‘The slip’ Nine Inch Nails **

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The slip, lançado de graça via internet, é o álbum mais enxuto do Nine Inch Nails desde The downward spiral. Para uma banda que lida com excessos, é uma anomalia. Não que este disquinho de (milagrosos) 43 minutos de duração esteja à altura do álbum de 1994, que praticamente formatou uma estética que acabaria acorrentando o todo-poderoso Trent Reznor. Mas anote aí: é o mais interessante, ou pelo menos o mais coeso desde então.

O que, infelizmente, não quer dizer muita coisa. Como ficou Reznor desde a época em que levou o tal rock industrial ao quinto dos infernos? O álbum duplo The fragile (1999) pode até ter nos sufocado com a overdose de agonia, mas não chegou a apresentar nenhuma mudança radical no figurino (e muito menos nas letras, que seguiam rigorosamente um mesmo tom desiludido) do compositor. O retorno com With teeth (2005) deu verniz melodioso à receita, mas sem alterá-la significativamente. Até a pose conceitual e as historinhas futuristas de Year zero (2007) não nos desviaram de uma estrada perdida.

Parece gozação: Reznor se libertou das amarras da indústria de discos (num momento muito oportuno, aliás, já que a crise corrói tudo) sem abandonar o próprio mundo musical, cada vez mais atrofiado. O álbum instrumental Ghosts I-IV até apontava para uma nova obsessão, mas este The slip coloca o trem no antigo trilho. O maior sintoma de paralisia criativa está nas letras, que repetem frases sombrias que já estavam espalhadas no encarte de The downward spiral (o primeiro que identificar o desabafo “Nothing can stop me now” ganha um comprimido para dor de cabeça). A sonoridade do disco, que martela nossos ouvidos com faixas ruidosas e depois os amacia com a anestesia de trechos lentíssimos, parece denunciar o quão confortável é para Reznor vestir essa fantasia de bicho-papão.

Se é assim tão rotineiro, por que The slip interessa? É que, sem a pressão de bombar nas rádios nem de agradar aos fãs mais xiitas, Reznor finalmente conseguiu se concentrar em um álbum compacto e sem tantas afetações, com início-meio-fim, e que parece resumir tudo o que ele fez desde The downward spiral. As faixas boas são muito seguras (Discipline, Head down), ainda que catem cacos do repertório do Nine Inch Nails. E os trechos instrumentais são mais complexos e envolventes que as típicas viagens de Reznor. Talvez o futuro dele esteja aí, em abandonar velhos tiques e mergulhar nessa nova faceta pantanosa, árdua, um desespero sem refrãos. Muitos fãs o deixarão de lado. Parece a única saída: The slip deixa a sensação de que, elegantemente, fechou-se uma porta.

2 comentários em “‘The slip’ Nine Inch Nails **

    Daniel Pilon disse:
    maio 16, 2008 às 6:15 pm

    Eu achei um bom disco, no mesmo nível de With Teeth e Year Zero, mas NIN estagnou. Parece que vão lançar discos que todo mundo acha legal, mas não morre de amores para sempre. E o Ghosts eu não tive paciência, ouvi só o primeiro disco uma vez e desisti do resto.

    Tiago respondido:
    maio 16, 2008 às 6:21 pm

    O Ghosts é um saco, mas eu já acho The slip melhor que With teeth (uma tentativa de recuperar o apelo comercial do grupo, e daí que bastante apelativo em alguns momentos) e Year zero (a “trama” narrada nunca me convenceu).

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