‘You & me’ The Walkmen ***

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O novo do Walkmen é uma estranha carta de amor. E um grunhido de uns 50 minutos de duração.

Imagine a situação: em busca do rock perfeito, o Wolf Parade decide esquecer essa história de progressivo e pesquisar o repertório de Elvis Presley, Roy Orbison e Buddy Holly. E, depois de se apaixonar por antigas canções, escrever novas e emocionantes composições que serão gravadas com o arsenal de dissonâncias e com as interpretações agoniadíssimas a que estão acostumados. É isso. You & me é esse álbum.

Se você não tem problemas com estridência, prepare-se: este é um disco dilacerado que apresenta uma banda totalmente diferente daquela que apresentou-se ao mundo com Everyone who pretended to like me is gone (de 2002). Na verdade, é um passo adiante em relação ao anterior A hundred miles off (2006), que já demonstrava um desejo de aproximação a uma certa tradição da música norte-americana – um rock pré-histórico, com veias saltadas de country e blues. Agora, tomam esse caminho obsessivamente – e a viagem parece não ter volta.

Poucos concordarão comigo, mas é o melhor Walkmen (e aí neguinho vai dizer que estou bonzinho demais, mas nada: continuo o mesmo sujeito ranzinza de sempre). A banda parece mais certa daquilo que quer, e consegue domar até as manias de Danger Mouse – a última pessoa que eu consigo enxergar nessas canções. Todas as faixas são encharcadas de ruídos, timbres agudos, percussão atravessada – e o vocal rasgado de Hamilton Leithauser cai feito trovoada. “Este vai ser um bom ano – longe da escuridão, para dentro do fogo”, promete em In the New Year, uma das obras-primas do disco (a outra é Four provinces, que o TV On The Radio venderia a alma para ter gravado).

Se os arranjos parecem entorpecidos demais para sugerir uma espécie de releitura de Bob Dylan e The Doors (e lá vamos nós rumo às psicodelias e afins), eles combinam com versos desiludidos, cansados, como que gravados na manhã seguinte de uma separação brutal. “Estou perdido”, geme Leithauser, em Seven years of holidays.

Não é cena. Desta vez, a angústia do Walkmen é de sangue mesmo. Nos discos anteriores, podíamos até imaginar as tragédias dos personagens. Em You & me temos a chance de senti-las. É um disco todinho à flor da pele, radicalmente sentimental e uniforme – para aquecer o inverno, ou implodir tudo em melancolia de uma vez por todas. Desta vez, é tudo ou nada.

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