‘Evil urges’ My Morning Jacket **

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Não sou o responsável pelo diagnóstico, mas me sinto obrigado a concordar com ele: você ouvirá alguns álbuns esquizofrênicos este ano, mas poucos parecerão tão arriscados quanto este Evil urges, o quinto trabalho do My Morning Jacket. A aparência é mesmo essa aí – a de um disco robusto e inventivo, uma jornada sem destino definido. Mas preciso contar um segredo antes de seguirmos adiante: depois de algumas audições, ainda não consigo enxergar o fiapo que une essas 14 canções. E nem estou certo de que exista algum.

Outro dia elogiei o álbum do Dodos por motivo parecido: ele me conquistou por apontar várias direções musicais para um grupo ainda em processo de formação. O caso do My Morning Jacket é um pouco diferente. A banda que consagrou um certo estilo (o alt.country com ecos e delírios psicodélicos) e agora faz um esforço danado para negar essa marca e se firmar como uma gangue de artistas-garimpeiros, inclassificáveis, livres de obrigações estéticas, movidos pela curiosidade.

Esta é a intenção que tentam colocar em prática desde Z, de 2005. Como continuação daquele projeto, Evil urges não frustra em nada: é, por definição, irregular. “Meu objetivo é apresentar às pessoas estilos diferentes de música”, comentou o vocalista Jim James à Rolling Stone. Na entrevista, ele se compara a Wilco, Pearl Jam, Björk e Radiohead. Fiquemos com Pearl Jam e Wilco, bandas que tentaram se reinventar dentro de certos limites, sem abandonar por completo o aconchego do lar. O My Morning Jacket segue essas instruções à risca, o que faz de Evil urges uma intensa (e às vezes exagerada) demonstração de tudo o que a banda pode e quer fazer neste exato momento.

Como o anterior, é um disco que consigo admirar, mas com certo distanciamento (o que não acontece com o caloroso e relativamente simples It still moves). Só existe uma música que me tira do sério, e é uma balada até convencional (Smokin’ from shooting, com uma viradinha genial de bateria). As outras exibem belos conceitos, mas sem a substância que pelo menos eu esperava deles.

Não chega a ser uma decepção, já que as provocações do My Morning Jacket soam mais interessantes que a dúzia de grupos parecidos que eles acabaram apadrinhando. E não dá para negar o impacto de um álbum que começa com climas à Radiohead (a faixa-título), segue rumo aos anos 70 do Fleetwood Mac (Touch me I’m gonna scream), descamba num funk que parece uma mistura de Prince com Talking Heads (Highly suspicious), presta homenagem declarada aos Carpenters (Librarian), passeia pelo Neil Young rural de Comes a time (Sec walking) e ainda arruma espaço para baladonas que caberiam num disco do Lionel Richie (Thank you too) ou do Ryan Adams (Two halves). Uma infinita jukebox.

Não duvide: qualquer texto sobre Evil urges será longo e abarrotado de nomes de outras bandas. Estou impressionado até agora. Mas é essa a missão de um grupo que quer soar diferente de todos os outros?

7 comentários em “‘Evil urges’ My Morning Jacket **

    feliperezende disse:
    maio 1, 2008 às 2:45 am

    Prince com Talking Heads e baladas Lionel Richie? Hahaha quero ouvir.

    Semana passada re-baixei o Z, mas não desceu muito bem não.

    Enfim, falando em fiapo que une canções, o do Vampire Weekend faz bem isso né? Redondinho o disco.

    Tiago respondido:
    maio 1, 2008 às 2:55 am

    Pois é, Felipe, já tentei o Z várias e várias vezes. Gosto de algumas músicas, mas o álbum não me convence no conjunto.

    O do Vampire Weekend é bem bacana, comprei a versão em CD. Redondinho mesmo.

    Danilo M. disse:
    maio 1, 2008 às 3:13 am

    Tiago, você já ouviu as novas do Alkaline Trio?
    Me surpreenderam cara…

    alves, le roi disse:
    maio 1, 2008 às 6:24 am

    valha-me deus. que layout tenebroso. gente pulando assim so da certo em clipes como cross bones style.

    vi margot at the wedding.

    pior dialogo: “i tend to get overly self-conscious opening gifts in front of others” (por ai).

    noah nao é wes, i’m afraid.

    acho que v. vai gostar de cheers, aquele seriado dos 80. tem um episodio estranhissimo de tematica homossexual. começa desanuviado, vai pro desinibido, acaba numa pegadinha de corar o coraçao. eu o avaliaria com 4.5 estrelas (uau!), mas os ultimos 30 segundos colocam tudo a perder. alguem precisa escrever uma tesa sobre “30 segundos que colocam tudo a perder”.

    Tiago respondido:
    maio 1, 2008 às 12:00 pm

    Danilo, vou ouvir.

    Alves, ouvi falar que é um bom seriado. Mas daí a encontrar tempo para ver os episódios… Difícil.

    gabriel disse:
    maio 30, 2009 às 1:54 pm

    evil urges toca inteiro nos meus fones. esse disco mostra realmente que uma banda pode tocar diferente fazendo a mesma coisa que faz desde 99. isso que importa. saber se reinventar, sem mudar o estilo.

    Letícia disse:
    dezembro 11, 2014 às 2:10 am

    Não tem como nao gostar de uma música do Jim, o cara é demais. São estilos, e tem gente que adora, como eu. Eu coloquei evil urges e circuital inteiro p tocar no meu celular também. E o ritmo sempre muda, mas o estilo das musicas é esse ai mesmo

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