‘Jim’ Jamie Lidell ****

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jamielidellcapinha.jpgMeus favoritos do ano, até 16h47 (horário de Brasília) do dia 27 de março de 2008: uma monumental revisão da tradição do country rock (Brighter than creation’s dark, do Drive-By Truckers), uma festança de punks adolescentes enloquecidos e ultrapassados (Get awkward, do Be Your Own Pet) e, finalmente, um álbum que presta homenagens apaixonadas, apaixonantes e rigorosas a uma escola de velhos gênios da soul music. Três “discos de gênero”, que devem tanto ao passado da música pop. O que acontece?

Outro dia eu estava espinafrando o novo do Raconteurs, e não peço desculpas. Existe, creio eu, um abismo entre artistas que seguem parâmetros envelhecidos e aqueles que, mesmo sem pretensões (como no caso do Be Your Own Pet), atualizam ou subvertem um conjunto de símbolos culturais. É essa a praia de Jim, o novo de Jamie Lidell.

Acima de qualquer teorização besta, trata-se de um álbum que soa direto, aconchegante e econômico como uma coleção de hits gravada por algum soulman em 1967. A maior ousadia do projeto está nessa aparência bastante acessível. Explico: Lidell construiu toda a reputação como um artista de música eletrônica “de vanguarda” com certa inclinação pelo soul. As influências de canção popular já contaminavam Multiply (2005), mas aquele era um álbum com momentos experimentais que satisfaziam os fãs mais radicais. Essa lógica foi deliciosamente invertida numa guinada que pode irritar quem espera do músico uma colagem sonora à Panda Bear.

Não é meu caso.

Em Jim, Jamie praticamente abandona underground e cobra atenção do público que compra CDs em supermercados e ouve Jamiroquai. Um golpe, se não arruinar a carreira do sujeito, provavelmente o transformará num ícone pop. E daí? Pelo menos para Justin Timberlake e Timbaland, que cairão de quatro por este grande disco.

Seria isso maturidade? Sabe-se lá. Acontece que, hoje em dia, Jamie testa uma nova hierarquização para a própria arte. Em primeiro lugar, as melodias. Em segundo, os vocais calorosos, emotivos. Em terceiro, as letras otimistas, tostadas ao sol. Em quarto, e só em quarto, as experiências com música eletrônica, que enriquecem a sonoridade do disco sem aparecer demais. No processo, ressalta o sublime num gênero maltratado pela constante ameaça de pasteurização. São tocantes as referências a James Brown (Little bit of feel good) e a Marvin Gaye (Rope of sand), e a alegria como Another day abre o disco, ao som de passarinhos e com um refrão que vai fazer você chorar no próximo comercial de margarina.

Espero sinceramente que o álbum não seja interpretado como uma diluição da trajetória de Jamie (mas reconheço que isso deva ocorrer, o mundo é cruel). Gente como Lauryn Hill e até Kanye West veste a soul music com as roupas da estação, e o faz com muita competência. Jamie pertence a outro grupo de artistas. Ele é o alquimista que une elementos conhecidos na tentativa de sintetizar a canção mais viva. Jim é o resultado da experiência: o robô com suíngue e coração.

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9 comentários em “‘Jim’ Jamie Lidell ****

    daniel pilon disse:
    março 28, 2008 às 12:49 am

    Opa, um ****. Ainda não tinha ouvido falar sobre esse sujeito, vou baixar esse aí.

    Andei ouvindo o novo do Guillemots e achei medíocre. E aquele Hercules and Love Affair, que é fraco apesar de ter um single muito bom.

    Fernando disse:
    março 28, 2008 às 1:09 am

    Tá todo mundo falando mal desse novo do Guillemots.

    Tiago respondido:
    março 28, 2008 às 10:17 am

    Eu ouvi o do Guillemots e achei uma merda. Mas só ouvi uma vez. O Hercules and Love Affair já ouvi algumas vezes e ainda estou tentando descobrir o que tem de tão genial. Ainda estou tentando.

    daniel pilon disse:
    março 28, 2008 às 11:27 am

    Falling Out of Reach e Cockateels do novo do Guillemots são legais, mas acho que é só.

    Tiago respondido:
    março 28, 2008 às 12:53 pm

    O legal é que tinha vazado uma versão fake do disco do Guillemots que era bem melhor que o disco em si, hehe. Parece que é o álbum novo de um sujeito sueco, até deixei guardado no meu ipod.

    Diego disse:
    março 29, 2008 às 3:36 pm

    Achei bem ruim o do Guillemots também.

    Diego disse:
    março 30, 2008 às 12:25 am

    E, puts, obrigado pela dica do Jamie Lidell. Já viciei.

    Tiago respondido:
    março 30, 2008 às 12:41 pm

    Eu ouço tanto esse disco que já decorei tudo. A melhor, pra mim, é “Figured me out”.

    Diego disse:
    março 31, 2008 às 4:10 am

    A MINHA TAMBÉM! :D

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