Mês: abril 2008

Edição histórica

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O quadro da cotações da Contracampo foi atualizado.

Como esse tipo de evento acontece a cada 15 anos, vale uma análise rápida. Na lista de 20 filmes selecionados entre os que estão em cartaz, a revista nos prepara para uma dura realidade: não devemos sair de casa muito animados para assistir aos dez primeiros. Se descontarmos o fato de que os quatro filmes com belas médias já tinham sido exibidos por aqui no final do ano passado, dá para concluir que estamos numa fase de estiagem violentíssima. Vá ao cinema e não me convide.

Ou… Não é que alguém teve a ousadia de dar três estrelinhas pra Juno? Sério? Deus. O rigor foi pros ares, né não?

Quebrando a banca *

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Culpe as luzes de Las Vegas. É por elas que os golpistas ousados caminham atônitos, hipnotizados diante de fachadas de cassinos. Filmes sobre trapaças em Vegas costumam são como peças publicitárias. Eles se darão por satisfeitos quando tiverem manipulado nossos desejos mais primários: dinheiro, sexo e ternos estilosos. As mulheres são quase todas louras e os drinks vêm em várias cores. As luzes estão sempre acesas, e a festa nunca termina.

Quer dizer: não é bem isso. Ao contrário do anúncio de martini, há outros produtos nas gôndolas. Filmes assim empacotam lições de moral (quem muito quer, logo se estrepa), nos aconselham tomar cuidado com as luzes enganadoras da fortuna, e para isso submetem os personagens a uma trajetória inflexível: da lama ao paraíso, e daí ao inferno, depois possivelmente à redenção. Não é o roteiro adotado por todos os filmes sobre trapaceiros em Vegas. Mas acontece com a média. E é na média, na nota 5, na menção MM, que Quebrando a banca se enquadra.

Filmes assim, tão pré-fabricados, deviam ter sempre 70 minutos de duração. Este tem 123. É longo demais, mesmo quando a trama precisa de tempo para desenvolver os altos e baixos de um protagonista cujo perfil psicológico resume-se a uma qualidade: inteligência em abundância. Ele aprende a usar os neurônios para a pilantragem, ganha uma nota preta e aí, meu irmão, você já sabe o que vai rolar.

Robert Luketic, que dirigiu um filmezinho bem simpático chamado Win a date with Ted Hamilton (e também Legalmente loira, que, ahn, é engraçado), entope a trilha sonora com um tipo de pop rock melodioso, agradável e descolado (tem até Young folks jogado ao léu). É um recurso talvez planejado para funcionar como as luzes de Vegas. Nos cega, em alguns momentos. Mas que sirva de alerta amigo: é tudo miragem, esse neon barato.

(Little bit of) Jamie Lidell

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It’s hard to market me. You know, I’m not John Legend.

Na Pitchfork.tv, Jamie Lidell fala sobre Jamie Lidell. O sujeito parece muito com aquele seu tio nerd formado em Ciências da Computação. E faz uns gestos estranhos. E é afetadíssimo. E talvez seja um gênio, mas ainda não estou completamente certo a respeito disso.

(No MySpace, o álbum novo do rapaz, o bacaninha Jim, está todo liberado para quem quiser ouvi-lo). 

‘Arm’s way’ Islands ***

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Desta vez, tudo o que o Islands queria era um álbum pop. Este Arm’s way, em alguma extensão, é mesmo isso. Mas, antes que alguém me mande ao quinto dos infernos, vale lembrar daquela regrinha das aulas de Física da oitava série: atenção ao referencial.

No álbum de estréia, o Islands (nascido das cinzas do Unicorns) mesclava muito serelepemente calypso, dancehall, indie rock e canções de ninar num formato que lembrava os discos mais polidos de rock progressivo dos anos 1970. Ufa. E, ei, é um elogio! Era um álbum bastante acessível (as crianças mais descoladas adorariam), mas extremanete estranho dentro de um contexto em que o rock canadense era associado a bandas ruidosas como Wolf Parade, Arcade Fire e Broken Social Scene. Se o referencial é esse, então Arm’s way é quase Britney Spears.

Ou melhor: quase Franz Ferdinand.

Não mais um lindo patinho feio, o Islands trata a sonoridade do álbum anterior (o ótimo Return to the sea) como uma moldura a ser preenchida com cores e, acima de tudo, riffs e mais riffs de guitarra. Existe aqui uma tendência a fórmulas mais convencionais de composição que, ao contrário de um Raconteurs, a banda trabalha com muita disposição, como se metida numa nova aventura. O novo disco, com mixagem de Rob Schnapf (de discos do Elliott Smith), se desdobra mais encorpado, tomado por arranjos de cordas, refrões parrudos, melodias familiares. Pieces of you e Creeper têm jeitão de hits indie. E Kids don’t know shit, com aquela pompa britânica, poderia estar num (bom) disco do Charlatans.

Mas seria uma evolução? Não sei. O anterior é mais inventivo e arejado, mas este agrada bastante por soar como um novo desafio, um novo passo para o Islands – não necessariamente para frente, talvez para cima, mas um passo.

Violência gratuita *

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Detratores, uni-vos: com o remake norte-americano de Funny games, vocês ganharam a ilustração mais didática de tudo o que há de autoritário, duvidoso e (segundo vocês, claro) inepto no cinema de Michael Haneke. Parabéns, façam a festa.

E desta vez, infelizmente, não posso fazer nada além de, cabisbaixo e um tanto decepcionado, concordar com o refrão da torcida adversária.

É aquela história: os filmes de Haneke sempre demonstram teses. Em alguns casos, elas rendem belos diagnósticos do tempo em que vivemos, com personagens de carne, nervos e ossos. É o que acontece em Caché, por exemplo. Em outros momentos, a provocação acaba resvalando em exposições professorais (e agressivas, já que Haneke quase sempre se coloca numa posição de superioridade em relação ao espectador) de raciocínios um tanto quanto superficiais. Nessa categoria incluo Código desconhecido (com metáforas tolinhas para a miragem da União Européia) e Time of the wolf (em que o cineasta, no auge dos delírios de auteur, faz as vezes de profeta do apocalipse).

Meu problema com Funny games é de outra ordem: nunca consegui classificá-lo. É um filme que defende um argumento frágil (a de que o espectador é o grande cúmplice da violência no cinema), mas que sempre me impressionou pela virulência com que trata essa fúria desembestada, levada às últimas conseqüências.

Se a experiência deste remake conta para o espectador como uma revisão (trata-se de uma refilmagem literal, quase quadro-a-quadro), fica a suspeita de, ao contrário do que eu imaginava, o tempo não alterou ou ampliou o olhar de Haneke. O cineasta continua a ver o mundo e o cinema por uma lente estreita. Ainda trabalha os climas de suspense com eficiência e arranca ótimas interpretações do elenco (a estrelinha lá de cima é para Tim Roth, Naomi Watts e Michael Pitt). Mas a técnica, muitas vezes, opera a favor da pregação de um argumento plano.

O novo Funny games tem um propósito claro -mirar especificamente o público norte-americano, supostamente o responsável pela “cultura da violência” nas telas – e cumpre essa missão fundamentalista de um jeito mecânico, sem graça ou vida. Faz o serviço de condenar quem produz e quem consome um Jogos mortais, digamos assim. Como se o público não soubesse interpretar aquilo que vê.

Aos que lembram do filme anterior, resta acompanhar, sem reação, os detalhes de um crime premeditado. Haneke comentou que trata-se de um teste para o público: bem-aventurados os que se revoltarem contra aquelas imagens e abandonarem a sala de cinema. Os que suportarem o ritual de sadismo estarão do lado dos bandidos, dos torturadores. Existe uma idéia de conversão, de educação da audiência. O detalhe importante (e óbvio) é que, entre a encenação e a platéia, existe a figura do diretor. Quais os limites do artista diante da representação da violência? Dessa questão, o filme se esquiva bem malandramente.

‘Nouns’ No Age ****

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Outro dia, no comentário sobre o álbum do Dodos, eu falava sobre bandas que nascem prontas. Pode ser prematuro escrever algo assim, mas esse parece ser o caso do No Age. Incrível como este duo de Los Angeles pode ser tomado como o negativo daquela dupla californiana. Randy Randall e Dean Allen Spunt deixam a sensação de que passaram anos e anos envolvidos no trabalho cuidadoso de construção de uma estética, que sofre sutis alterações de uma música para outra. É também um disco que impressiona, mas por caminhos opostos.

Ontem tentei ouvir um disco atrás do outro – primeiro o do Dodos, depois o do No Age. É como sair de uma banheira calorosa e tomar um golpe violento de ar frio no rosto.

Bom lembrar que o No Age não veio do nada, não nasceu como uma explosão espacial. A banda deve imensamente a uma cena noise que ainda fervilha no underground, e em muitos momentos soa como uma fusão do Sonic Youth dos anos 80 com My Bloody Valentine e a estréia do Jesus and Mary Chain. Eles têm o talento de saltar do hardcore furioso ao shoegaze mais melancólico em questão de microsegundos. Mas, acima de todas as referências, existe uma idéia de contenção – um conceito, uma sonoridade – que perspassa os dois primeiros discos do grupo: a coleção de compactos Weird rippers, lançada ano passado, e agora este Nouns, prestes a sair pela Sub Pop.

O álbum anterior entrou na lista de melhores da Pitchfork e o escambau. É um bom cartão de visitas, com todas as esquisitices programadas que provocam uivos de delírio no clubinho indie (eles alternam faixas instrumentais quase etéreas com choques elétricos de dois minutos de duração, por exemplo). Mas é com este Nouns que o No Age se depara com a necessidade de chocar um público mais amplo. É um desafio que eles vencem com muita vontade. O hype está justificado.

Há faixas que se destacam pelos surtos melódicos, como Teen creeps e Ripped knees, mas Randall e Spunt são artistas que entendem mais de ambientação que de canção. Tudo bem, é o que fazem (como diria a sabedoria carioca, cada um no seu quadrado). Nouns quer nos apresentar um mundo. Aí surpreende como, tão novo, o No Age já parece já ter habitado e dominado essa paisagem – selvagem, estranhamente familiar.

Blog is hell

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O blog do Ryan Adams comprova que blogs são todos iguais. Leiam, por favor, o post em que ele afirma que não, não namorou a Alanis Morrisette. E depois aquele em que o sujeito se diz muito triste com as pessoas que visitam o blog e depois o abandonam e nunca mais voltam e o deixam perdidos na escuridão terrível do ciberespaço, que é uma solidão intolerável e blablabla.

Ele nunca ficou com a Winona Ryder, parece. E respeita o Bryan Adams. Que coisa.

‘Visiter’ Dodos ***

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Há bandas que nascem prontas. Há outras que não se aprontam nunca. O Dodos, duo californiano formado por Meric Long e Logan Kroeber, parece pertencer a essa segunda espécie. Visiter é o segundo álbum do grupo. Tem 14 faixas e espaçosos 59 minutos de duração. Mas ele termina e você ainda não sabe o que exatamente está ouvindo. Quem são esses sujeitos? O que eles querem?

Não sei se, no próximo disco, o Dodos renascerá como um projeto coeso e compacto. Por enquanto, essa falta de rumo, essa agonia de metralhadora giratória joga a favor da banda. A beleza deste Visiter (e é um belo álbum, tenham absoluta certeza disso) está em acompanhar o desenvolvimento de uma estética. Fica até a impressão de que as pessoas que escreveram a primeira faixa não são as mesmas que compuseram a última. O disco soa como uma espécie de livro de rascunhos, um processo evolutivo acelerado. Devia se chamar Visiter, the prequel.

E está bom assim. São poucas as novas bandas que se deixam expor desse jeito. As influências do Dodos estão todas à flor da pele. Do Animal Collective de Red and purple ao Beirut de Winter (que também tem ecos de Magnetic Fields), é fácil descobrir o que eles ouvem no tempo livre. Mas, ao mesmo tempo, o que eles fazem é temperar o folk psicodélico com um condimento pop tão doce que, num determinado momento, acabam tirando da cartola uma canção que caberia perfeitamente na trilha fofa de Juno (a curtinha Undeclared).

Escrever discos sobre as bandas favoritas com tanto talento dá nisto: uma impressionante, aconchegante colcha de retalhos. Nos aquecerá neste inverno. 

‘A estrada’ Cormac McCarthy

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Não é o fim do mundo como o conhecemos.

Primeiro: ele não termina num estalo. Se desfaz lentamente, em cinzas e fogo e frio e sangue. Deixa cadáveres no acostamento, cidades abandonadas e famílias partidas. Não sabemos como, mas o pai e o filho caminham por esse ambiente durante uma década. Em busca de comida, arrombam casas vazias. Enfrentam bandos de canibais. Escondem-se na floresta, e lá encontram os rastros de guerras terríveis. E seguem, “cada um o mundo inteiro do outro”.

É essa, esqueleticamente essa, a trama narrada nas 234 páginas de A estrada. De certa forma, um livro de horror. Um filme de George Romero, só que contado com o chocante distanciamento de quem foi ao inferno e voltou. Entendo por que o público norte-americano sempre se manteve afastado da literatura de Cormac McCarthy. Mete medo. As ondas inexplicáveis de violência, que já existiam em faroestes como Onde os velhos não têm vez, devastam tudo o que respira. O mundo, em A estrada, já começa assim: devastado. Antes da primeira linha do primeiro parágrafo. O restante do texto é uma pancada.

Pouparei elogios, já que McCarthy é econômico e conciso – devíamos pensar em limar adjetivos de vez em quando. Mas acho que vocês deviam esquecer os discos e os filmes por alguns minutos e lê-lo a partir deste minuto. Antes que John Hillcoat (diretor da versão para o cinema, que chega no segundo semestre) transforme esta obra-prima num filmeco sobre os últimos homens na Terra. 

Mais Raconteurs (o último, prometo)

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I’d just never thought I’d say it, but: I miss you, Meg White. I miss you.

Resenha muito boa (e muito realista, e muito decepcionada) do álbum do Raconteurs. É do site canadense Cokemachineglow, que funciona muito bem como uma espécie de “Pitchfork do B” (e, numa época em que a Pitchfork rasga elogios até pro Elbow, tá mesmo na hora de buscarmos outras praias).

Uma pessoa como eu

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Leio meus textos para organizar um pouco a bagunça do blog e chego à constatação inevitável: são ruins! Melhor: estão ruins (e aí parto do princípio de que foram melhores, mesmo sem saber como, onde ou quando). Será que é uma fase? Será que passa? Há uma fórmula para escrever com pressa e, na pressa, escrever bem? Não repetir palavras, por exemplo? Nem usar frases de efeito, chavões, desfechos excessivamente bonitinhos?

Pelo menos ainda não estou empilhando enlouquecidas declarações de amor ou comentando crises familiares (também as tenho, não sou de ferro).

Mas ainda. Ainda. Sabe-se lá. Blog, pra mim, é sempre um perigo.

‘Takes’ Adem **

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O álbum é irregular e o intérprete não se destaca numa multidão de machos sensíveis. Mas aposto que este Takes acabará se transformando num disquinho cult. Por um motivo: ele mexe com as lembranças de um público que consumiu toneladas de rock durante os anos 90. Eu e você. E alguns de nós. 

Não é um álbum de covers convencional como, digamos, o da Cat Power. Ou como a maior parte dos álbuns de covers. Ele carrega a sensibilidade de uma época em que a internet expandiu consideravelmente o repertório do fã de rock. É, por isso, um disco com escolhas muito pessoais e, ao mesmo tempo, tangível ao público que devorava com ansiedade tudo o que lia em sites e revistas especializadas.

O inglês Adem Ilhem sabe que pode, no nosso curto-circuito de playlists, gravar um diário universal. Com canções lançadas entre 1991 e 2001, Takes se apropria de anti-hits do Yo La Tengo (Tears are in your eyes, da fase mais melancólica e delicada do trio), do Smashing Pumpkins (Starla, lado B de single), da PJ Harvey (Oh my lover, de Dry), da Björk (Unrevel) e até do Pinback (Loro, do álbum homônimo).

O músico converte essas e outras faixas num folk esquelético, caseiro, prestes a cair no chão e quebrar. Os arranjos mal se diferenciam uns dos outros, e criam uma massa sonora às vezes entediante. Mas, para um sujeito que arrisca interpretar ao violão faixas de Aphex Twin e Tortoise, as surpresas são inevitáveis. Minha preferida é a adaptação alegre de Invisible man, do Breeders, escondida lá no fim do álbum. Quem tem mais de 25 anos e menos de 30 vai se emocionar terrivelmente. Mesmo conscientes de que o disco não mereça tanta lágrima.

Uma chamada perdida °

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Havia uma solução bem prática para este filme: chamar o Takashi Miike, que dirige uns cinco filmes por semana e não se incomodaria em fazer um remake em inglês do One missed call, que ele lançou em 2003. O original era uma das criaturas menos inspiradas do diretor, mas ainda assim a refilmagem teria saído melhor que esta versão higienizada e sem parafusos soltos, cortesia do francês Eric Valette.

Como nos filmes mais vagabundos do repertório de Miike, aquele também usa uma idéia juvenil e absurda (e se um espírito usasse o telefone celular como forma de transitar pelo planeta?) para criar um conceito visual que às vezes soa genial de tão delirante, às vezes resvala no trash deslavado e tolo. De qualquer forma, havia conceito. O diretor deste Uma chamada perdida não tem esse tipo de dor-de-cabeça. Ele vai lá e filma, sem pensar no que está fazendo. Como se estivesse gravando um espisódio de C.S.I. Miami.

E ainda vai ter gente elogiando. Um filme de terror tão limpo, sem aquela violência grotesca, dirão. Mas aí entra a importância de um Miike para nossas vidas. Ele sabe filmar o grotesco. Ele sabe ir às últimas conseqüências, ao fundo da lata de lixo. Os americanos querem fazer horror japonês sem entender essa arte do excesso. Aí dá no que dá: mais um filme sobre fantasminhas acinzentados com bochechas trincadas.

Um plano brilhante *

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Em filmes sobre golpes ambiciosos, você sabe o que vai encontrar: uma trama sustentada em cinco ou seis reviravoltas, uma galeria personagens ambíguos, situações pouco plausíveis e Michael Caine. Caine fez Um plano brilhante antes do ainda inédito (e tenebroso) Um jogo de vida ou morte, que também conta a história de um golpe ambicioso. Deve mesmo ser um desafio trabalhar com um gênero tão banalizado quanto as comédias românticas sobre casamento e as fitas de horror estreladas por fantasminhas orientais.

Nosso circuito tem filme sobre golpes ambiciosos, comédias românticas de casamento e fitas de horror com espíritos malvadinhos. E anda tão raquítico que tem neguinho delirando até com o novo Kar-wai.

Este Um plano brilhante é o que se espera de uma produção sobre planos perfeitos. A diferença é que Michael Radford (de O carteiro e o poeta) dirige pulp fiction com a mão pesada de quem comanda um telefime do Hallmark Channel. Quando a trama fica simplesmente absurda (você roubaria a senha do principal cofre de diamantes do planeta sem se preocupar com impressões digitais?), o filme não demonstra leveza ou senso de humor. Mas tem momentos divertidos. Nas cenas em que, por exemplo, Demi Moore aparece com uns 80 anos de idade, maquiagem pesadíssima e aquele tipo de interpretação compenetrada de quem implora por um Oscar. Saudades de Proposta indecente (N.E.: Sério, Tiago?)

E Michael Caine? Você sabe o que vai encontrar.

The office, segunda temporada ***

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Como fã do original britânico, meu primeiro contato com o The office norte-americano foi o pior possível. Nem lembro quantas vezes tentei assistir ao primeiro episódio da primeira temporada. Só na quinta ou na sexta vez comecei a entender que Steve Carell nunca será Ricky Gervais, que John Krasinski nunca será Martin Freeman e que, finalmente, o remake é uma sitcom em muitos aspectos convencional – enquanto que, na BBC, a idéia era experimentar um formato novo para o gênero.

Não sei se vocês sabem, mas o The office inglês foi criado como que uma brincadeira. Gervais sabia fazer uma imitação ótima do chefe turrão, estúpido e sem-noção. Inspirado nesse tipo intragável, o amigo Stephen Merchant teve a idéia de um piloto caseiro, com câmera digital, como um documentário amador. A fita caiu nas graças da emissora, que testou a série (por medida de segurança, já que não sabia se as pessoas se interessariam por algo tão esquisito) na BBC 2. No início, o programa não fez sucesso, mas com o tempo ganhou status de atração cult. Principalmente quando ganhou o merecidíssimo Globo de Ouro de melhor série cômica e saiu em DVD.

Seria impossível, por isso mesmo, traduzir com fidelidade esse humor “anormal” para a tevê norte-americana. O espectador precisaria de uns cinco episódios para se ambientar ao ritmo dos roteiros e começar a soltar as primeiras risadas – o que seria fatal para o programa. Daí que a adaptação da NBC, sob supervisão de Greg Daniels (que já escreveu episódios dos Simpsons), apela para um texto mais leve e ligeiro. Ainda assim, a estética provoca alguma estranheza. A primeira temporada, que tenta encontrar essa nova gramática para a série, é tentativa e erro. Lentamente, os roteiristas abandonam a ironia britânica em prol da gargalhada mais direta, mais universal. É uma transição árida.

A partir da segunda fornada de episódios, a série encontra o rumo. E acredito que principalmente por apostar num perfil menos amargo para o personagem de Steve Carell. O chefe continua odiado, mas agora desperta compaixão e alguma simpatia. Algumas subtramas – como o affair do chefe com a poderosa Jen e os preparativos para o casamento de Pam – tiram o foco da estética pseudo-documental e buscam uma dramaturgia à folhetim, um recurso que funciona nesse formato. Lá pelo décimo episódio da segunda temporada, já estamos diante de um seriado totalmente diferente do britânico, mas que mantém o essencial: a radiografia dessa família desconfortável que se cria no ambiente de trabalho. É um documentário sobre nossas vidas, de certa forma – já que, em horário comercial, elas são sempre meio patéticas assim.