximo, Nolan converterá essa forma chapada de ver a ficção em um cinema particular, só dele. O cavaleiro das trevas ainda não me parece ser o caso. Mas é, pelo menos, um blockbuster para um mundo desconfiado e desiludido. Só isso justifica quase todo o circo: as expectativas dos fanáticos, os lucros já tão certos e os tantos so fucking amaaazing que leremos por aí. O Why so serious? acaba valendo pra todos nós.