Dia: junho 21, 2008

Wall-E ***

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Estou em paz com os blockbusters. Wall-E é uma belezura.

Nos primeiros 30 ou 40 minutos, é até mais que isso. É sublime. Uma animação digital sublime. Pode? Fã de Hayao Miyazaki e diretor de Procurando Nemo, Andrew Stanton parece ter criado este filme para nos provar que sim. O lirismo de Wall-E não é de plástico, não é aquecido em microondas e, quando em alta voltagem, solta faíscas.

Se o filme durasse 60 minutos, teria sido uma obra-prima. A forma como Stanton nos aproxima do mundo de Wall-E – um robô especializado em compactar lixo, e o último sobrevivente de um planeta infernal – é de uma delicadeza e de uma melancolia que só encontram paralelo nos minutos finais de Inteligência artificial. Lá está o monte de lata, solitário num ambiente amarelado, sem vida. Lembram da Nova York esvaziada de Eu sou a lenda? Nesta animação, o fim do mundo é muito mais assustador e sombrio – um deserto de ferro-velho, com telões que, vez ou outra, disparam imagens em espasmos.

Tal como o herói de Will Smith, Wall-E se apega ao passado. É uma máquina humanizada, como de costume em animações (Stanton, lembrem, escreveu o roteiro de Toy Story). Para não pifar de tédio, assisite a antigos musicais e coleciona quinquilharias. Rotina que muda com a chegada de uma extraterrestre com a aparência de um gigantesco iPod Shuffle. Juro que, numa das cenas em que Wall-E tenta conquistar Eva, me lembrei dos filmes de Wong Kar-wai. É a história que todos conhecemos, mas narrada com uma lente que enxerga intensa beleza em obviedades e, assim, quase nos cega.

Nesse primeiro momento, o longa é quase sempre silencioso, e adota um ritmo lento atípico no gênero. Na segunda metade, nem tanto: o roteiro do filme sofre um baque que acaba enquadrando a narrativa num modelo mais convencional e não tão deslumbrante – mas, ainda assim, bastante fluente. Quando descobrimos que alguns seres humanos também sobreviveram (isolados em uma “colônia de férias” espacial), Stanton acentua o comentário pessimista sobre o futuro da espécie: nosso destino é engordar diante de pequenas telas de computador, cada vez mais distante do contato com outras pessoas?

É um diagnóstico amargo e plausível, de que Stanton acaba se afastando aos poucos. É como se um filme de Stanley Kubrick lentamente se transmutasse numa aventura spielberguiana. As boas intenções do roteiro, que caminha para uma lição de moral ecologicamente correta, não chegam a incomodar.

Mas fico aqui pensando em como Wall-E funcionaria se tivesse levado a premissa inicial às últimas conseqüências. Tem uma introdução bastante ousada, que testa os limites da Pixar. O restante do filme nos explicará que limites são esses.

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Sonho de uma noite de inverno

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Quem é o sujeito perturbado que sonha em ser protagonista de um filme-dentro-de-um-filme?

Eu!

Pois então. De ontem pra hoje, vivi sete horas dentro de um sonho que mais parecia uma produção escrita por Wes Craven e dirigida por Brian de Palma. Estranhíssimo.

Antes que toda essa incrível bobagem se apague da minha memória, vou dividi-la com vocês, ok? Nesse meu papel imaginário, eu era um ator canastrão recém-divorciado que, no filme-dentro-do-filme, interpretava um traficante de cocaína. No set, eram inevitáveis os conflitos entre os dramas do ator canastrão (imagine Russell Crowe em O gângster), que não conseguia acertar a própria rotina doméstica, e o personagem agressivo que ele assumia. Em um determinado momento da trama, o ator explode em fúria e decide seqüestrar a atriz principal, vivida por (quem mais?) Alexis Bledel, a pequena Gilmore.

Até aí, tudo parecia muito tranqüilo e divertido. O problema foi que, nesse ponto das filmagens, o diretor do filme (que não mostrava o rosto até então) me chamou para uma conversa complicada. “Tiago, você não está dando conta do papel. Quero agressividade. Agressividade. Você vai bem como o ator canastrão, mas não convence em absolutamente nada como o traficante de cocaína”, ele cobrava. E eu, arrasado com a bronca, escrevi um longo texto sobre as frustrações da carreira de ator para meu blog, que se chamava Cego no tiroteio. No dia seguinte, tentamos a cena do seqüestro novamente, mas ninguém ficou satisfeito. Nem Alexis Bledel, que riu da minha cara e se isolou no trailer.

Meu maior susto veio depois. Quando descobri quem estava dirigindo meu filme. Na cadeira-de-diretor, primeiro li o nome: M. Night Shyamalan. Mas o rosto do cineasta era outro. Era meu pai. Gordinho, com cabelos brancos, meio pateta e tudo.

Aí acordei. Num salto. Seis da manhã de sábado. E nem voltei a dormir. Com inconsciente não se brinca, e de estranha já basta a vida que levo todos dia, com meus olhos abertos.