Dia: março 30, 2008

Walk hard: the Dewey Cox story **

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Sim, havia os desenhos animados. Mas lembro bem de quando me apaixonei terrivelmente, incondicionalmente por comédias. Na minha alfabetização, nada de Mel Brooks ou de Buster Keaton ou de Charlie Chaplin – esses viriam bem depois. Culpem o final dos anos 80, mas Corra que a polícia vem aí é meu Diabo a quatro (dos Três Patetas, que fique claro). Um clássico da minha pré-adolescência. Que, obviamente, morro de medo de rever.

Mas reconheço que o gênero defendido pelo trio David Zucker, Jerry Zucker e Jim Abrahams poderia ter sido enterrado em alguma matinê esvaziada de 1994. Banalizaram tanto as paródias de fitas de sucesso que hoje em dia qualquer lagartixa dirige filmes melhores que, para ficarmos no exemplo mais grotesco, Espartalhões.  Daí a surpresa que é esse Walk hard, a melhor aplicação rigorosa da cartilha desde… não lembro quando.

Infelizmente, ainda não é a paródia dos nossos sonhos. Co-escrito por Jude Apatow (de Ligeiramente grávidos), o filme poderia ter rendido muito mais que um simples amontoado de gags. É bem-vinda a ambição de espinafrar as cinebiografias mais automáticas de Hollywood (se bem que, ops, I’m not there também acaba virando alvo). Menos interessante quando as piadas se inspiram basicamente no repertório de dois blockbusters: Ray e Johnny & June.

A narrativa cai naquele vício de parecer uma compilação de esquetes do Saturday Night Live (está mais para Todo mundo em pânico que para Apertem os cintos, o piloto sumiu). Mas esse tipo de produto aborrece tanto que, no caso, dá para ficar muito animado com a qualidade das gags. A colcha de retalhos é alinhavada por um ótimo John C. Reilly, por boas canções e (algumas) sacadas atentas sobre os clichês da música pop. Toda a “fase obscura” de Dewey Cox, com viagens lisérgicas que descambam num álbum psicodélico absolutamente pretensioso e em canções políticas cheias de metáforas incompreensíveis, vale as referências abobadas aos Beatles e, bem, a Ray e Johnny & June.

Pena que Dewey Cox não sobreviva ao filme. Não é como Frank Drebin, um personagem de carne e osso. O herói de Walk hard é a soma de três ou quatro caricaturas. E de, ok, cinco ou seis piadas verdadeiramente hilariantes.