Dia: maio 11, 2008

Clipe: ‘L.E.S. Artistes’ Santogold

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Numa temporada meio morna, o clipe de estréia de Nima Nourizadeh (atenção a ela) acaba se destacando. É uma bela carta de apresentação para Santogold. Começa num clima de conto de fadas sombrio (que lembra os vídeos recentes do Goldfrapp) e daí segue até o fim do mundo. Domingo sangrento, etc.

Speed Racer **

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Existe algo de muito errado (ou de muito certo) com um filme que provoca lembranças, numa mesma cena, do frenesi pop de Kill Bill, das afetações quase grotescas de As Panteras: detonando e da palheta de cores usada em propagandas da Faber Castell (nada contra).

Aparentemente inofensivo e “infantil”, Speed Racer testa limites: do uso da tecnologia digital no cinema, sim, mas também enfrenta a tolerância do próprio público. Não me surpreende a pancadaria que vem sofrendo da crítica norte-americana. Desde Matrix reloaded, os irmãos Wachowski colocam à prova um cinema que, para o bem ou para o mal, bate na tela de uma forma obsessiva, agressiva como surto de epilepsia. São filmes que podem ser entendidos como jogos de videogame, viagens psicodélicas ou show rooms de novíssimos efeitos visuais. Horríveis e fascinantes.

Speed Racer pertence a essa família, e deve mais aos longas anteriores dos cineastas que ao desenho japonês dos anos 60 (que peguei nas reprises da MTV, já nos anos 90, e garanto que, apesar da trilha sonora, tem muito pouco a ver com isto aqui).

Admito que quase não sobrevivi às experiências de Matrix reloaded e Matrix revolutions. Detesto ambos. Mas consigo identificar, uma a uma, todas as obsessões dos Wachowski. Do gosto pelos excessos à dedicação a um cinema francamente superficial. Acredito que a manutenção desse laboratório visual se dá de uma forma tortuosa – e, se eles avançam um pouco em Speed Racer, ainda demonstram a incapacidade de traduzir com leveza essa overdose de referências. São filmes que ainda me incomodam por buscar grandiosidade onde ela não existe. É até risível que uma adaptação de uma animação sem grandes pretensões tenha rendido um longa de 2h15 com um clímax que poderia estar numa ópera pop escrita pelo The Who e produzida por Baz Luhrmann. É demais. É over. Cansa.

Digo logo: este é um filme inflado, redundante – e que, nisso, remete mais à série Piratas do Caribe que a Pequenos espiões (e, nesse ramo, Sin City ainda me parece mais inventivo). Em alguns trechos, me lembrou daquelas longas seqüências de perseguições em Matrix reloaded, que se arrastavam infinitamente, desprezavam a lógica e se rejeitavam a convidar o espectador a participar da ação. Sorte que, em grande parte de Speed Racer, nota-se um esforço dos diretores de humanizar essa fábrica de algodão-doce – e aí entram os conflitos familiares meio ingênuos por que passam os personagens (os bons atores ajudam a nos distrair entre uma e outra fase do videogame), e a luta do piloto à favor da espontaneidade e contra o autoritarismo das grandes corporações (este filme é bancado pela Time Warner, conglomerado que opera empresas de cinema, televisão, internet e telecomunicações? Sério?).

Daqui a 50 anos, o cinema dos Wachowski provavelmente será reconhecido como um retrato fiel do período em que vivemos. Talvez seja isso mesmo (e nessa polaróide vale incluir a sensação desmedida de nostalgia, que parece sobreviver a qualquer novo software). Este filme é o sonho confuso de um menino de dez anos de idade que tomou muito Toddynho antes de dormir. Se produzido pela Pixar, teria saído mais agradável e caloroso. Mas o que há de particular neste parque de diversões perverso, à Willy Wonka, é o clima de vale-tudo, o desespero juvenil, a vontade insana de explorar imagens e sensações. Mesmo quando dá muito errado, o test drive nos leva a lugares tão familiares e ao mesmo tempo tão estranhos. Passeio não recomendado, diga-se, aos de estômago sensível.