Dia: maio 3, 2008

Something nice back home **

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Estou certo de que existe uma equipe na ABC encarregada das pesquisas de opinião sobre os nossos seriados favoritos. Também estou certo de que, em algum momento durante a greve dos roteiristas, essa turmina bateu nas costas dos produtores de Lost e avisaram: “colegas, parece que, contra todas as nossas expectativas, e sabe-se lá por que raios, o público está realmente interessado nos desdobramentos palpitantes do retângulo amoroso entre Jack, Kate, Sawyer e Juliet.”

Imagino a cara de desânimo do Damon Lindelof ou do Carlton Cuse ou até do J.J. Abrams, se esse aí ainda torrasse neurônios com nossa ilha da fantasia. “Sério mesmo?”, eles perguntariam. Pois é, vá entender.

Esse tipo de intervenção popular, e somente isso, explicaria a existência de episódios como este aqui, que remói os frívolos casos românticos entre personagens que declamam juras de amor como quem lê termos de contrato. Já estamos quase no final da quarta temporada e ninguém percebeu que tanto faz saber quem vai ficar com Kate?

Este episódio quase corta o mal pela raiz: Jack fica com Kate, e estamos acertados. Mas, aos 45 do segundo tempo, impõe na alcova a dúvida: Kate ainda cultiva sentimentos róseos por Sawyer? Nos momentos em que Lost se transforma em Days of our Lives (com um quê de Grey’s anatomy), me sinto obrigado a respirar fundo e contar até 40 (minutos). De qualquer forma, muito me surpreende que este tenha saído um bom episódio, uma pausa oportuna em meio ao corre-corre da temporada. Os roteiristas Edward Kitsis e Adam Horowitz nos pouparam as reviravoltas bombásticas e se concentraram em estudar o perfil psicológico (rasinho, mas tudo bem) de alguns personagens. Para mim soou como um alívio acompanhar a vida doméstica (meio modorrenta, mas com momentos de pegação no chuveiro etc) de Jack após o resgate. Horowitz já escreveu episódios de Felicity, o que talvez explique o tom inofensivo da trama. Diante da imagem de um Matthew Fox deprê, alguém mais lembrou de Party of five?

Notem que, felizmente, há fagulhas de bom humor em meio ao bem-me-quer-mal-me-quer. Como no momento em que o físico maluquinho pergunta algo sobre a infra-estrutura da ilha. “De onde vem essa energia elétrica?”. Recebe uma resposta vaga, algo como: “Anote mais essa pergunta na lista”. Fico satisfeito por saber que não quiseram resolver mais esse mistério num estalo de dedos. Faltam três capítulos para o fim desta safra, então tenhamos calma. Por enquanto, temos o direito de nos distrair com amenidades. Quer dizer: há eventos sentimentais muito sérios em jogo. Ou você acha que é fácil para Jack viver com uma mulher que tem mais dúvidas cruéis que as personagens de filmes de Eric Rohmer? Me simpatizo com esse bravo herói do lar.