Dia: março 23, 2008

Juízo ***

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Os repórteres que cobrem histórias de crimes acabam sempre tombando na limitação de não poder divulgar a identidade de criminosos ou vítimas menores de idade. Há um sem-número de explicações para a barreira jurídica (e não tenho opinião formada sobre o assunto), mas estou certo de que ela trava a humanização, na mídia, desses personagens. Os jovens que cometem crimes – ou sofrem algum tipo de abuso – se transformam em iniciais, ou em nomes fictícios. Não têm rosto, não têm voz. Quase não existem. Como escrever o perfil de um fantasma? Já vivi essa dúvida algumas vezes, e ainda não encontrei saída para o questão.

Neste documentário, Maria Augusta Ramos toma uma decisão muito corajosa e acertada ao substituir os menores infratores por outros jovens, atores do drama alheio. É corajosa por que o recurso provoca no espectador um distanciamento inevitável a cada cena, a cada interrogatório que sabemos tratar-se de (pelo menos em parte) escancarada encenação. Não temos o direito da ilusão. E acertada por garantir a esses personagens rostos, expressões. Eles ganham o direito à vida, nada menos que isso.

Mas voltemos à questão da encenação. As comparações com Jogo de cena me parecem um pouco apressadas, já que a diretora desce as cartas logo nos letreiros iniciais. Ela não quer nos enganar, não quer provocar profundas reflexões sobre a imagem. No filme, aliás, o trato com a imagem é grosso e reto, sem rebuscamento. Maria Augusta se diz influenciada por Bresson e Ozu, mas é forçar amizade. O que aproxima Juízo das obsessões de Coutinho é o quebra-cabeças de múltiplas encenações. Os meninos atuam. Mas eles estão inseridos num processo jurídico que, por si só, já se entende como um conjunto de atuações (e a juíza, principalmente, faz por merecer um prêmio de melhor atriz).

O fio entre Juízo e Justiça, o longa anterior da cineasta, se amarra aí: para a diretora, é possível revelar os bastidores de fóruns e juizados, mas não sem expor o teatro que move as instituições. Os dois filmes tratam do tema com foco impressionante. Melhor: não exigem do espectador conclusões imediatas nem consensuais. Estamos diante do problema. De vários problemas: na vida e no cinema.