Dia: julho 5, 2008

Esquizofrenia

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Em poucas palavras, o único inimigo de Hancock é o próprio Hancock.

E assim Inácio Araújo define, em poucas palavras, o elemento que mais me interessa no filminho esquizofrênico de Peter Berg. Pra vocês verem como as coisas são: esse é o argumento que ele usa para justificar a avaliação “ruim” num texto publicado na Folha de S. Paulo. Sintonias diferentes ou o quê?

‘Donkey’ CSS ***

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Cá estou eu mascando o disco novo do CSS. Daqui a pouco cuspo longe. Mas, e pra que ficar fazendo doce?, por enquanto está uma delícia.

Primeiras e apressadas impressões (blog serve pra isso, né mesmo?): no primeiro álbum, o Cansei de Ser Sexy soava como um bando de geeks paulistanos brincando de misturar canções alheias trocadas na web. A colagem, eles lambuzavam com versos em inglês que podiam até parecer ginasianos – mas nunca, nunca, em hipótese alguma se levavam a sério. É um disco debochado, uma molecagem. Sassy, como dizem por lá. Safado, como preferimos por aqui.

Você curte piada repetida? O CSS também não. Daí o desafio que este Donkey representa. Em vez de não mexer no time que estava ganhando, os paulistanos decidiram bagunçar o meio de campo. Este segundo álbum não é tão sacana e, profissional até o gargalo, está longe de deixar a impressão de uma molecagem. Até as letras começam a fazer sentido (mas, para nossa sorte, Lovefoxxx mantém o sotaque à la aprendi-inglês-no-CCAA). Foi mixado por Mike “Spike” Stent (Björk, Madonna), e ninguém está brincando em serviço desta vez.

Daí a dúvida cruel: essa sonoridade mais polida, de cabelinho cortado, teria limado o charme vagabundo do CSS? A resposta mais fácil é sim (e aposto que muito crítico preguiçoso vai acabar os chateando por conta disso). Mas, foi mal, eles não parecem estar aí para isso. Cada vez mais, o CSS se porta como uma banda “internacional” e menos como uma banda “brasileira metida a internacional”. É uma mudança de perspectiva importante para que se entenda um disco que quer ser comparado aos álbuns do Klaxons e do Franz Ferdinand – e não com os do Bonde do Rolê.

Isso quer dizer que o CSS mudou de identidade, trocou de passaporte? Talvez eles até preferissem que sim, mas há algo de muito brasileiro (e quem sabe um pouco do pop nacional pós-Tropicália perceberá isso) na forma absolutamente desencanada como transita entre estilos sem se apegar a um formato uniforme – e o faz com mais desenvoltura até que o próprio Klaxons, cujo Myths of the near future é um irmão mais velho deste Donkey. Um disquinho sortido. Pop pra burro.

Se Rat is dead apontava uma fase mais guitarrística e com saudades do grunge (mas tudo bem, todo mundo tem o direito de querer escrever um Smells like teen spirit ou um Song 2, mesmo sem talento para tanto), o resto do álbum desmente essa imagem inicial com muito vigor. Com riffs à Franz Ferdinand, Jager yoga avisa que o CSS não veio ao mundo a passeio, e emenda o grito de guerra com uma reafirmação do refrão de Take me out. Let’s reggae all night aperfeiçoa o electro-rock do primeiro disco com divertidas quebras de andamento e uma produção que brilha no escuro.

É verdade que o disco dá uma caída nos momentos mais roqueiros – o trio Left behind, Beautiful song e How I became paranoid quase esfria a pista -, mas é um alívio notar que o CSS está tentando reforçar a salada de frutas sem medo de exagerar no chantilly. No meio do caminho entre os arranjos quase mecânicos do novo rock inglês e o pop dançante norte-americano, eles conseguem amarrar faixas que estarão entre as mais bacanas do ano: a perfeitinha Move, acima de todas. E o refrão doce-de-derreter de Believe achieve? Vale o disco inteiro. E fará você deixar de lado a birra e fazer as pazes com eles de uma vez por todas.

Amigos, ok?