Dia: julho 12, 2008

Caótica Ana **

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Comigo funciona assim: não consigo tratar um novo filme de Julio Medem como qualquer filme. Mesmo em um caso como este aqui – uma obra que se assume caótica logo no título e que deixa a impressão de simular um retorno desesperado a um certo ambiente que nós, os fãs do espanhol, já conhecemos bem. Durante quase todo o tempo de projeção, me peguei lembrando de cenas de Lucía e o sexo. E sentindo saudades.

Não me interpretem mal. Este não é, de forma alguma, um filme a ser desprezado. Mas, principalmente para quem acompanha a trajetória de Medem com muito interesse, será difícil não notar uma grife de autoria imposta a marteladas (outro filme que fiquei lembrando durante a projeção: Um beijo roubado, do Kar-wai). Estamos de volta a uma narrativa que distorce elementos de fábulas infantis, carregada de misticismo, sensualidade e de enigmas, conduzida por uma personagem feminina metida numa viagem de auto-conhecimento – e que, literalmente, acumula as personalidades das outras mulheres filmadas por Medem.

Encare como uma longa sessão de hipnose – numa contagem regressiva de pequenos “episódios”, a narrativa caminha lentamente, tal como a personagem, rumo ao transe profundo. Não deixa de ser uma experiência intensa – e a parte final não pode ser acusada de polidez. O filme resultou de um período traumático na vida do diretor, em crise criativa e perturbado pela morte da irmã, a artista plástica Ana Medem. Caótica Ana é uma extravagante (como não poderia deixar de ser) homenagem a ela – que reencarna nos quadros pintados pela protagonista.

Para Medem, deve ter servido como um processo de catarse e de reencontro com o próprio cinema. Seria Caótica Ana um entreato? Espero que sim. Mas não duvidem: um emocionado e sinceramente desnorteado entreato. Não é qualquer filme