Dia: julho 4, 2008

Hancock ***

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Hancock, o herói bebum, não agrada a ninguém. Desajeitado e sem modos, é um estorvo. Quando salva um motorista prestes a ser atropelado por um trem, recebe em troca uma série de comentários maldosos dos pedestres. “Por que, em vez de atirar o carro para trás e provocar esta zona, você não o pendurou acima dos trilhos?” Quem diria, ãhn: de tão banalizados, os super-heróis viraram guardinhas de trânsito que – quem liga? – podem voar e destruir prédios.

Quem me conhece sabe que não sou dos maiores fãs de fitas do gênero. Minha primeira reação diante de filmes que seguem estritamente determinadas fórmulas narrativas é tirar um cochilo. Talvez isso explique meu interesse até exagerado por este estranho, tortíssimo blockbuster de Peter Berg (de O reino). Hancock satiriza os métodos de sucessos como Homem-Aranha e Batman sem se assumir como uma paródia rasgada. Melhor seria explica de outro jeito: este é um filme de super-herói para um público e para um cinema de entretenimento fartos de super-heróis (e, por isso mesmo, a tendência é que frustre deus-e-o-mundo).

Imagino a decepção de quem espera por um novo Homem de Ferro. Hancock é um pouquinho mais sofisticado que isso. Na primeira meia hora, fica a impressão de que o maior desafio do herói outsider é integrar-se às normas da sociedade para, enfim, ser amado pela multidão (algo que, digamos, até Lil’ Wayne deseja). Mas o roteiro de Vincent Ngo e Vince Gilligan, que poderiam ter escrito uma continuação de Southland tales, se desdobra em piruetas improváveis que diluem uma previsível lição de moral numa trama anárquica. É frenético e esquizofrênico – e delicioso exatamente por isso.

Se esse espírito iconoclasta não faz, por si só, um grande filme, o que me surpreende aqui é notar como o hiperativo Peter Berg conduz com segurança – e com a cumplicidade de Will Smith, que imprime uma deslocada carga melancólica ao personagem – um filme que soa muitas vezes como o delírio de um rapper com mania de grandeza. O diretor, menino birrento, evita quase todos os chavões do gênero. Até visuais, já que a fotografia de Tobias A. Schliessler força uma atmosfera realista que simplesmente não parece combinar com stuações fantasiosas, quase despregadas de lógica interna, como que inventadas no decorrer do processo de filmagem.

Admito que não comprei metade das reviravoltas da trama e senti falta de um primeiro ato – que talvez evitaria os solavancos da parte final do roteiro, em que se tenta erguer rapidamente toda uma mitologia para o herói. Mas, defeituoso como está, Hancock me agrada mais que 90% dos filmes que Hollywood desova no verão norte-americano. Michael Mann, o produtor desta sandice, deve estar batendo ponto de multiplex em multiplex para conferir a reação do público. Já adianto que, na minha sessão, o descontentamento foi quase geral. Quase: eu e mais uns cinco que não estão aí para o incrível Hulk queremos ver de novo, e logo.

Verdade tropical

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Surpreendi-me escrevendo, para a introdução deste livro, que o Brasil é, para mim como para os brasileiros tal como os vejo e sinto, antes de tudo um nome. Todos os brasileiros temos a impressão de que o país simplesmente não tem senso prático. É como um pai de coração bom e nome honrado a quem respeitamos mas que não consegue dinheiro ou um trabalho estável, perde grandes oportunidades, se embriaga e se mete em complicações. O nome do Brasil não apenas me parece, por todos os motivos, belo, como tenho dele desde sempre uma representação interna una e satisfatória.

Verdade tropical, do Caetano Veloso, é um grande livro. Uma autobiografia lúcida, pontuada por maravilhosos momentos de dúvidas e acertos de contas, e uma aula de história da música popular brasileira que soa cristalina e emocionada como poucas outras (até por não ter medo de sublinhar a complexidade e as contradições de períodos que, hoje, parecem muito simples e até maniqueístas). Por que demorei tanto para lê-lo? Preconceito de garoto que acha que sabe de tudo. Arrogância de leitor da Bizz circa 1992. Vá entender.

O que sei é que acabaram de lançar uma versão “de bolso” do livrão (de 500 páginas) pela Companhia das Letras. Que, onze anos depois, finalmente ganhou uma capa com design jovial, do jeitinho que merece.

Quando menino ouvi louvarem muito os maus alunos inteligentes e ridicularizarem os cus-de-ferro. Hoje, embora eu mesmo não possa mais mudar substancialmente quanto a isso, valorizo os adolescentes estudiosos e os espíritos metódicos – e tento, na feitura deste livro por exemplo, assegurar um mínimo de precisão para além da atingida espontaneidade.

É isso aí, tio. Como é que entro pro fã-clube?