The shape of things to come ***

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Há o grupo dos que vêem esta quarta temporada como uma espécie de ressurreição criativa de Lost – não sei ainda se faço parte dele. Não discuto, porém, o fato de que estamos num momento de transformação para a série, que se viu obrigada a abandonar um certo modelo narrativo para se adaptar a um formato mais compacto, de poucos episódios. Em outros carnavais, as temporadas eram divididas em três grandes blocos: à da introdução do conflito principal, seguiam o desenvolvimento e a conclusão. Agora, quase todo capítulo já chega com a pompa de uma season finale: carregados de reviravoltas, ação desembestada e desfechos bombásticos. Os que fogem dessa regra acabam soando simplesmente desnecessários (e até o anterior, com o perfil redundante do Michael, terminava com uma explosão).

Chamem-me de nostálgico ou do que for, mas não sei se prefiro esses novos tempos. Para abraçar a quantidade de personagens sem lapsos de lógica ou soluções forçadas de roteiro, uma narrativa mais folgada faz mais sentido. De qualquer forma, essa mudança trouxe uma nova pegada para a série, mais urgente e bruta. O tom, ainda que sem sutilezas, combina como uma temporada de conflitos violentos, molhada de sangue.

É por essas e outras que este novo episódio me parece um dos mais importantes da safra: ele finalmente banca essa nova direção da série, à Mad Max 2. Esta é, acima de tudo, uma história de guerra, de salve-se quem puder. E, maniqueísta como uma HQ de super-heróis, polarizada entre duas forças: o maquiavélico Ben e o milionário excêntrico Charles Widmore. Todos os conflitos da temporada (e talvez os das próximas) gravitarão em torno dessa dupla de personagens. A maior missão dos roteiristas, daqui em diante, é nos convencer de que valeu esperar tanto tempo para isto: testemunhar um jogo de gato e rato. Aos que esperavam respostas místicas e mirabolantes às questões mais obscuras sobre a ilha, pode parecer uma guinada até frustrante.

Mas não aqui, não neste capítulo. Coerente com o espírito truculento da temporada, o episódio vai direto à carnificina e, nos intervalos do tiroteio, explora a psiquê de alguns dos tipos principais da trama. A perversidade de Ben (o centro da série, cada vez mais) leva um golpe cruel com a decisão de brincar com a vida da própria filha. Enquanto isso, a confiança de Jack nos forasteiros desaba numa cena que, curtinha e dolorida, diz muito sobre o futuro do personagem. Isso sem contar os detalhes do encontro entre Ben e Sayid, quase um “acordo de cavalheiros”. O capítulo poderia até ter terminado sem a explicação para o “monstro de fumaça” ou a ótima cena do encontro entre Ben e Widmore, mas tudo isso acaba confirmando que esta é a temporada do excesso de informações. Vale lembrar que o grande enigma da primeira temporada era saber o que havia dentro de uma escotilha.

Contanto que essa overdose não dê num daqueles episódios esquizofrênicos de Heroes, vamos bem.

12 comentários em “The shape of things to come ***

    Diego disse:
    abril 27, 2008 às 6:06 am

    É maniqueísta no sentido de polarizar a guerra, mas não dá pra saber para qual lado torcer. Isso não é pouca coisa, Tiago. Não mesmo. Os caras vão esticar essa dúvida sobre o caráter dos dois até o final – e é bem capaz que, ao final, os dois se mostrem maquiavélicos.

    Não vejo como isso pode ser frustrante para quem esperava respostas mirabolantes para os maiores mistérios da série. Oras, a disputa entre Ben e Charles explica muita coisa, mas não tudo. E Jacob? E o monstro de fumaça? E os habitantes anteriores da ilha? E as viagens no tempo? E essa aparente capacidade de teletransporte da tal estação Orquídea? E as conexões bizarras entre os sobreviventes?

    Excesso de informação é o menor dos problemas. Tem muita reviravolta pra acontecer e ser explicada, e a mais previsível delas envolve Ben caçando Penny (ela ainda não encontrou a ilha e, creio, pode ser a salvação dos que ficaram lá). Tô ansioso pra ver.

    Por que essa frescura de achar que a guinada dessa temporada rumo a caminhos mais ágeis É UM PROBLEMA?

    É só pegar o exemplo do corpo que apareceu na praia. Em outras temporadas, demoraríamos vários episódios para descobrir a identidade do cadáver.

    Nesse, a identidade é revelada de cara e a aparição do cadáver abre perguntas bastante interessantes sobre a natureza da ilha. É uma inversão de expectativas que explica bem essa quarta temporada.

    (no mais, o episódio já valeu pela cena de Ben com a Alex)

    Tiago respondido:
    abril 27, 2008 às 1:34 pm

    Diego, eu não acho esse novo tom necessariamente um problema. Mas que é diferente das outras temporadas, é (pelas razões que vc mesmo disse). Agora, não estou entre os que torcem pela revelação de uma incrível quantidade de soluções para a trama a cada episódio.

    Digo que pode ser frustrante porque conheço gente que acabou abandonando a série nesta temporada, quando os mistérios começaram a se revelar de um jeito menos mirabolante e mais ‘pé-no-chão’. A partir do momento em que colocam a briga entre o Ben e o Charles no centro dos conflitos (e levantam a questão: qual dos malvados tem o direito à ilha?), cobram do espectador uma inversão de expectativas mesmo. Em muitos momentos me pego pensando: caramba, parece até outra série.

    O que não é ruim. E acho que Lost até precisava dessa mudança de eixo para não morrer na praia. Mas que pode frustrar, pode.

    Rodrigo disse:
    abril 27, 2008 às 2:19 pm

    Também não tenho problemas com as mudanças e acho até agora a temporada excelente. Engraçado que já ia falar sobre essa questão do maniqueísmo que o Diego citou; a série fica realmente bem acima de outras em relação ao modo como mostra esse conflito entre Ben e Widmore (a cena dos dois é bem foda, aliás), sem nunca demonstrar quem é o bonzinho ou o malvado (se é que existe bonzinho). A cena com a Alex é incrível, Michael Emerson mata a pau nela.

    Tiago respondido:
    abril 27, 2008 às 2:37 pm

    Rodrigo, nem acho que a idéia seja mostrar quem é bonzinho ou não. Os dois fizeram muita maldade e a série não vai poupá-los disso.

    Bruno Amato Reame disse:
    abril 28, 2008 às 1:54 pm

    To com vc – parece mesmo outra série, sem que isso seja necessariamente ruim. Entretanto, essa temporada tem poucos baixos (nenhum bola preta, só um 1 estrela) mas também poucos altos (até agora não dei 4 estrelas pra nenhum episódio) comparando com as temporadas anteriores (em que haviam vários episódios ruins mas tb vários 4 estrelas). Talvez Lost precise duma certa irregularidade. Em todo caso, eu vejo essa temporada como um laboratório dos roteiristas, no qual tão fazendo experiências pra saber em que direção levar a série nas próximas temporadas.

    Tiago Superoito respondido:
    abril 28, 2008 às 1:57 pm

    Talvez seja isso mesmo, Bruno. Mas é impressionante como a série é irregular – e digo isso sobre as outras temporadas também. Não tive a experiência de assistir ao pacote completo em DVDs, mas deve ser algo estranho.

    Bruno Amato Reame disse:
    abril 28, 2008 às 2:04 pm

    Uma coisa que esqueci de acrescentar: o ritmo rápido tem sim suas desvantagens. O quarteto do cargueiro, por exemplo, ficou de escanteio nessa temporada.

    Diego disse:
    abril 28, 2008 às 4:08 pm

    Bom, ainda há alguns episódios antes da gente poder dizer isso, Bruno. Mas a participação do Faraday, até agora, foi importantíssima.

    Tiago respondido:
    abril 28, 2008 às 4:55 pm

    Olha, só hoje pela manhã três pessoas conhecidas vieram dizer que estão odiando os novos rumos da série.

    Bruno Amato Reame disse:
    abril 28, 2008 às 5:06 pm

    Tudo bem, Faraday é quase exceção. Mas os outros três tem pouca participação na série até agora (e nenhum deles vai ganhar um flash próprio até o fim da temporada, por exemplo). A que mais sofreu com isso foi a Charlotte, que provavelmente deveria ter uma participação maior (certamente não é coincidência que ela achou um urso polar na Tunísia, mesmo país em que o Ben aparece neste episódio).

    Tiago Superoito respondido:
    abril 28, 2008 às 5:08 pm

    A Charlotte participou desse episódio mais recente. Ela fez um olhar de “não tenho nada a ver com isso” e desapareceu.

    Ed disse:
    abril 28, 2008 às 6:43 pm

    Um produtor disse que exploraria mais a história do piloto do avião (que esqueci o nome) nessa temporada.

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