Dia: julho 15, 2008

‘Something for all of us…’ Brendan Canning **

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Comparação bobinha que vem a calhar: no Broken Social Scene, Kevin Drew é assim, digamos, um Batman. Compositor dedicado e sensível, ele defende a melodia como elemento capaz de manter a ordem. Já Brendan Canning é a força anárquica que atua em um outro sentido: é ele quem estimula a exprimentação, o trânsito por diferentes estilos musicais,o caos de distorção que soterra o coletivo canadense. Uma espécie de Coringa.

Kevin depende de Brendan, Brendan depende de Kevin. Os álbuns solo do projeto Broken Social Scene presents…, não à toa, mal conseguem simular a confusão, os contrastes que movem o grupo, que o deixam tão diferente de todos os outros. São portfólios até muito bem cuidados, mas que a mim parecem estranhamente incompletos – e o engraçado é que, no caso de muitos dos outros participantes da banda, a idéia de um álbum solo costuma se resolver às mil maravilhas.

O disco de Brendan é o que esperávamos: um tiroteio de intenções cujo conceito (um vale-tudo) soa mais interessante que as canções em si. O melhor exemplo é a faixa mais simplezinha, Snowballs and icicles, uma espécie de homenagem singela a Elliott Smith. Nas mãos de Kevin Drew, certamente desataria rios de lágrimas. Nas do Broken Social Scene (com composição de Brendan & Kevin, distorções, fofuras, choques térmicos e afins), seria uma das melhores do ano.

Para o bem da nação indie, é um bom álbum fadado à condição de projeto paralelo – aguardemos o próximo round.

Angústia de relevância

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Só vejo o filme quarta-feira, mas esse comentário sobre o segundo Batman me soou bem plausível. É quase tudo o que penso sobre Batman begins, só que resumido num parágrafo de treze linhas. Cenas infladas, mão pesada e, acima de tudo, a tal angústia de relevância. A comparação com Iñarritu chegou a me dar frio na espinha, o que só aumenta minha desconfiança (olha ela aí de novo) de que esta seqüência agrada a um público com que me identifico cada vez menos – e que o Filipe daria um ótimo diretor de filmes de horror.

Inacreditável

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Embarquei num ceticismo absurdo. Não acredito em nada. Impressionante. Fui descobrir isso ontem, quando, no meio de uma esquentadíssima discussão sobre O escafandro e a borboleta, minha participação no debate foi um singelo “o fulano não poder ter escrito o livro, aquele livro, piscando o olho. Mesmo? Certeza que a enfermeira tá escondendo alguma coisa!” E ficam me olhando com aquelas caras de de-que-mundo-você-veio?

Depois começaram a elogiar o grau de detalhismo da biografia do Garrincha, contaram que o Ruy Castro chegou a indicar exatamente qual página de jornal embrulhou o falecido e tão amado cão do craque. “Quem quiser que acredite”, eu comentei, com o desconfiômetro a todo vapor. Mas o cúmulo mesmo foi no fim de semana, quando o sujeito matou a família inteira a golpes de canivete e eu, de longe, duvidei da história até o último minuto: “Gente, vocês têm certeza absoluta? Eu não confiaria tanto assim na polícia”

E só ontem de madrugada, quando passei por uma blitz de bafômetro e não fui parado, notei que é sério esse negócio de lei seca. Que, até segunda à tarde, soava para mim como ficção-científica. Lei seca no Brasil, pfff. Exagero da imprensa. Pois bem. Existe. Vi até um moleque chorando, bêbado toda vida, sentado à beira do Eixão, num frio de rachar. Estranho que eu tenha precisado testemunhar essa cena pra materializar a avalanche de matérias de jornal que li sobre o assunto. Não sei. Mas acho que perdi minha fé no relato das coisas.