‘Combat samba’ Mundo Livre S/A ***

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Tivemos banda melhor que essa? Em quinze, vinte anos? Em todos os tempos?

Exageros à parte, ouvir esta coletânea (alinhavada com absoluta precisão por Carlos Eduardo Miranda) é redescobrir um enfezado grupo de guerrilha, eternamente à margem de tudo. Uma grande banda. A gangue de Fred Zero Quatro compôs as obras-primas que quase ninguém ouviu. Por isso, até eu, eterno inimigo dos greatest hits, dou o braço a torcer. O Mundo Livre S/A merece ser celebrado. Ainda. E sempre.

É que hoje se fala muito em Jorge Ben, nos violões psicodélicos de Tábua de esmeralda, no samba esquema novo, coisa e tal. Até as amiguinhas da minha irmã vão à caça toda noite ao som de samba rock. Mas quem soube verdadeiramente, e durante os confusos anos 90!, se apropriar dessas referências e atualizá-las? Não houve banda como o Mundo Livre S/A. Se muita gente ainda os coloca na mesma sacola de Chico Science e resume tudo ao denominador do mangue bit, é hora de tratá-los com a dignidade que sempre fizeram por merecer.

Aos desavisados, recomendo doses diárias e reforçadas de Carnaval na obra ou de Samba esquema noise, dois álbuns impecáveis e inquietos, pop com a pulga atrás da orelha. Mas, antes disso, vale o panorama deste Combat samba, que tenta o que a banda nunca procurou: foco. A coletânea seleciona faixas que, de alguma forma, envergam o samba. Daí a opção de começar com o cartão-de-visitas O mistério do samba e seguir com a ainda deslumbrante Édipo, o homem que virou veículo, levada no cavaquinho. O conceito do disco nos obriga a fazer as pazes com, por exemplo, Super homem plus, um dos sambas sublimes que eles gravaram (e a minha favorita em toda a discografia dele) e a lisérgica Terra escura, obrigatória.

Não vou ficar poupando adjetivos. Este é um disco que só não ganha quatro estrelas por se tratar de uma espécie de (prematuro) resumo da ópera. Tenho meus limites com coletâneas. Mas, apesar do espírito nostálgico, o álbum fecha olhando para cima. O samba politizado e escalafobético se cansou do rock, e hoje beija a eletrônica na novinha Estela. Uma beleza. Os retardatários que me desculpem, mas esta é uma banda que precisa continuar seguindo em frente. É a melhor que temos. E não estou brincando.

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29 comentários em “‘Combat samba’ Mundo Livre S/A ***

    Samuel disse:
    maio 13, 2008 às 12:48 am

    Tenho um certo preconceito com o Mundo Livre que não sei explicar, é um que existe também com o Teatro Mágico, Cordel, Mombojó, etc. Da trupe do Fred 04 ouvi uma ou outra e não fui fisgado, achei tudo (do som à postura) chupado do arsenal do Chico Science, e vi também o show de abertura pro Kings of Leon, no Tim Festival, que devido às circunstâncias nem dá pra considerar. Pra mim, banda dos últimos anos aqui no Brasil é a Nação Zumbi, principalmente nos dois maravilhosos discos com a antena do Chico. Ao vivo eles são insuperáveis, um pandemônio de sons e ritmos dos mais barulhentos.

    Vou procurar essa coletânea, agora, só uma dúvida: C.E.Miranda é o jurado gordão daquele Ídolos, do SBT?

    Tiago respondido:
    maio 13, 2008 às 1:13 am

    É ele sim. Foi quem descobriu toda essa turma nos anos 90.

    Pois é, aquele show no Tim (eu estava lá) tá longe de ter sido a melhor amostra do Mundo Livre. Eles fazem coisas bem melhores. E o som da banda não tem tanto a ver com Chico Science. A referência do ML é Jorge Ben, acima de tudo.

    Danilo M. disse:
    maio 13, 2008 às 3:54 am

    Mundo livre é bom pra chuchu mesmo…

    Aí cara, você já deu uma ouvida no novo do Make Believe??

    Tiago respondido:
    maio 13, 2008 às 8:58 am

    Não ouvi não, Danilo. É bom?

    sérgio alpendre disse:
    maio 13, 2008 às 12:10 pm

    é justamente o meu problema com o Mundo Livre. Ao ouvir o seu melhor disco, Carnaval na Obra, ficava sempre pensando: pô, mas aí é muito melhor ouvir o Solta o Pavão, a obra-prima do Jorge Ben. Claro que em algumas músicas eles escapavam dessa prisão, e abraçavam até o rock progressivo.

    Danilo M. disse:
    maio 13, 2008 às 2:53 pm

    Ainda Tô na segunda ouvida, e já me soa o melhor disco do Make, muito bom o trabalho dos caras…

    Tiago respondido:
    maio 13, 2008 às 3:16 pm

    Não sei, Sérgio, acho que eles vão bem além disso e incorporam outros elementos. O Ben é só a base.

    Vou ouvir, Danilo.

    maneco disse:
    maio 14, 2008 às 4:58 pm

    Rapaz, assino embaixo sobre esse texto aí! eu comecei ouvindo muito a nação zumbi de chico, mas hj em dia sou muito fã do mundo livre sa. Tranquilamente a mais interessante banda brasileira em atividade no momento. E nem vem com esse de colocar no msm balaio de MOmbojó, Teatro Mágico e tal e coisa…mundo é uma transgressnao musical, nada q esses caras fazem chega perto! tô exgerando não! os cara subverteram o samba, o rock e o caralho a4 em som! sou mega fã da banda, mas ouço muita música, musica brasileira de todos os tempos e digo, os caras são foda! Jorge Ben é uam perna do som dos caras…ali vai The Clash, sambão, rock progressivo…mundo livre é uam banda mto rica em idéias e em atitude! quisera a nação zumbi ainda mantivesse esse gás!

    abração e pretendo adquirir o disquinho logo logo!

    Halff disse:
    maio 14, 2008 às 5:58 pm

    Mundo livre é o quê???
    é rock? é samba? é mpb? é mangue beat?
    a maioria classifica como rock, mas se tivesse que classificar em algum genero eu diria que é “samba”. mas como diria arnaldo antunes “somos inclassificaveis”
    Mesmo assim qualquer cd do mundo livre deve estar na sessão de musica boa.
    “meu esquema” na minha humilde opinião é um classico da musica brasileira, me faz lembrar Tom Jobim, pra quem tá afim de conhecer mais a obra dos caras tem box chamado “Bit” que vale muito a pena.
    “musica do mundo livre é farta massa”
    um abraço
    Halff

    Tiago respondido:
    maio 14, 2008 às 6:21 pm

    Maneco e Halff, concordo com tudo o que vcs escreveram. Mundo Livre tá muito acima do Mombojó (ainda imaturo em alguns aspectos) e do Teatro Mágico (que acho intragável).

    Miranda disse:
    maio 14, 2008 às 7:47 pm

    Ae, Tiago, valeu! Fred me indicou de ler teu texto. Alta percepção. Parabéns. E o Samuel é burro mesmo ou tá só fingindo? hehe. abs

    Tiago respondido:
    maio 14, 2008 às 7:53 pm

    Puts, este blog tá ficando famoso. Valeu, Miranda. Sou fã do programa lá, hehe.

    Samuel disse:
    maio 14, 2008 às 8:06 pm

    Hahahaha ó o cara!

    Só pra deixar claro que eu nunca ouvi Teatro Mágico (o nome basta pra me dar ânsia de vômito), Mombojó ou Cordel, só joguei no mesmo balaio por causa do preconceito que EU tenho em relação a essas bandas.

    Tiago respondido:
    maio 14, 2008 às 8:10 pm

    Tá explicado, Samuel.

    Samuel disse:
    maio 14, 2008 às 8:15 pm

    E tem uma outra também, Formidável Família Musical, já ouviu falar? Me diz se dá pra levar a sério uma coisa dessas? Um amigo me passou três músicas mas eu não tive coragem e deletei antes mesmo de ouvir, bom senso às vezes faz bem.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 14, 2008 às 8:18 pm

    Nunca ouvi. Vou dar uma pesquisada e digo.

    chiveta disse:
    maio 14, 2008 às 9:55 pm

    chiveta aprova a coletânea!

    Jose Henrique disse:
    maio 16, 2008 às 6:02 am

    O Mundo Livre é uma grande banda, sem dúvida, mas a Nação Zumbi(com ou sem Chico) está um degrau acima.
    Fred 04 precisa voltar a fazer músicas mais pop, um refrãozinho não faz mal a ninguém, a Nação provou isso em Fome de Tudo.
    Essa politicagem em excesso é que, ao meu ver, gera o pré-conceito com os caras.
    Fred, meu chapa, nunca perca o balanço, a ternura, como diria Che.
    O OUTRO MUNDO DE MANUELA ROSÁRIO foi um erro. Um belo erro, mas, um erro.
    A banda precisa voltar a fazer músicas como Musa da Ilha Grande, se bem que no último EP teve a ótima Ivete.
    Enfim, uma ou outra de política pra lançar a mensagem, mas sem esquecer a malícia sexual pra dá o molho.
    Sucesso pra banda e que venha o esperado DVD

    Tiago respondido:
    maio 16, 2008 às 10:53 am

    Eu já acho “O outro mundo” bem coerente com a trajetória da banda…

    Jose Henrique disse:
    maio 16, 2008 às 5:29 pm

    Não disse que não era coerente, de fato é.
    O que quis dizer, e disse, é que esse disco pesou muito a mão pra um só lado.

    Guida Gomes disse:
    maio 26, 2008 às 8:46 pm

    gosto muito do som, do trabalho , da história e da performance. acho q a importância do grupo é bem maior do q qualquer resultado de um novo disco. eles conseguem retratar a realidade da mangue touwn sem se desconectar do mundo (livre). em qualquer parte poderemos nos sentir parte das coisas narradas. sim! narrativas poéticas de pisada inegualável. uma raiva, uma fúria contida e exclamada aos 4 cantos em forma de música! gosto muito de ouvir sempre e me liberto! liberto o mundo livre que há em mim.

    Cibele disse:
    maio 27, 2008 às 7:44 pm

    O Outro Mundo de Manuela Rosário foi um erro?!? Eu não acredito que li isto! E olhem que é um disco todo feito praticamente junto com a Nação Zumbi. Um erro só porque fala da realidade? Só porque não fica o tempo todo falando de mulher? A única banda que faz isso no Brasil e ainda querem que pare? Isso é que é não respeitar o direito de quem quer ouvir algo diferente! O preconceito não é gerado por nenhuma atitude ou defeito deles, faça-me o favor! Um pouco de respeito, também está provado, não faz mal a ninguém. O preconceito vem das próprias pessoas, daquelas que são completamente e deliberadamente insensíveis às tragédias humanas. O caminho que elas escolheram não tem volta.
    O Outro Mundo… é um disco fundamental, e não é “politicagem”. É sensibilização. É conscientização. Escutem.
    A droga do Brasil é que querem sempre mais do mesmo. Uma musiquinha sobre Bush pra aliviar a consciência e o resto, mulhéééé!!! O artista não, o artista ousa e recria, e inventa. E o Mundo Livre é uma banda de artistas, assim como a Nação Zumbi. Está na hora de entender que os dois têm a mesma importância e qualidade.

    Jose Henrique disse:
    maio 30, 2008 às 4:04 am

    Oi Cibele, realmente, um artista deve ousar e nesse aspecto O OUTRO MUNDO… mandou bem.
    O que falei é que esse disco é o responsável pelo certo pré-conceito que alguns têm com a banda e nesse sentido foi um erro, só isso, baby.
    Artista que não ousa, que faz sempre mais do mesmo é uma bosta, não defendi isso!
    O meu artista preferido é Miles Davis, portanto…
    Ousar é diferente de radicalizar, a linha é tênue, mas existe. Cuidado pra não tropeçar. :>)

    PS: Mulher é muito bom e quase todo mundo gosta. :>)

    Cibele disse:
    maio 30, 2008 às 9:14 pm

    Ah, bom… Agora está tudo explicado, José Henrique. Se você gosta do Miles Davis, parabéns. E parabéns por ser tão equilibrado.
    Não há nada de errado em falar de mulher. Também não há nada de errado em falar de política. Sempre foi a combinação do MLSA. E eles podem “pender” para um lado ou outro. Não há problema nisto.
    Obrigada pelo conselho, vou me lembrar sempre.

    Jose Henrique disse:
    junho 2, 2008 às 4:51 am

    Oba! Cibele. Obrigado pelos parabéns. :>)
    Que bom que entendeu minhas colocações.
    Ahhhhh, não foi um conselho, foi um aviso.
    Conselho quem dá é gente chata e eu sou bacana. hehehe :>)

    PS: Agora vamos esperar o disco de inéditas dos caras pra ver pra que lado eles vão pender.
    Pô, tá parecendo aquele “araminho” que capta vibrações negativas e positivas. ehehhee

    Um blog « meu nome não é superoito disse:
    junho 5, 2008 às 7:39 pm

    […] Pra vocês terem uma idéia, os textos que hoje bombam por aqui são os de baixo orçamento: uma resenha de coletânea do Mundo Livre S/A, que escrevi no intervalo do almoço, e um comentário igualmente apressado sobre o show da Mallu […]

    […] banda do planeta seria capaz de ter bolado um greatest hits tão insólito quanto esse. Talvez o Mundo Livre S/A, mas essa é outra […]

    joao disse:
    julho 4, 2008 às 3:57 pm

    é complicado vocês falarwem em mundo livre tendo nação zumbi como referencial… o processo midiático que fizeram em torno da nação foi foda… historinhas são várias, de tirar o nome de fred da composição de “rios pontes e overdrives” para centrar na figura de Chico até problemas na hora de assinar contrato. Mundo Livre é uma das melhores bandas do país porque pelo ao menos procuram não se contradizer. Tem uma postura fixa e cabeça no lugar desde a conturbada década de 90. Essa postura e esse talento musical deve sim ser levado em conta, preponderante no que toca a frase “música acima de tudo”, essa música tão esquecida pelas gravadoras, pelos músicos cabeça-de-camarão. No meu humilde ponto de vista, Chico é chico e Fred é, acima de tudo, o espírito vivo do mangue bit… se é que isso precisa ser dito.

    Bubys disse:
    agosto 8, 2008 às 10:19 pm

    Pois é, chico é chico e fred é Fred. Não devem ser comparados e sim apreciados. ML e CSNZ, apesar de estarem bem ligados geograficamente, foram camaradas e trabalharem juntos, praticamente começaram toda a onda do mangue bit, seus ideias eram praticamente os mesmo – e de certa forma ainda é – e apesar de tudo isso as duas bandas não tem na a ver uma com o outra para termos de comparação.
    São duas ótimas bandas, as melhores em seu estilo e no entanto, um é um e outro é outro sem perigo de coincidências ….

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