Dia: maio 8, 2008

Banquete do amor *

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O cartaz sugere uma comédia romântica à Três vezes amor, mas o filme é o equivalente cinematográfico de uma novela de Manoel Carlos – com as qualidades (as crônicas do cotidiano mais banal) e os defeitos (os personagens são tão artificiais quanto as bochechas da Regina Duarte).

Portland, um cantinho do Leblon.

Suspeito que devamos cobrar um pouco mais de um longa do diretor de Kramer vs. Kramer e de Revelações (que muita gente detesta, mas que ainda defendo como uma adaptação até correta de um livro dificílimo de Philip Roth). O curriculum vitae de Robert Benton não salva um folhetim que, apesar de tantas calorosas boas intenções, parece uma reciclada colcha de retralhos. Até a consternada narração em off de Morgan Freeman deixa a impressão de ter sido sacada de outro filme (Menina de ouro, sejamos específicos).

Freeman interpreta um professor desiludido (mas com um coração enorme) que observa os encontros e desencontros amorosos de um grupo de personagens. Ele encara a vida como uma sucessão de recomeços, e talvez Benton concorde com esse homem (notem que ainda tenho fé no sujeito). Pena que o roteiro se embole num emaranhado de tramas à Robert Altman. Com algumas diferenças: o humor é ingênuo e as cenas de nudez e sexo, ainda que nada abusadas, acabam destoando da rotina de típicos telefilmes românticos. Mas não deixa de ser também isto: rotineiro.

‘I know you’re married but I’ve got feelings too’ Martha Wainwright **

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…Mas tem duas músicas muito, muito boas: You cheated me, que parece ter sido teletransportada dos primeiros discos do David Bowie, e The George song, que lembra bastante as melhores canções compostas por Fiona Apple e produzidas por Jon Brion. Já valeriam o ingresso. O problema é que, bem, existe todo um disco ao redor delas.

Não chega a ser um problema, estou exagerando. Do primeiro ao segundo álbum, dá para notar uma clara evolução na música de Martha. Quando soma elementos de pop rock ao modelo folk do álbum de estréia, ela tenta uma salto parecido àquele praticado pelo irmão, Rufus Wainwright. Lembrem que, no caso do moço, a transformação rendeu o melhor trabalho da carreira dele: o quatro-estrelas Poses, de 2001. Apesar do título escalafobético (e muito bacana), o segundo de Martha não sobrevive à comparação. Não existe uma ruptura, mas um processo de expansão de tudo o que ela havia gravado antes. O que, novamente, não chega a ser um problema.

Sem as guitarras e os sintetizadores, o álbum seria mera continuação do anterior, de 2005. As canções ainda devem muito ao repertório de Joni Mitchell e Kate Bush – mesmo que, em alguns momentos, Martha acabe parecendo uma candidata a Macy Gray -, mas as ambições agora são bem maiores (no début, quase tudo era feito apenas com voz e violão). Na época do lançamento do primeiro disco, vi um show todo acústico da cantora num bar pequeno em Berlim (é sério, não estou de gozação), e dava para notar um clima de intimidade despretensiosa, como se Martha apresentasse ao público algumas músicas que guardava há algum tempo na gaveta. Isso apesar das letras às vezes pesadas e confessionais (método que continua em voga neste novo trabalho). Imagino que agora essa performance também engordará.

O que me incomoda é que as boas faixas do disco (entre elas a cover de See Emily play, do Pink Floyd) parecem desviar dos buracos abertos pelas canções mais fracas – baladas incompletas, dedilhadas ao violão, ou entulhadas de poesia constrangedora de tão imatura. O disco preserva muito do álbum anterior e, em muitos momentos, aponta para novas direções. Soa como o meio de um caminho. De qualquer forma, é um processo que eu acompanharei sempre de muito perto: mais vale uma mulher de verdade como Martha, com imperfeições e o diabo, que as bonecas de plástico que tanto ouvimos por aí.