Dia: maio 5, 2008

‘Santogold’ Santogold ***

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Compará-la com a M.I.A. é mesmo o caminho mais fácil – as duas fazem bagunça com estilos como dub, funk, pop rock e eletrônica. Mas é perigoso limitar a norte-americana Santogold e esse jogo dos sete erros, até por um motivo bem simples: quatro anos antes do primeiro álbum da inglesa, Arular, Santogold já havia produzido e escrito um ótimo disco de soul music chamado How I do, para a cantora Res, que também se esbaldava num sopão de referências. O melhor a fazer com esta estréia é tratá-la como um progressão do trabalho de Santogold como produtora. E, apesar do pop globalizado de faixas como Creator e Say aha, vale esquecer a existência de faixas como Bucky done gone por alguns minutos.

Ok, M.I.A. e Santogold jogam no mesmo time. São comadres, compram na mesma butique, tomam uns tragos com o Diplo. Mas, enquanto a primeira se beneficia de uma atitude mais agressiva e desrespeitosa (em relação a tudo, das letras às fusões musicais), a segunda prefere testar combinações menos radicais, mais conservadoras. Digamos que M.I.A. esteja em busca do contraste, do choque. Já Santogold tenta recuperar o frescor de antigos gêneros (mais ou menos como uma Lily Allen). Discos assim, desesperados para testar de tudo, geralmente frustram pela falta de foco. Mas não este. Santogold se assume como álbum pop, e se move com muita segurança dentro desses limites.

Até a pose roqueira de faixas como Lights out e I’m a lady não parece de encomenda. A tendência é que muita gente subestime o álbum pela aparência superficial e pelos refrãos imediatos. Mas são elementos que distanciam Santogold do radar indie e permitem que ela dialogue, sem apelações, com um público mais amplo. Maior que o da M.I.A, talvez. Um outro mundo. Eu, que comecei a ouvir o disco cheio de preconceitos, não tenho do que reclamar.

‘Narrow stairs’ Death Cab for Cutie **

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Depois de uma estréia extremamente cautelosa (ok, medrosa) numa grande gravadora, tudo o que restava ao Death Cab for Cutie era tentar recuperar o prestígio perdido com um álbum mais incisivo, e sem aquela morosidade que fez de Plans o brinquedo favorito dos fãs de The O.C. No papel, Narrow stairs é exatamente isso. Talvez sob influência do Spoon, a banda chegou perto de gravar canções verdadeiramente cruas (em algumas delas, simulam o eco de um quarto estreito). É uma pena que esse esforço de buscar uma sonoridade tão desiludida quanto as letras de Ben Gibbard tenha durado exatamente duas faixas deste disco novo. A primeira – e depois a segunda.

A abertura, Bixby Canyon bridge, diz praticamente tudo o que você precisa saber sobre o álbum. Começa como uma radiofônica canção de amor (e a voz de Gibbard, suave toda vida, cabe perfeitamente em qualquer estação de rádio) e é aos poucos corrompida por interferências, riffs rasgados de guitarra e distorções. A segunda, I will possess your heart, vai na direção contrária: inicia numa longa jam inspirada em Can e Kraftwerk e, lá pelos cinco minutos, se revela hit fácil para MTVs da vida (apesar da letra sombria, sobre um stalker obcecado por uma pobre moça).

É uma decolagem que bate com impacto – mais pela produção de Chris Walla que pelas composições em si (lembra até aqueles discos do Travis que desperdiçavam o talento de Nigel Godrich). Nas outras faixas, a banda tenta de tudo: há baladas psicodélicas que, de tão limpas, soam como lado B de Coldplay (Talking bird) e até uma homenagem literal ao Beach Boys (You can do better than me). Quando eles finalmente acrescentam um pouco de eletrônica à química, em Pity and fear, ameaçam voltar aos trilhos. Mas só ameaçam, já que essa é a penúltima faixa e o álbum encerrará com o sentimentalismo juvenil de sempre (The ice is getting thinner). Se depender da regrinha das primeiras impressões, o disco será bastante elogiado. Mas ouça algumas vezes e a profecia da banda se transformará em realidade: o gelo ficará cada vez mais fino.