Dia: março 24, 2008

‘Consolers of the lonely’ The Raconteurs **

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raconteurs.jpgOlhe mais de perto e você perceberá que, deus!, Jack White e Brendan Benson são dois sujeitinhos bem conservadores. Daqueles que estocam discos de vinil em abrigo nuclear com medo do domínio de uma nova onda tecnológica qualquer.

Só essa desvairada nostalgia justifica a estratégia de marketing do segundo álbum do Raconteurs. Um mini-manifesto explicando a razão de um lançamento simultâneo em todos os formatos num mesmo dia – já sei: por amor ao rock ‘n’ roll? – destoa tão completamente do momento em que vivemos que a capa do álbum só poderia mesmo conter referências à América… de uma época distante em que a comunicação se fazia apenas por cartas (daí o título do disco, o velho lema do prédio principal do Correio em Washington).

É aquela lição que nossas vovós nos ensinaram: quem se apega demais ao passado vira Lenny Kravitz (ok, inventei essa agora).  Claro que White e Benson tratam a história do rock com um humor faceiro que Kravitz nunca teria capacidade intelectual para simular. Mas eles se deixam guiar por parâmetros artísticos caducos. Por exemplo: essa pretensão boba de gravar o “grande disco de rock ‘n’ roll”, um rótulo que Consolers of the lonely adoraria ostentar. Já não passou da hora? Isso ainda serve?

E vê como é a vida? Eles planejaram todo um esquema para fazer com que o álbum chegue a todos os seres humanos simultaneamente amanhã, dia 25, e aconteceu o que? Ele escorregou pelo iTunes e, nesta altura, até minha tia caduca já decorou as letras. Tentaram domar a rede mundial de computadores, os tolinhos.

Sabotar o hard rock e o heavy dos anos 70 num formato lo-fi é uma coisa – e essa é uma idéia que o White Stripes já tratou com muito esmero. O Raconteurs, uma “banda de verdade”, não se dispõe a esse tipo de desafio. O que Benson e White fazem na hora do recreio é gravar discos que poderiam ter sido consumidos durante os anos 70. Com muito cuidado. Com algum talento. Com vigor. Com tino pop. Com faro comercial. Eles são bons compositores. Mas os dois álbuns do Raconteurs soam apenas corretos. Perigosamente corretos, alías. Já que, sabemos, rock correto equivale a sexo com boneca inflável (nunca tentei, mas aposto que deve ser pelo menos um pouquinho gostoso, apesar da ressaca moral).

Neste monumental segundo álbum, a banda se revela mais entrosada, mas ainda sem uma estética particular. Na maior parte das faixas, fica a impressão de que Jack White engole o grupo aos poucos, como quem compõe canções anabolizadas do White Stripes – em The switch and the spur, aparecem até os sopros mariachi de Conquest. Os grandes candidatos a hit são como que remixes radiofônicos do WS. E Top yourself, Salute your solution e Five on the five são remixes até bem eficientes. Há trechos em que Benson tenta se libertar das correntes e infiltrar algumas melodias à Paul McCartney no jogo, mas sai perdendo. É inevitável. Jack White tem carisma, e sabe o que faz.

Poder de fogo eles têm. Mas, lá pela décima faixa do disco (são 14!), a pompa começa a pesar. O Raconteurs não era para ser um projeto despretensioso? A partir de agora, ninguém tem o direito de se enganar: dominar o planeta é a idéia deles de diversão.

O sonho de Cassandra **

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cassandra.jpg

São mesmo grandes as semelhanças entre as premissas do novo Woody Allen e do recente (e impecável) Sidney Lumet. Mas acredito que mais interessante do que tomar um dos filmes como exemplo de “bom cinema” é aproveitar as coincidências para entender as especificidades de cada cineasta. O filme de Allen é desconjuntado e bem menos furioso que o de Lumet, mas eu não esperava nada muito diferente. A crítica do Roger Ebert é problemática por conta disso: se Allen tivesse feito um thriller à Lumet, qual teria sido a graça?

Prefiro outro tipo de comparação: frustrante é como este Cassandra’s dream parece minúsculo (em estofo reflexivo, já que estamos na fase inglesa e supostamente sofisticada do cineasta) perto de Match point e talvez até do esquecível Scoop. O cineasta passa tão à margem das pretensões do material, e de uma forma tão desleixada (ele filma uma tragédia grega como quem narra uma crônica londrina) que aposto como este filme será motivo de culto em algumas estranhas comunidades fechadíssimas – aquelas que encontram momentos de brilhantismo em Igual a tudo na vida.

No currículo de Allen, o filme não fará muita falta. Mas me interesso pelo modo como o cineasta obsessivamente repete uma velha ladainha – “a vida é uma tragédia irônica” – e, com um tipo de distanciamento meio blasé, acaba encurralando os personagens numa conclusão esparsa, sombria, que qualquer outro diretor (até mesmo Lumet) encenaria em tom maior. E conseguir esse efeito friorento acompanhado de uma trilha espalhafatosa do Philip Glass não é para qualquer um.

BBB

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Você conhece alguém que torce pela Gyselle?

Então dê uma gravata nessa pessoa. Por mim. Obrigado.

Ainda R.E.M.

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Michael Stipe na Pitchfork:

We went to the most obvious place, which was to do really fast songs that were really short. Peter did what he does, I did what I do, and Mike did what he does, so we kind of trimmed the fat, if you will, and got down to the very basics that make each of us musicians.”

Eu já sabia. Mas é interessante a palavra “óbvio” saindo da boca do Stipe. No mais, ele comenta que a dica do produtor Jacknife Lee veio, como suspeitávamos, do The Edge mesmo.