Dia: maio 2, 2008

‘At Mount Zoomer’ Wolf Parade ***

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Taí uma banda que não olha para trás. No álbum anterior, os cinco canadenses vestiam mochilas pesadas e caminhavam nervosíssimos floresta adento. Três anos depois, eles mandam notícias de dentro da mata fechada, cercados de animais selvagens, sob chuva – mais aflitos que nunca. Ainda estou me adaptando à dureza que é este At Mount Zoomer, mas já morro de medo do próximo álbum do Wolf Parade.

É um disco denso, mas não teria como ser diferente. A Sub Pop avisa aos incautos que, apesar das aparências, seria bobagem defini-lo como rock progressivo. Não é por aí. A banda tem explicação melhor para esta fase cascuda, anti-social. “As semanas de isolamento fizeram do Wolf Parade um homem solitário que, peso em uma cabana na montanha, escreve cartas para Deus com sujeira e galhos de árvore”, comentou Dan Boeckner. É uma definição exótica, mas que serve como ilustração para faixas esparsas como Call it a ritual e An animal in your care (essa última, de fazer Thom Yorke chorar). São canções que não se movem – se arrastam, agonizam, pedem ajuda.

O primeiro disco da banda, Apologies to the queen Mary (meu favorito de 2005), ainda impressiona pela angústia como vomita canções e riffs de guitarra. Dá a impressão de ter sido gravado na velocidade de um espasmo. O novo é menos hiperativo, mais árido e lento. Não chega a ser tão rebuscado quanto os discos do Sunset Rubdown (projeto de Spencer Krug), mas evita os refrãos imediatos, à Modest Mouse e Talking Heads, de faixas como Grounds for divorce e Shine a light. Com jams prolongadas e sintetizadores ultrapassados, At Mount Zoomer tem a aparência de um primo excêntrico e suicida de Real emotional trash, de Stephen Malkmus.

São apenas nove faixas, mas existe toda uma atmosfera de instabilidade no disco que provoca a sensação de que a arte do Wolf Parade está sempre por um fio. Cada canção termina como se desabasse em cinzas, sem deixar outras possibilidades musicais para a banda. Começar outra faixa obriga todo um dolorido processo de reconstrução, que nem sempre funciona. Talvez por isso o disco pareça tão diferente do anterior. As composições de Boeckner e Krug soam mais concentradas e uniformes, as letras evocam imagens de desertos e cidades abandonadas, as melodias exibem as marcas (ou seriam traumas?) de projetos como Sunset Rubdown e Frog Eyes.

Complicado se familiarizar com este disco. Eu não o recomendaria com muito entusiasmo. Não daria de presente ao meu melhor amigo. Mas vou avisando: eu estava disposto a rejeitá-lo quando, depois da quinta ou sexta audição, consegui identificar algumas trilhas secretas neste pântano, neste verde-musgo. Acho que foi no arranjo robótico de California dreamer (“Eu estarei por aí, como um adolescente na cidade”, cantam), ou na simplicidade doce de The grey estates, perdida no breu. Aos que apostavam no Wolf Parade como um novo Arcade Fire, uma má notícia (que pode ser boa, dependendo do referencial): eles não sabem quem são, mas não se contentam com uma identidade qualquer. Ainda estou confuso. Devo ouvir mais algumas vezes para fazer minha cotação subir em uma estrelinha?