Mês: maio 2008

Homem de Ferro **

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Minha avó, que devora programas de tevê como barrinhas de chocolate, agora só fala sobre dois assuntos: o caso da menina atirada da janela e as aventuras sexuais do Ronaldo, o atacante. Eu aproveito os conhecimentos dessa senhora de 85 anos de idade para atualizar meu estoque de cultura inútil. Ontem ela me surpreendeu. Entre uma amenidade e outra, me perguntou sobre Homem de Ferro. “Que isso, vó”, retruquei. “O último filme que a senhora viu no cinema foi Cleópatra!”.

E foi mesmo. O de 1963. Minha avó não vê filmes.

Pode não parecer, mas me incomodo com o feitiço lançado pelos blockbusters, que entram em nossas vidas mesmo quando não têm nada a dizer sobre elas. A minha, a sua, a da minha avó. Dessa invasão, sou mais uma vítima. Abro os jornais ou ligo a tevê ou passeio por sites – o veneno saboroso é lançado nas minhas veias. Não é nada-não é nada e eu preciso, eu preciso, eu preciso sacar R$ 16 da carteira para investir numa sessão de Homem de Ferro.

O resenhista me avisa que este é o melhor filme inspirado em quadrinhos desde Homem-Aranha e, antes que eu pergunte “Mas Homem-Aranha era essa coca-cola toda?”, já estou na quarta fileira, pipoca amanteigada escorrendo nos dedos, entretido com o anúncio da agência de seguros.

E aí vem o logotipo da Marvel, que provoca frio na barriga. Ansiedade, vou começar a roer minhas unhas sem nunca tê-las roído antes? Por que minhas mãos estão suadas? Eu, que nunca me impressionei com filmes de super-heróis (talvez os dirigidos por Tim Burton, e olhe lá), deveria me tratar. Mas entendo: blockbusters são uma droga.

É que, pessoal, olha, calma lá, não enfartem: isto é só um filme. E um filme do diretor de Zathura e Um duende em Nova York, valha-me.

Encarado assim, como um fil-me (e não como um evento transformador de vidas), Homem de Ferro é quase filé-com-fritas. Recorre a uma fórmula que já rendeu um sem-número de longas: o do conto de formação de um super-herói. Já li essa revistinha até debaixo d’água. Como em Homem-Aranha ou em X-Men, o protagonista passará a maior da trama se adaptando aos novos poderes (no caso, uma armadura voadora) – e, na meia hora final, usará os talentos contra um vilão megalomaníaco. O filme só não afunda nesses truques narrativos graças ao supercarisma de Robert Downey Jr, que garante ao milionário Tony Stark um grau de dubiedade e de sarcasmo que pouco existe no roteiro.

Essa história merecia ser conduzida de um jeito menos impessoal, por alguém com interesse por moldar um universo visual. E não pelo Homem Invisível. Mas este é um filme quase todo de Downey Jr e, como tal, sai-se relativamente bem. No fim das contas, Homem de Ferro acaba até dialogando com nosso mundo, mesmo que sem a intenção de interpretar coisa alguma. Stark é um produtor e comerciante de armas que, depois de seqüestrado por um grupo terrorista no Afeganistão, resolve pular a cerca para o lado do bem e intervir em conflitos de países pobres. Na continuação, suponho, serão reveladas as conseqüências terríveis desse tipo de intervenção.

O desfecho é divertido, mas uma pergunta fica no ar: nosso herói canastrão era absurdamente ingênuo, já que nunca percebeu os males que a própria empresa provocava? Ou estava pregando mais uma peça sacana em todos nós?

Garanto que minha avó não se importaria com o detalhe. That’s entertainment.

Jamie Lidell no furacão

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He’s at his best here on the playful Beck-like ‘Hurricane’ and the sweetly mournful ‘Rope of sand’, but Jamiroquai-averse listeners would to well to avoid ‘Figured me out’.

Na série de infelizes resenhas sobre o álbum do Jamie Lidell que saíram desde terça (rolaram as comparações óbvias com Amy Winehouse e Jamiroquai, mas teve gente ressuscitando até Terence Trent D’Arby!), a da Uncut surpreendentemente bate todas – no quesito ‘falta de amor no coração’. Que isso, gente? Como diria a Xuxa, de onde vem tanto ódio? O disquinho é uma belezura. Aposto que, se ele tivesse incluído uma faixa experimental de minimal-sei-lá-o-que, todo mundo estaria babando.

Não vou nem disfarçar, estou fulo. Estragou meu feriado. O sujeito não merece o desdém. Estão subestimando a inteligência do rapaz. Vai rolar com ele o que aconteceu com o Release the stars, também jogado pra escanteio desse jeitinho torpe aí? Mundo insensível, tsc.